O buraco e a cobra do dinheiro

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Cada dia é um dia... teimosamente essa frase ecoava-me na infância do dia.

O buraco e a cobra do dinheiro

Meditei no livro antigo no primeiro livro dos reis. Lá no sete , Salomão edificava, depois de treze anos, a sua casa. O sonho da casa própria me ocorreu.

Mas não é que cada dia é mesmo um dia? Nesse dia saí com os pensamentos ordenados e focalizados. Queria atrair somente coisas boas nesse dia, coisas afáveis nesse dia, coisas edificantes nesse dia, um dia diferente do outro dia.

Na juventude do dia, o céu zangado rolou o balde de água que procurou embriagadamente caminhos para estacionar.

Quando ela cai, crianças, jovens e velhos sentem o efeito. Nessa parte abro um parêntesis para dizer que é tão divertido ver os homens irritados com o fenómeno belo, aliás puro, permitindo a Salomão uma descrição poética dele. A chuva.

Eles amaldiçoam santos, pois é são Pedro quem tem a chave na mão, juram quase ajoelhados. Descrever o estrago da chuva na cidade é não economizar palavras, todos conhecemos o cenário e, como ia dizendo, agora já posso fechar os parêntesis e continuar normalmente para tentarmos já dizer como tudo aconteceu nesse dia.

Uma poesia de lamentos na Boavista. Calma, vou contar a estória. Eu testemunhei todos os factos que lá aconteceram e maravilhou os povos. Nunca tal aconteceu pelo menos aos olhos de todos aqueles que viram o que aconteceu nos beiços da polícia, sem exageros, foi a escassos metros e a mulherada cada uma encostada aos seus pensamentos.

Na agitação da noite mística grupinhos abraçados em garrafinhas douradas que exalavam cevadas e outros líquidos etílicos, também juntavam na roda as conversas, conversas desse dia, os mujimbos e mujimbices, boatos, factos e os atos aventureiros das gentes das ruas dos becos dos bairros da vida.

As gargalhadas e os sorrisos malandros, achas que faltaria a licenciosidade da carne? No submundo, a correria louca atrás dos traillers, no sonho de pegar alguns kwanzas voadores. Tal como entra, tal como some. Esqueci-me de Malaquias, falou do roubador das fazendas do crente que não dá dízimo e não é que aqui também há o embelezar dos entendimentos! Forjam-se contextos no texto, embaciando-o e gritando que é a verdade, é a verdade. Foco na rapina da fé.

O outro lhe perguntaram na mulher se como ainda é que esse roubador vem. Mas o observável é a mingua dos tostões sempre, Isaías falou de gastar naquilo que não é pão. Consumismo, palavra bonita, não é verdade? Na rua e nos becos consumiam-se também os bolsos.

Tu também nunca pagas e queres sempre beber... o outro, paga lá mazé amanhã pago eu. A mão não parava de vasculhar a surrada pasta de documentos. Caíram os cartões do jovem. A moça. Também estão todos caducados. Mais uma gargalhada, mais uma mordida na asa do frango que sai do carvão.

Os miúdos na agitação da roubagem nos camiões, é meter pedra é zangumunar mercadoria, é tirar o pé. Tudo à toa ali com eles, comigo, com o dia, esse dia!

O jovem é escritor desses sem o lombongo, na mendicância estamos todos lá, tipo. Tinha saído com o carro do amigo. O dele, um desses jeeps vindos do Dubai, tinha feito lá um kilapi no banco e comprou o carro, mas está avariada a caixa de velocidades. Dava lá aula ainda no ensino médio.

Bom jovem. O morto é sempre bom. Mas ele tipo não morreu. Ainda hoje grita por ajuda. Calma, vou contar. Ao lado, no meio da estrada, um buraco. Tinha começado pequenininho, não lhe ligaram lá o choro.
Um pouco à frente estava a pensão.

Aqui já fizeram juízos de valor, eu vos conheço... alguns. Então mas é isso, depois da polícia tem a seguir a pensão. Falando em pensão, há muitas estórias para contar. Qual a que te ocorre agora?

No meio da estrada o buraco crescia, crescia. A sede também lhe crescia. Era uma mina, alguém pisaria nela. Cada dia é um dia e cada um tem o seu dia. Aquele era o dia do jovem escritor. Pai babado tinha saído bem de casa, mulher hoje tenho uma entrevista na televisão, e vou pegar no escritório do patrocinador o cheque, beijo, mulher te amo.

Deu um abraço demorado ao pequeno. Morava no Cacuaco, sentia o cheiro do peixe da Mundial, dois passos de casa. Parei por aquelas bandas só para deixar acalmar a chuva, eu moro na Pedreira. A chuva não impedia o consumo, na rua, no beco, na pensão.

O toyota celica verde escuro vinha tateando pela estrada maltratada que parecia sarnenta, calculando o caminho. Certamente animado e festejando na cabeça dele a entrevista na televisão, um pouco de imagem, nunca ninguém que lhe tinha ouvido, só na escola dele, iria editar o primeiro livro.

Da pensão saíam gritos. O buraco na estrada alastrava-se. Eu acabava de dar mais um gole na minha geladinha. Pincho não, como em casa. Se há uma coisa que é verdade é que eu sou muito esquisito na alimentação. Gosto mesmo é dos pitéus da minha amada, minha dama amada. Pratos suculentos e nutritivos, nem gordura a mais nem a menos. Meu amor, continua assim que eu amo os teus pratos e o teu prato o outro que gosto de saborear.

Coitado do senhor, aí tem buraco! As duas mãos da moça sobre a cabeça. O guloso do frango gritou com a parte da asa ainda a ser triturada na boca onde dá para ver a dentição apodrecida. Mal consegue mastigar em condições. Gritou, boelo aí tem buraco, mexe o bolso vamos te puxar.

Todos que passavam gritavam e zombavam e ofendiam mesmo, sem cumbu ninguém lhe ajuda. Kota eu tenho um jeep, vou te puxar, vais me garantir quanto? Os camiões passavam na corrida, algum descanso na roubagem dos miúdos cheios de nganzas nos cornos.

Mas agora todos eles, a intenção virou-se em conseguir algum do escritor. Vou lhe ajudar, vi esse kota hoje na tv. Cala a boca, vai ter que dar a uata, sem isso é falha. Aqui então levam tudo, um dia já levaram um kota assim, ele e o carro dele!

O escritorzinho dominado pelo medo. Nem adivinhavam qual o medo maior se dos miúdos endiabradamente querendo dinheiro ou se do buraco que, de tão pequeno, abria a boca camufladamente. Não tenho dinheiro aqui comigo, os multicaixas estão todos sem dinheiro.

Girei a cidade toda, ajudem-me jovens a sair deste buraco. O grito na pensão outra vez. Mas será que eu era o único a ouvir? É que ninguém reagia como eu. Era grito de dor e prazer muito acentuado. O escritor afligia-se. O buraco engordava. Tiramos as mbundas de qualquer coisa em que estávamos sentados, a mim deram duas cadeiras brancas, uma sobre a outra e sem o encosto.

O toyota celica gritava por socorro. Gritava alto, por favor me ajudem. O buraco sugara o carro e o dono levou tudo. Aproximámo-nos. O buraco encolhia-se, as águas castanhas minguavam. Ouvi de novo o grito vindo da pensão.

E o buraco? Não pode ser, isso não é lógico. Milagre, magia, é pá, feitiço! Cada um nesse dia gritava, opinava, julgava. Da pensão vinha uma mulher algemada, fora denunciada de envolver-se sexualmente com o próprio filho, coisas de feitiço, comentava-se.

O pénis do ilho metamorfoseava-se em uma serpente e lambia os genitais da mãe, daí aqueles gritos que só os avisados escutavam. Depois da relação, em casa encontrava dinheiro, muito dinheiro. Mas não deixo de pensar no buraco.

De noite, os povos daquela zona ouvem lamentações, pedidos de socorro. O povo dali não tem paz, vive na confusão, na solidão, afogam mágoas na bebida e quem sabe assim também deixam de ouvir a voz do escritor no buraco e os gritos da mulher da cobra de dinheiro.

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