O camaleão no Executivo

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A senhora Maxita Concoxeu era a ministra dos Assuntos Rurais e Inclusão dos Povos – ARIP, no governo saído das vigésimas eleições multipartidárias realizadas no nosso país e ganhas pelo partido União Pão e Paz – UPP, em que a sua família era bastante influente. Seu pai fora durante vários anos o seu secretário-geral. O seu ministério estava encarregue de promover a inclusão dos pobres, ou seja, dirigia a luta contra a pobreza.

A senhora Maxita Concoxeu era a ministra dos Assuntos Rurais e Inclusão dos Povos – ARIP, no governo saído das vigésimas eleições multipartidárias realizadas no nosso país e ganhas pelo partido União Pão e Paz – UPP, em que a sua família era bastante influente. Seu pai fora durante vários anos o seu secretário-geral. O seu ministério estava encarregue de promover a inclusão dos pobres, ou seja, dirigia a luta contra a pobreza.
No seio do partido, a senhora ministra era amada por muitos, mas, na mesma proporção, era também detestada. Porém, os últimos nunca se mostravam. Eram só sorrisos e aplausos. Nos corredores da sede nacional do partido cogitava-se que, mais cedo ou mais tarde, esta seria catapultada para o cargo que um dia fora do seu pai. Então, residia aí o facto de que os que a detestavam nunca apareciam. Eram só beijinhos, abraços, elogios e longos sorrisos. A bajulação imperava.
A senhora ministra vivia numa zona nobre. Considerada área das elites. Por lá, poucos a conheciam. Seu rosto era sempre ocultado pelos vidros embaciados dos seus luxuosos jeeps. Esta sua atitude, diante da vizinhança, exigia-a também aos seus empregados e às duas sobrinhas adolescentes que viviam em sua casa. O esposo, acompanhado dos dois filhos, há mais de cinco anos que se encontrava em Portugal. Algumas bocas diziam que fugira da sua petulância.
Dos empregados da casa da senhora ministra Maxita Concoxeu, a dona Josefa, a cozinheira, era com quem mais ela embirrava. Zefa, como era chamada pelos mais próximos, inclusive por algumas pessoas do bairro da sua patroa, sempre que tecia alguns comentários a respeito dela, tratava-a por má pessoa. Dizia ainda que só a aturava por causa do pão das crianças. Deste modo, contrariava toda a boa reputação que a senhora ministra granjeava na sociedade. Transmitida, principalmente, pelos média.
“A senhora ministra é uma pessoa muito modesta. Empenha-se muito no seu trabalho. Fá-lo com paixão e unicamente virado para a satisfação das populações. Ela é um grande exemplo”. – era este o discurso que se ouvia, amiúde, em vários círculos. Muitas vezes, dona Josefa ouvindo-o, admirada, prendia-se em grande silêncio.
“Dizem isso porque não vivem com ela no mesmo tecto. Aquela senhora odeia os pobres e tudo o que fala na televisão e na rádio é puro teatro. Como actriz teria muito sucesso!”. – dona Josefa divagava em seu mutismo.
Dona Josefa, apesar de dizer que a sua patroa era má pessoa, muitas vezes admirava-se da largura das suas mãos. Ela era de mãos abertas.
Outrossim, admirava-a por causa da sua classe no vestir. A senhora ministra era muito janota. As roupas que usava lhe ficavam muito bem.
“No governo não tem quem lhe aguenta. É muito linda e vaidosa”. - era assim que falava para a sua prole, sempre que a assistiam nos noticiários da televisão. Dona Josefa não era a única que se queixava da maneira desbocada da senhora ministra. O seu motorista e o guarda-costas também. Por sinal, estes eram os que mais sapos engoliam. Ao longo das habituais andanças, a senhora ministra vilipendiava as pessoas por qualquer assunto.
“Hoje, tive um dia fastidioso. Como sabeis é muito difícil lidar com a plebe. Ouvem torto, falam torto, tu nunca percebes o que realmente querem. Eles nunca percebem o que lhes dizes. O meu trabalho é um calvário. Neste Governo tem mais de trinta ministérios e a mim foram logo dar o trabalho de aturar os pobres…“ – era este o discurso que ouviam, diariamente, da parte da senhora ministra, quando esta falava ao telefone.
Certo dia, a senhora ministra chegou a casa e, para o seu desagrado, o almoço não estava preparado. Furibunda, colocou de lado o seu estatuto e saiu aos gritos:
- Ó dona Josefa, sabes a que horas eu me levanto da cama?!!? Vocês têm de mudar… Essa vossa preguiça é que vos condena à pobreza.
Cansam os outros, porque parece que a amam! Com certeza estava na fofoca. Se for para fofocar, não venha à minha casa. Fica na fofoca com aquelas desocupadas do teu bairro!!
Naquela tarde, a ministra encarregue da inclusão dos pobres, fechou-se na sua alcova. Ao anoitecer, quando saiu, já a dona Josefa havia cumprido o seu horário normal de expediente. As palavras da senhora ministra, qual jindungo na boca, arderam no seu coração. Em casa, à noite, insone, matutou seriamente naquele pequeno imbróglio.
Ponderava a possibilidade de largar o emprego. Mas o amor pela prole, que seria a mais prejudicada, falou mais alto. Juntando a isso também o facto de o seu esposo ser desempregado. Desistiu.
- Vou aturar só já os sapos daquela mulher. Minha pouca sorte também é este marido preguiçoso que tenho. – decidiu. A senhora ministra era viajada. Quer dentro, quer fora do país. Mas não era de grandes ostentações. Nas viagens, comprava pouca roupa, mas o mesmo não acontecia com os livros. Comprava-os em quantidade elevada. Ler era o seu hobby favorito. Era boa leitora. Aos fins-de-semana, detestava as visitas espontâneas, principalmente de familiares. Degustar os seus livros era o que gostava de fazer.
“Não estou para aturar gentalhas hoje. Quando vêm aqui querem despejar os seus problemas como se me tivessem pedido permissão para os arranjar.
Cada um deve cuidar dos seus problemas. Eu já ando grávida até ao pescoço com os problemas do meu ministério”. - era assim que a senhora ministra recomendava aos empregados quando estivesse em casa aos finais de semana.
Outro dia, a senhora ministra foi a uma província do interior do país em missão de serviço. Era uma missão multissectorial. Trabalharia por lá durante uma semana. No noticiário, quando a entrevistavam, dona Josefa, que a assistia, de repente, chamou os outros serviçais da casa:
- Corram!!!. Venham ver o camaleão. Está a falar na televisão!!
Com grande azáfama vieram. Chegados, estranharam pois quem estava a falar era a senhora ministra Maxita Concoxeu. Não havia camaleão algum.
- Onde está o camaleão? Só estou a ver a nossa chefe. – inquiriu um dos empregados.
- Você não sabe que a nossa chefe é um camaleão?! Então quem pode ter duas faces como ela as tem. Só um camaleão. Ela muda de cor. Ouvem o que ela está a falar aí. Não é o mesmo que a gente ouve ela a falar aqui em casa… – ripostou dona Josefa.
Os outros empregados, ouvindo-a, olharam-se longamente. Ficaram estáticos. Admirados, pareciam não acreditar no que ouviram. De súbito, instalou-se um estuante silêncio naquela sala luxuosa.
- Oh! Não entenderam?! – dona Josefa cortou o silêncio.
- Entendemos tão bem. Estamos é admirados com a tua sabedoria. – respondeu a outra empregada.
Os empregados, a seguir, soltaram uma sonora gargalhada. Na resposta, dona Josefa disse que a vida era uma grande escola. Foi com ela que aprendera aquelas coisas. Principalmente, por ser pobre.
- Todo o pobre deve ser sábio. Então, já sabem. A nossa chefe é o camaleão no Executivo. – finalizou.
O barulho voltou a ocupar a sala luxuosa. Riram novamente, a gargalhadas. Depois deste dia, sem muito se alongar o vagar, chegou a notícia da exoneração da senhora ministra. Contudo, no mesmo dia, num outro despacho, fora nomeada ministra das Relações Exteriores.
No dia em que tomou posse, para o espanto dos seus empregados, não deu o habitual baile da praxe. Chegou a casa apinhada de dossiês. Questionada, respondeu que a conjuntura política internacional exigia mais razão e menos emoção. Tinha de começar logo a trabalhar.
Com o novo cargo, a senhora ministra deixou de ser aquela pessoa impaciente. Passou a falar afavelmente com os seus empregados. Estes deixaram de a ouvir a vilipendiar quem quer que fosse. Inclusive, na sua família passou a ter outra postura. Ia aos óbitos, aos casamentos, enfim, tornou-se sociável.
A sua nova postura chegou a Portugal. Alcançados os ouvidos do seu marido, de chofre, este achou-se a ponderar o seu regresso.
Entretanto, o que já não foi mesmo a tempo de mudar fora o epíteto que lhe atribuíra a sua cozinheira. Seus empregados continuaram a chamá-la por Camaleão no Executivo, mas só o faziam à socapa. A senhora ministra nunca conheceu esta sua alcunha.

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