O casal de Joanesburgo

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Fotografia: Albino Carlos

O marido surgiu como num sonho. Atrás de si, muitos passos distante, a esposa, mancando sob duas muletas. Tinha a perna direita enfaixada, desde a planta do pé até quase ao joelho. Entorse? Osso quebrado?

Até aparecer o casal, eu estava sozinho no jardim do hotel. O sol era aquele aconchego, pássaros assobiavam uma canção de amolecer a alma e os empregados formigavam para aprontar o almoço. Uma brisa balançava suavemente as folhas das árvores, ondulando silenciosamente as águas da piscina.

O homem trajava calcões e t-shirt e trazia chinelos nos pés grandes. Estava descontraído e exibia figura de galã de tv, nas mãos uma pasta. Retirou o cinzeiro duma das mesas e rumou, decidido, para uma das esquinas afastadas, sempre seguido com dificuldade pela esposa, o esgar do rosto denunciando, se não o sofrimento, então o incómodo da perna aleijada.

Uma borboleta que por ali andava a riscar o ar, saudou-me com a insustentável leveza do seu ziguezaguear; segui-a com o olhar até ela se evaporar na claridade. O homem passou por mim como se passasse por uma árvore. A mulher cumprimentou-me gentilmente, olhando-me de soslaio, forçando um sorriso na expressão grave do rosto.

O homem escolheu o assento e fazendo um sinal com os lábios indicou outro banco à mulher. Com esforço, sozinha, ela ajeitou-se na cadeira, depositando as muletas no chão. Ambos acomodaram-se cada um numa espreguiçadeira. De quando em quando, a mulher fisgava-me furtivos olhares, mais por curiosidade do que por cortesia. O homem zanzava na relva de um lado para o outro como se fosse o dono do mundo, pavoneando-se no alto dos seus quase dois metros cobertos de músculos tonificados.

 A mulher, loira e roliça, um pouco desengonçada, só por cavalheirismo é que não se diz que ela não era bonita nem charmosa, mas respirava alegria de viver a vida. Também trajava calcões de verão e uma simples t-shirt. Na cabeça, um chapéu desportivo. O homem era negro, cabelo à escovinha, corpo atlético em forma de v parecendo lutador de boxe. Era, de infinitivamente, muita areia para o camião dela, jovial e modernamente falando.

Depois de se ter estirado, separados por uma mesa de centro, onde depositaram os seus pertences, o casal mergulhou cada um no seu pensamento. Pouco depois, gesticulando, ele pediu-lhe emprestado o isqueiro, abriu a pasta, serviu-se do maço de cigarros e de seguida voltou a espraiar-se na cadeira, virando costas à mulher. Ela também acendeu um dos seus cigarros, olhando para o infinito.

O casal permaneceu assim um bom bocado, indiferentes ao mundo e distantes um do outro, cada um e cada qual absorto em seus mambos. Decorridos uns largos minutos, o homem dirigiu-se para o bar passando novamente diante de mim, desta vez lançando-me um hello frio, frio como o beijo de um morto.

Depois de beber de um trago a coca-cola pela lata e engolir dois rissóis, o homem voltou a deitar-se, dando novamente costas à esposa que aparentava dormitar. Quebrou a monotonia reinante um casal de negros caído do céu. A esposa era mais extrovertida do que o marido, mas cada um mais impulsivo do que o outro. Pela forma efusiva como se cumprimentaram, os quatro pareciam ser muito próximos. A conversa dos amigos arranhou o sossego do jardim.

Depois da ruidosa saudação, os casais separaram-se. As mulheres posicionaram-se numa esquina trocando mexericos cúmplices e noutro canto os homens desataram às gargalhadas falando da maneira como os homens falam, falando de sexo?, futebol?, política?, quem sabe?

Momentos depois, passados uns vinte, trinta minutos quase, quando dei por mim estava a branca deitada sozinha. O sol continuava ameno e os pássaros faziam dos ramos uma festa. Aonde estavam os três amigos, não se sabe, mas sabe-se que fossem para aonde fossem muito se demoraram, ao ponto da mulher começar a almoçar como se tivesse ido ao hotel sem companhia. Meia deitada e meia sentada na espreguiçadeira, ela comia com prazer demorado, segurando e degustando o churrasco com as mãos delicadas. Vez por outra limpava a boca com guardanapos de papel, passajando a língua pelos lábios lambuzados de gordura. Acompanhava a refeição com pequenos goles de água.

Nesse meio tempo, quando a mulher já estava prestes a finalizar de comer, quando ela já procurava os empregados com o olhar, quando ela se aprontava para a sesta, do nada surgiram os dois homens. O marido da loira contornou-a, do prato dela apossou-se de dois nacos de carne e postou-se distante. Mastigava como um leão. O outro homem quedou-se quieto na cadeira que havia sido ocupada pela companheira dele. A branca fumava pausadamente, contemplando o vazio.

 A borboleta que tinha sumido, apareceu, de súbito, como uma visão. Poisou mesmo no parapeito das minhas pálpebras, fazendo-se admirar. Era linda, de um negro aveludado, com duas manchas amarelas entremeadas de duas bolinhas azuis em cada uma das asas; os olhos, duas missangas brilhantes. De quando em vez, movia as antenas pequeninas. Limpou a cabeça com as patinhas, espreguiçou-se e sequer ousei imaginar tocá-la quando, repentinamente, ela voltou a bater asas, desvanecendo-se novamente no brilho do sol.

Como se convocados por alguém, malembemente, devagar devagarinho, um a um, os fumadores foram evadindo o jardim e decorrido meia hora todos os lugares vagos estavam ocupados e o ambiente açambarcado pelo cheiro do fumo.

Quando, discretamente, me levantei para abandonar o recinto, o casal ainda continuava a tomar banho de sol; alheios a tudo e a todos, espraiados cada um e cada qual na sua espreguiçadeira, homem e mulher, cada um e cada qual olhava para um lado que não via, ele virado de costas para ela e ela com o olhar sumido fixo no céu.



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