O Estudante, Conto de Mongo Beti, Camarões

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Tendo sido reprovado nos exames do liceu, Medza regressou à sua aldeia, na região Sul dos Camarões, e ficou muito surpreendido ao descobrir que, como escolar (embora falhado) o seu prestígio é enorme.

Como uma rapariga da aldeia fugiu com um homem de outra tribo, é-lhe confiada a delicada missão de a “recuperar”.

Sempre que me lembro desta aventura, sinto um desejo desagradável de fazer voltar o relógio para trás e começar tudo outra vez. Era em Julho, se bem me lembro, e (juntamente com vários outros rapazes cujos nomes já esqueci) tinha reprovado no sétimo ano.

Tenho z certeza de que vocês não se esqueceram ainda da fórmula que eu descobri depois deste fracasso para enfrentar as pessoas que me perguntassem que tal me tinham corrido as coisas: sempre era divertido. «Oh, fui chumbado ­ dentro da melhor tradição,» dizia eu.

As palavras dentro da melhor tradição eram ditas sempre num tom levemente assertivo: serviam como uma espécie de álibi, e dispensavam tanto a pessoa que fazia a pergunta como a mim próprio, da necessidade de comentar todas as infelicidades que tinham conduzido àquela desgraça. (Tenho a sensação desagradável de que, como consequência disso, me tornei numa espécie de falhado profissional; mais isto é outra história).

Lembram-se como estávamos todos tão alegres quando saímos da Escola Nativa, no dia da entrega solene dos prémios? Na realidade, achei difícil disfarçar a minha amargura.

Foi bom termos amigos connosco ­ como esse tipo extraordinário, o Daniel, cuja graça irrepreensível me encheu as medidas e me impediu de fazer o que os poetas românticos considerariam "meditar no meu triste destino".

Lembram-se como o Daniel costuma dizer que os seus ancestros não eram Gauleses mas Bântus, e que ficaram Bântus, para sempre? E a sua predição de que, onde quer que houvesse um negro haveria sempre um colonial europeu para lhe dar um pontapé no rabo?

Era já quase meio-dia quando nos separámos, e eu meto-me no autocarro sozinho. Normalmente, a viagem de 60 quilómetros de Ongola à minha aldeia durava cerca de três horas. Nessa ocasião durou muito mais.

Acomodei-me no banco de madeira e decidi aproveitar bem a viagem. Não ficaria apenas ali sentado na infeliz contemplação da minha infelicidade (uma atitude para que eu sentia clara inclinação). Não. Tinha três meses de férias à minha frente; passaria o meu tempo a planear a melhor maneira de repartir o estudo durante esses três meses, a fim de estar bem preparado para o próximo ano letivo.

Infelizmente, o meu génio mau decidiu não me dar tréguas. Fui forçado a reconhecer o seu poder absoluto sobre mim. As vibrações do motor do autocarro pareciam ter feito rebentar o céu como se fosse uma gigantesca garrafa de água: a chuva caía em catadupas, tamborilando furiosa no tejadilho, sem aliviar, o tipo de dilúvio que dá a impressão de firmar as cabanas um pouco mais nas suas fundações de terra. o autocarro ( uma espécie de cabana comprida sobre rodas) atolava-se em lama à mínima oportunidade.

O chofer-proprietário, um grego, saía para a chuva, seguido com relutância pelos seus dois empregados negros. Entravam na mata e voltavam minuto depois com braçadas de ramos e folhagem, que espalhavam em frente das rodas para evitar que o autocarro se atascasse.

Este truque deu resultado quatro vezes seguida. Da quinta vez estivemos à beira da tragédia. O autocarro tentava em vão subir uma colina íngreme e a chuva caía em torrentes. Em vez de nos ajudar, a operação de ramos e folhagens quase resultou numa catástrofe.

Em vez de ir para frente, a camioneta, como uma vaca doida, deslizou de lado na estrada, ficando com o focinho mesmo à beira de um precipício. Era uma queda a valer e se tivéssemos ido pela ravina abaixo não haveria grandes possibilidades de sobreviver.

Por sorte, o velho autocarro ressonou, mordeu um pouco a estrada e aguentou-se. O chofer grego deslizou o motor e começou a praguejar.
«Poça!» disse ele. E depois: «Ah, Cristo, a putassa!» uma pausa prenhe. «Cristo, o velho bastardo».

Lançou-se depois numa extraordinária torrente de obscenidades pornográficas, com compostos franceses, italianos, gregos, e ingleses, que seria impossível transcrever mesmo com o auxílio da ortografia fonética. Enquanto o pobre Kritikos cuspia as suas pragas, eu pensava no que Sócrates faria duma coisa daquela, e esta ideia fez-me rir alto.

O grego virou-se e disse-me, em excelente francês: «Isto não é para rir, meu rapaz. Devia estar a chorar. Quer saber uma coisa? Eu passei anos no Congo Belga. Isso mesmo, no Congo Belga. Aí têm entradas como deve ser ­ o pavimento em alcatrão, estações de serviço, tudo.

Os Belgas fizeram um bom trabalho no Congo, acredite. Mas os Franceses, aqui» riu sordidamente, «só fizeram o essencial para o que podiam levar, os insaciáveis filhos disto e daquilo.»
Kritikos fez uma cara azeda, encolheu os ombros, aborrecido, e não disse mais nada.

Os outros passageiros, todos negros, viraram os olhos ansiosamente na minha direção. Parecia que estavam com medo de que eu não pudesse continuar esta discussão homérica. Eles vinham de uma raça que aprecia muito uma boa disputa, com os punhos ou com palavras ­ mesmo quando conduzida numa língua cujos conhecimentos são, na melhor das hipóteses, muito esquemáticos.
«Nesse caso,» disse eu, hesitante, «porque não ficou no Congo Belga?»

Não pensava nem por um momento realmente defender o colonialismo francês: mesmo nessa época já sabia que todos os sistemas coloniais têm em comum: a crença na eficácia da bengala. Mas ao mesmo tempo, a minha pergunta, em termos puramente lógicos, tinha uma certa pertinência.

Ao som da minha voz, todos os rostos se viraram para Kritikos. Ele ficou ali sentado, um bocado espantado, parecia, os seus olhos de um azul mediterrâneo contemplando a minha insignificante pessoa. Por fim, encolheu mais uma vez os ombros e virou-me as costas.

Os passageiros sorriram.
«Não pode compreender, é novo demais,» murmurou o grego, curvado sobre o volante.

Os passageiros, percebendo que o seu galo de combate ­ ou seja, eu ­ tinha ganho a luta, apenas olharam para mim com expressões que indicavam claramente os seus sentimentos. Pareciam um grupo de patriotas que acabassem de declarar uma guerra santa.

Mas os nossos problemas ainda não tinham acabado. Ali estava o autocarro parado, atravessado na estrada, com o focinho pendurado sobre a ravina. O resultado foi que longas filas de carros e camiões se formaram atrás de nós e à nossa frente ­ e os choferes, com gritos, pragas e buzinadelas vigorosas, tornavam bem claro que queriam que deixássemos a estrada livre.

Por fim, Kritikos saltou da cabina para a chuva, batendo com a porta atrás de si, e (com a ajuda de gestos, pragas em voz alta e outra pantomina do género) conseguiu convencer os colegas de que não tinha culpa nenhuma do que acontecera. Todos os choferes se reuniram num grupo ao lado da estrada, a chuva escorrendo do caqui das gabardinas.

Havia só um branco entre eles. Nós ficámos sentados a olhar enquanto eles discutiam. A primeira decisão foi fazer sair todos os passageiros do autocarro. Andámos por ali, arrastando os pés pela lama grossa, e fomos refugiar-nos nas cabanas de uma pequena aldeia perto da estrada.

Então ­ não tenho agora uma ideia muito clara das coisas ­ começaram a colocar aquela vaca velha do autocarro na sua devida posição. Seja como for, após uma hora de atraso, aquele veículo antiquado estava de novo em acção, escorregando na laterite gordurosa, roncando e gemendo, resignado com o seu destino.

Durante todas estas manobras desastradas, as minhas roupas brancas ficaram tão encharcadas e sujas de lama que pareciam tintas de vermelho. Jurei que nunca mais usaria de novo roupas ou sapatos brancos para viajar, mesmo que fosse encontrar-me com a minha namorada, como era o caso desta vez. (Era uma namorada de infância e vivia perto da nossa aldeia).

Normalmente, era a primeira pessoa que eu encontrava ao chegar; mas desta vez não lhe pus os olhos em cima. Mas isso é também outra história.

O nosso autocarro lá conseguiu arrastar-se até Vimili, a principal cidade do distrito. Quando digo "a principal cidade" estou a exagerar um bocado: pouco havia em Vimili, excepto um mercado e algumas lojas primitivas, onde os camponeses costumavam comprar provisões.

Ah, sim, quase me esquecia de mencionar os escritórios do governo, a esquadra da polícia e a prisão ­ benefícios cívicos que, neste país, chegaram para erguer um lugar à dignidade de "principal cidade".

Ainda tinha dez a doze quilómetros antes desse horrível encontro com o meu pai. Mas em Vimili soubemos que a estrada estava bloqueada logo à saída da cidade devido a reparações, e por isso larguei o autocarro. Tinha deixado de chover ­ pelo menos por agora.

Por outro lado, embora a minha mala não fosse muito pesada, não podia leva-la (tanto na mão como à cabeça) durante os longos doze quilómetros que ainda me separavam de casa.

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