O golpe feminista

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Meio-dia. Sol fraquinho e clemente. A época era de cacimbo. Depois de passar um ano em Luanda, onde esteve em tratamento médico, o intrépido soba Osso de Leão regressa à aldeia de Katari, na comuna do Lombe, município de Cacuso, província de Malanje.

Meio-dia. Sol fraquinho e clemente. A época era de cacimbo. Depois de passar um ano em Luanda, onde esteve em tratamento médico, o intrépido soba Osso de Leão regressa à aldeia de Katari, na comuna do Lombe, município de Cacuso, província de Malanje.
Para o espanto geral, tão logo chegara, convocou todos os homens, incluindo os jovens, para participarem de uma reunião no dia seguinte, logo pelas primeiras horas do dia. A mesma não se realizaria no jango, que era o local habitual. Seria no meio da mata, muito longe da aldeia.
“O que ele quer falar de tão importante que nem pode descansar ainda!?”.
“Assim mesmo, estas reuniões nunca mais terminarão!”.
“Mas este homem está pensar que ainda está em Luanda?! Esqueceu-se de que estamos na época de cacimbo ou quê?! A mata fica fechada com o nevoeiro e pode ser perigoso por causa dos animais selvagens”.
“Ele veio fazer o quê?! Devia continuar com a boa vida que tinha em Luanda. Ou pensa que não sabíamos disso! Até já se esqueceu de que nesta época é perigoso entrar na mata de manhã”. – eram estes os sussurres que se ouviam nos quatro cantos da aldeia.
Chegados aos seus ouvidos, retrucou-os:
- Não há perigo quando as pessoas se unem. Será que já se esqueceram de que a união faz a força?! Sairemos juntos da aldeia. Levaremos todo o material de caça que temos.
No dia seguinte, às cinco horas, debaixo de um frio intenso que, feito manto, encobria a aldeia com um forte nevoeiro gotejante, começava a concentração dos homens. Os murmúrios continuavam, mas eram muito mais discretos. Ninguém queria correr o risco de ser ouvido pelo soba.
“Com um frio desse tão intenso, a pessoa tem que sair da cama, abandonar a mulher para ouvir um homem que andava na boa vida em Luanda…” – pensou um aldeão.
Trinta minutos depois, à guisa de militares, a caravana pôs-se a marchar. Estavam munidos do material de caça como alvitrara o indómito soba Osso de Leão. Uns empunhavam caçadeiras, outros catanas, enxadas, picaretas e, até, pedaços de paco uns levavam. Estavam preparados para enfrentar qualquer animal selvagem.
O soba Osso de Leão, corajoso como era conhecido, seguia na linha da frente. Foi assim que, notando o quão anafado estava, um aldeão cochichou a outro:
- Já reparaste como ele está bem gordinho?! Esse homem andava mesmo na boa vida em Luanda!
O outro homem apenas franziu a testa em sinal de anuência. Decerto, não queria correr o risco de ser ouvido a vituperar o temido soba. A caravana seguia silenciosa e apreensiva. O silêncio denotava ansiedade sobre o que se falaria naquela misteriosa reunião. Já a apreensão, era por causa do perigo com os animais selvagens que abundavam naquelas matas que estavam cobertas pelo nevoeiro. Nem lhes permitia ver os obstáculos a escassos metros adiante.
A caminhada prosseguia. O único som que se ouvia era o produzido pelos passos dos homens. A mata estava apossada por um silêncio sepulcral. Finalmente, chegaram no local em que se reuniriam. Os homens do sobado esmeraram-se em transformá-lo numa sala de reunião rural, a céu aberto. Com recurso a vários troncos, criaram um improvisado pódio. Onde se acomodou o soba Osso de Leão.
Estavam todos agasalhados. Contudo, tiritando, muitos demonstravam um certo enfadamento. Pois nem mesmo a caminhada os livrara do frio, que tal como o nevoeiro, continuava com a mesma pujança.
- Bom dia, camaradas!!! – saudou o soba numa voz forte.
- Bom dia, soba Osso de Leão!!! – responderam os aldeões no mesmo vigor com que foram saudados. Houve sincronia.
- Antes de tudo, gostaria de vos dizer que tudo o que se passou na aldeia durante todo o ano em que estive ausente chegou ao meu conhecimento, inclusive os óbitos. Vou passar nas casas onde houve infelicidades e pessoalmente transmitirei a minha solidariedade às famílias enlutadas. Também visitarei todos os que estão adoentados – disse o soba e prosseguiu. – sei que estão chateados por estarem aqui a esta hora com este frio todo. No vosso lugar eu também estaria. Por outra, fiquem a saber que tudo o que vocês falaram sobre mim, também chegou aos meus ouvidos. Mas o problema não é meu. Quem me caluniou, o pecado é de…
- É dele!!! – concluíram os aldeões e a seguir, entreolharam-se suspeitamente. Parecia que cada um, com o seu olhar, acusava o outro de ser um saco-roto.
O soba Osso de Leão era conhecido como um homem frontal e, às vezes, quando atacava não escondia o nome do seu informante. Por este facto, muitos evitavam o informar sobre determinado assunto. Mas desta vez, não mencionou o nome do informante, do saco-roto.
Aquela frontalidade com que o soba iniciara o seu discurso atiçou a ansiedade dos homens em saber o que viria a seguir, por isso, redobraram a concentração e, até, pareceu que de forma inopinada o forte frio que sentiam desaparecera.
- Agora, vamos tratar do assunto grave que me fez vos convocar com urgência. É do vosso conhecimento que saí muito doente daqui. Em Luanda, fiquei hospitalizado durante três meses. Neste período, ouvia muito uma rádio local. Foi através dela que me apercebi de que alguma coisa grave se passava por lá – continuou o soba.
Os homens, expectantes, mantiveram-se em um silêncio ensurdecedor. Apenas meneavam as cabeças em sinal de concordância com o interlocutor.
- Nessa rádio, todos os dias, noticiavam casos de violações sexuais. Não era um ou dois, eram vários diariamente. Envolvendo pais contra filhas, filhos contras mães. Netos contra avós. Avôs contra netas. Vizinhos contra vizinhas e outros casos em que não havia relação de proximidade. O mais grave é que não poupavam as crianças pequenininhas, nem os rapazes. Era sodomia pura contra os rapazes! Estas notícias vergonhosas levaram-me a uma profundo reflexão.
Dito isto, os aldeões mudaram completamente o semblante. Muitos, de brusco, tinham os rostos carrancudos. Outros levaram as mãos às bocas que estavam completamente escancaradas de tanta admiração. Houve ainda aqueles que chegaram a desconfiar que o soba não estivesse bem curado, ou melhor, encontrou cura física, mas ganhou doença mental.
- Pois é. É assim também que eu ficava todos os dias quando ouvia estas conversas de vergonha. Então, depois de ter recebido alta no hospital, resolvi fazer uma investigação muito séria sobre isso. É o trabalho que me fez ficar por lá durante um ano.
O frio forte começou a desaparecer. O céu timidamente começava a livrar-se do nevoeiro que se tinha apossado dele. Alegres estavam os aldeões, já podiam ter uma visibilidade melhor. A mata também começava a dar o sinal de que despertara. Ouvia-se o som de alguns grilos e também dos ninhos saía já o frágil pio dos passarinhos.
O Soba Osso de Leão, já sem o seu casaco forte, colocara-o sobre uma árvore ao lado do pódio, continuou a explicar o assunto que lhe levou a convocar aquela reunião de emergência. Disse que das suas investigações, feitas com a ajuda do seu neto, sem que este se apercebesse, descobriu que toda esta situação de violações sexuais que Luanda vivia tinha como responsável um grupo de mulheres que se auto-denominou por Feministas.
Os aldeões, sem qualquer noção do que significava este tal grupo de Feministas, pasmos, entreolharam-se. Os olhares eram inquiridores. Talvez pensavam que fosse um grupo militar. De brusco, muitos foram apossados por sentimentos de ira. O semblante nos rostos era de revolta.
- Existem muitas técnicas que elas usam para deixarem os homens descontrolados e, a seguir, fazerem estas coisas que metem vergonha a qualquer homem de juízo. As mulheres em Luanda, vestem roupas muito curtas. Todas as ancas ficam mesmo de fora. Até mesmo aquelas bochechas do rabo que puxam apetite no homem ficam à mostra. O homem sai daí cheio de prazer, quando pede amor na mamã, se esta não lhe aceitar, solução é violar as crianças que aparecerem à frente. Outras mulheres andam com as chuchas de fora. As blusas bem abertas. Chamam é decote. As saias bem curtas, é só passar um vento, tudo aparece nas vistas das pessoas e, ainda por cima, as cuecas que metem são bem pequeninas, chamam de fio dental – prosseguiu o soba.
O sol fez-se presente. Correu de vez com o frio. Deu mais vigor à conversa do soba, que já estava bem quente. Os aldeões continuavam admirados. O pasmo estava preso nos rostos. A maioria deles estava já sem os casacos. A mata ganhava cada vez mais vida. À distância, ouvia-se o barulho dos macacos.
- O objectivo das Feministas é receber o lugar do homem na sociedade. Elas não aceitam o patriarcado. Com estas coisas vergonhosas que estão acontecer em Luanda, vão chegar à conclusão de que as mulheres é que devem mandar.
- Isso nunca!! – num repente falou um aldeão – seguidamente, houve grandes murmúrios.
- Não vamos permitir. Se for preciso vamos lá lhes dar uma surra. Temos muitas armas – reforçou outro aldeão e os outros concordaram com a sua ideia.
- Em Luanda, não se bate mulher. Dizem é violência doméstica. Também falam muito de um tal de Direitos Humanos. Se você bater, vai parar à cadeia – disse o soba.
- E assim como é que vamos fazer?! – inquiriu outro aldeão.
Em resposta, o soba Osso de Leão disse que todos os aldeãos deverão cerrar fileiras em protecção à aldeia. Não deverão permitir que aquelas maneiras das mulheres Feministas de Luanda chegassem lá. Todas as filhas que estivessem em Luanda não deveriam mais voltar e quem tivesse planos de mandar alguma que cancelasse já, sob pena dela também não regressar também.
- Ainda bem que aqui não temos televisão. É outro meio que elas usam. As novelas, onde todos os dias apresentam os casais a fazerem amor é uma isca pura. Até as crianças assistem aquelas vergonhices. Os beijos linguados passam a todo o instante.
Os aldeões concordaram com o plano engendrado pelo soba. Prometeram segui-lo à risca e que o manteriam em segredo absoluto.
- Então, está declarada a guerra contra estas mulheres que querem nos receber o trono que recebemos de Deus?! Não vamos permitir um golpe feminista?! – indagou o soba - Mas é uma guerra sem armas – continuou.
- Declarada!!! – responderam os aldeões em uníssono.
Terminada a reunião, iniciaram a caminhada de regresso a aldeia. Porém, já não foi tão ordeira como chegaram àquele local. Dessa vez, num passo mais vagaroso, o soba ficou no grupo de trás. Estava com os homens do sobado. Alguns aldeões desviavam os caminhos. Seguiam por atalhos que os levariam à faina. Já era a hora. Uns iam à caça, afinal já estavam com as armas. Outros às lavras.
- Olha, aí em Luanda, os nossos irmãos estão num grande perigo. As mulheres estão muito bonitas. Você pode se achar que é forte, mas vai cair mesmo. Elas vestem umas roupas que chamam de colã, aquilo deixa todo o rabo da mulher para fora. Depois ao andar, as nádegas fazem um sobe e desce como se estivessem em concurso. Nas cabeças, o cabelo delas ficou já de branca. Todas bem bonitas. Até as unhas delas são diferente. Na praia então?! É mesmo M´ualunga. Kalunga de verdade!! Nem tenho coragem de vos contar como elas se apresentam lá. Eh! Eh! Esqueci de falar das igrejas. Em Luanda, até os pastores estão a cair no golpe das Feministas. Todos os dias! Por isso, vamos vigiar. Aqui não podem chegar – dizia o soba Osso de Leão aos seus homens de confiança.
Desde aquele dia em diante, todas as esposas dos aldeões da aldeia Katari, na comuna do Lombe, município de Cacuso, passaram a notar um comportamento estranho por parte dos seus esposos. Mas nunca chegaram a descobrir que tal se deveu ao grupo Feministas que estava a deixar cair os homens em Luanda.

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