O Ilusionista

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Havia montes de galinhas a piscar por ali, escoltadas por um galo enorme, preto e vermelho. Algumas delas arrastavam atrás de si pequenas nuvens de pintos que bebiam sequiosos os ensinamentos das suas mães, sempre a esgaravatarem aqui e ali, e a chamarem-nos para debicarem este e aquele insecto, esta e aquela baga.

–Lulu.
–Mamã?
–Dá um salto ao galinheiro, se fazes o favor, e traz-me quatro ovos, que quero fazer um bolo.
–Está bem, mamã. Vou já. – E a Lulu abalou a saltitar ao pé-coxinho até ao barracão lá ao fundo do quintal, onde moravam as galinhas.
Havia montes de galinhas a piscar por ali, escoltadas por um galo enorme, preto e vermelho. Algumas delas arrastavam atrás de si pequenas nuvens de pintos que bebiam sequiosos os ensinamentos das suas mães, sempre a esgaravatarem aqui e ali, e a chamarem-nos para debicarem este e aquele insecto, esta e aquela baga.
Entreabriu o pesado portão, fazendo com que a luz do exterior se derramasse para dentro do amplo barracão pela pequena fresta, e mergulhou na penumbra. Lá dentro reinava o mais profundo silêncio. As galinhas poedeiras encontravam-se no fundo do barracão, acomodadas sobre fardos de palha. Quando ela entrou puseram-se todas a olhar para ela com ar belicoso: lá vinha a pilha-ovos!
Perscrutou o local à procura de ovos espalhados pelo chão, como sempre acontecia. E aquela vez não foi excepção. Agachou-se e começou a apanhar os ovos para um cesto de palha. Foi quando ouviu uma voz mesclada com um cacarejo:
–Olá. Podemos falar?
No meio de todaaquelaquietude, aquela voz inesperada e estranha fez com que ela apanhasse um valente susto. Sentiu um arrepio pela espinha acima e os pelos do seu corpo franzino a eriçarem-se todos. O assombro foi tal que até deixou cair os dois ovos que tinha na mão naquele momento, que só não se partiram por o chão ser de areia e estar todo ele coberto por restos de palha. Olhou à sua volta, mas não viu ninguém. Só galinhas e mais galinhas.
–Quem está aí? – Mas apenas o eco da sua própria voz lhe respondeu, pelo que ela insistiu: –Não estou a achar piada nenhuma à brincadeira. É bom que apareças, senão fecho-te aqui dentro quando eu sair. – Mas voltou apenas a ouvir-se a si mesma.
Apesar do desconforto que sentia, decidiu ignorar o acontecimento, atribuindo-o à sua imaginação fértil, e dispôs-se a levar a encomenda à mãe sem mais delongas. Recuperou os ovos caídos, colocou-os no cesto e encaminhou-se para o portão. Foi, então, que voltou a ouvir a mesma voz cacarejante:
–Olá. Falas comigo?
Estancou e virou-se repentinamente, a ver se apanhava o engraçadinho. Mas, mais uma vez, só viu galinhas. Grandes, pequenas, pretas, brancas, cinzentas, alaranjadas, castanhas, sarapintadas, mas apenas galinhas.
Se da primeira vez tinha ficado a pensar que tinha sido uma ilusão, um pensamento sonoro, agora não tinha a mínima dúvida de que ouvira mesmo uma voz. Decidiu, por isso, que não abandonaria o local sem sanar aquele mistério. Aproximou-se de um fardo de palha mesmo no enfiamento do único raio de luz que se atrevera a penetrar naquela calmaria e sentou-se sobre ele. À espera.
Já a mãe da Lulu, entretanto, fartou-se de tanto esperar pelos ovos e acabou mesmo por ficar preocupada com o que é que podia ter acontecido à filha, para se estar assim a demorar. Podia ter escorregado e batido com a cabeça nalguma coisa. Ou, quem sabe, podia ter sido atacada por algum bicho, uma aranha, uma cobra, enfim, qualquer coisa peçonhenta. Acabou, assim, por largar os seus afazeres e ir até ao celeiro procurá-la.
Aproximou-se apressadamente do portão entreaberto e sentiu-se aliviada quando ouviu vozes a confabularem tranquilamente lá dentro. Afinal, a Lulu deve ter encontrado alguma amiga e em vez de lhe levar os ovos deixou-se ficar na folia. O que a irritou deveras. Então, assoberbada de trabalho como se encontrava, estava ela à espera dos ovos e a miúda deixara-se ficar para ali na brincadeira. Ainda assim, antes de entrar logo em reprimendas, preferiu espreitar para ver quem era o interlocutor da garota. Até porque a outra voz era uma voz grossa, masculina. Esquadrinhou as sombras, e quando viu quem era, sentiu uma violenta tontura e perdeu os sentidos.
Lá dentro, a Lulu estava na mais amena cavaqueira com… uma galinha! Que lhe dizia nesse preciso momento:
¬¬¬–Então, os seres como tu designam-se pessoas?
–Exactamente.
–E os seres como eu, como é que são designados?
–Galinhas, ora! Vocês são galinhas. Só não entendo essa de tu falares. Nunca tinha visto uma galinha a falar! E olha que eu já lido com galinhas háum bom tempo.
–As galinhas não falam? Afinal já desenvolveram a percepção telepática? São seres bem evoluídos!
–Percepção tele o quê?! De que é que tu estás para aí a falar? Tu não só falas, como, ainda por cima, dizes coisas esquisitas.
–Então, todos os animais se comunicam, certo?! Isso distingue-os das pedras ou dos vegetais. E se as galinhas o fazem sem falarem, como tu fazes, então é porque o fazem telepaticamente.
–Tu és mesmo muito estranha, mesmo, pergunto-me de onde é que tu terás saído!
–Dali – e a galinha, com um ar distraído, apontou uma asa para cima, na direcção do telhado. A Lulu olhou para lá mas só viu mesmo o tecto. Entretanto, a galinha continuou:
–E, o que é isso que tu tens aí nesse cesto?
–Como, o que é isto? São ovos, que vocês põem.
–Ovos! Para que é que servem os ovos? E porque é que os estás a levar contigo? O que é que vais fazer com os ovos? Falas com eles?
–Olha lá, sua galinha doida, tu não sabes para que é que servem os ovos?! Estás a gozar comigo, não é? Ou então, deves ter escorregado do poleiro, bateste com a cabeça num ovo e perdeste a memória.
Entrementes, toda aquela movimentação anormal por aquelas bandas acabara por atrair a atenção do autoritário galo que resolveu ir espreitar no barracão para ver em que é que paravam as modas. Mal entrou, deu de bico com aquela franga nova, toda rechonchuda! E decidiu que não era tarde nem era cedo, tinha que lhe apor já a sua marca, antes que algum franganito atrevido ousasse fazê-lo. Por isso dirigiu-se, cheio de empáfia, para a galinha, que olhava para ele com curiosidade, a ver se percebia o que é que ele lhe queira.
O galo deu três voltas à galinha, a arrastar a asa no chão, e a seguir atirou-se de rompante para cima dela, tendo caído desamparado no chão em virtude de a galinha, ao ver-se assim acossada, ter abalado dali a fugir. Mas o galo, experiente que era, estava habituado às reacções das frangas novatas e restabeleceu-se sem demora, saindo disparado a correr atrás dela, esvoaçando agora, correndo depois, subindo este monte de feno, passando por baixo daquele carrinho de mão. Tanto burburinho perturbou as outras galináceas em postura, que desataram todas a cacarejar ao mesmo tempo, em manifestação de protesto contra aquela agressão perpetrada contra a paz no seu ambiente laboral.
Todo aquele tumulto acabou por transbordar do espaço fresco e sombrio do barracão e foi percutir-se nas orelhas do Leão, o cão de guarda lá de casa, que acompanhara a Lulu até ali e se deitara, exausto, à sombra de uma árvore próxima, quando ela penetrou no edifício. Levantou-se, espreguiçou-se, sacudiu a poeira, deu duas ou três farejadelas no ar e, acometido da maior urgência, sem sequer se aperceber do corpo desmaiado da mãe da Lulu, acorreu ao local, a ver se os seus préstimos eram de algum modo necessários, esperando, no mais fundo do seu apuradíssimo instinto canino, que não.
Mal entrou no recinto, no meio de todo aquele alvoroço deu com os olhos numa galinha esbaforida, a correr e a esvoaçar, o que despoletou nele o há muito entorpecido impulso de caçador e, por consequência, lançou-se imediatamente em perseguição do galináceo fugitivo. Com mais sucesso que o galo.
Pôs-lhe uma pata em cima, o que pôs termo àquela correria desenfreada e no exacto momento em que as fauces do cão se iam fechar de forma fatal à volta do pescoço da galinha, e já não havia salvação à vista, a galinha deu um salto inesperado. Ouviu-se o estampido de uma pequena explosão e, em pleno ar, onde estava a galinha, apareceu uma cadela!
O galo, entretanto, desagradado com aquela interferência nos seus assuntos de índole doméstica, desatara à bicada ao cão, tendo tido o cuidado de o fazer na perna que estava mais distante da boca dele.
Aquela inesperada transmutação teve um efeito de choque em ambos os perseguidores da galinha, os quais, perante tão inusitado acontecimento, um a latir e o outro a cacarejar, se escapuliram do barracão a toda a brida, juntos como se fossem amigos de antigamente.
Ofegante, a cadela recém-aparecida encaminhou-se para junto da Lulu e sentou-se em frente a ela, que exclamou, atónita:
–Uáu, como é que tu fizeste isso? És uma galinha mágica? Serás tu a famosa galinha dos ovos de ouro de que tenho ouvido falar?
–Primeiro explica-me, por favor, quais eram as intenções que moviam aquele galo descarado?
–Tu não sabes o que é que o galo queria?! Lá de onde tu vens não há galos? Vocês devem estar muito avançados.
Entretanto, refeito do susto que apanhara, o cão recompusera-se já e funga aqui, cheira ali, sentiu o chamamento do cheiro irresistível a cadela que emanava de dentro do barracão, e por isso, com as devidas cautelas, voltou a introduzir-se no recinto fresco e cheio de sombra. Lá estava ela, o pelo luzidio, a cauda felpuda a dar a dar. Ora, um cão é um cão e uma galinha é um bicho. E, por isso, sem mais demoras atirou-se desembestado à fêmea, tentando cobri-la. A cadela, apercebendo-se da investida, levantou-se de repente, deu um salto, ganiu e desatou a fugir, às voltas pelo barracão, subindo e descendo dos fardos de feno e de bidons e caixas que por ali havia armazenados, perseguida de perto pelo Leão, o que provocou uma tal algazarra que agitou as galináceas em postura, as quais, assustadas, largaram os ninhos e fugiram todas lá para fora, a cacarejarem ruidosamente.
A mãe da Lulu, que entretanto recuperara os sentidos, ao ouvir aquele alarido todo tomou por certo que a filha se encontrava a correr algum perigo, pelo que pegou numa forquilha que estava encostada à parede e entrou no armazém disposta a salvar a filha por todos os meios e contra todos os riscos.
Surpreendido com aquela entrada assim inopinada da mãe da Lulu, naquela pose ofensiva, o Leão, que lhe conhecia bem o peso das palmas das mãos, meteu a cauda entre as pernas e mergulhou numa sombra, que atravessou a rastejar até se escapulir do local pelo portão agora escancarado. Já a cadela, ao ver a reacção do Leão, também se intimidou e, por isso, lançou-se para o colo da Lulu em busca de protecção.
A mãe da Lulu tomou aquele salto como o ataque feroz de um cão selvagem sobre a sua filha e atirou-se a ele de forquilha em punho com a manifesta intenção de lhe desferir uma pancada letal.
Porém, para espanto das duas, mãe e filha, no exacto instante em que o instrumento da agressão ia embater na cabeça da fera, esta desfez-se no ar com um pequeno estrépito e no lugar dela apareceu um ser humano, que agarrou com mão firme a forquilha, impedindo-a de se ir desfechar sobre a Lulu que, com o embalo que a pancada levava, era quem ia levar com o instrumento contundente na cabeça, com consequências manifestamente nefastas!
E a mãe da Lulu perdeu os sentidos pela segunda vez no mesmo dia. A Lulu, preocupada, precipitou-se para a torneira, lá fora, de onde voltou com um balde de água, que respigou sobre o rosto da mãe, até a despertar. Esta, mal abriu os olhos, viu um homem bonito, extremamente belo e viril mesmo, que nunca antes vira na vida, ao lado da filha.
Levantou-se a custo, estonteada, sem saber se era por causa da queda ou da beleza que irradiava de tão esbelto personagem. Mas não teve sequer tempo para o apreciar, pois percebeu que ele se dirigia a ela com um ar completamente libidinoso. Era manifesta no olhar dele a intenção de se atirar a ela e a agarrar. Por isso, ainda meio a cambalear largou a fugir, no que foi perseguida de perto pelo indivíduo, cortejo ao qual se juntou o Leão, com a língua a arrastar pelo chão.
Apercebendo-se de que a mãe estava em perigo, a Lulu não hesitou. Pegou na forquilha, correu no encalço de ambos e quando o invasor lhe passou à frente, espetou-lhe sem hesitações o instrumento nas costas, no preciso momento em que a mãe, exausta, tropeçava em si mesma e se precipitava no chão.
Foi com incontido espanto que ambas viram o homem esfumar-se no ar com um estalido e no lugar dele surgir um pássaro vermelho, que deixou cair uma gota de luz da mesma cor. Logo a seguir, com um estoiro seco, o pássaro transmutou-se num traço luz que se elevou no ar e partiu disparado em direcção ao céu, como um raio.
Só então a Lulu percebeu que aquela galinha esquisita que encontrara no celeiro, afinal, era um visitante vindo das estrelas. Daí o seu desconhecimento sobre coisas tão triviais da vida na Terra, bem como as suas habilidades de transmutação!
É por isso que, até hoje, a Lulu se dirige todas as noites para as cercanias do celeiro, onde se deita, ao relento, com a cabeça assente sobre a barriga do Leão, que a escolta sempre, de olhar fixo no céu, a ver os raios de luz que cruzam o firmamento. Ela sabe agora que aqueles riscos, afinal, são o amigo alienígena que anda pela abóbada celeste à procura da casa dela, para se reencontrarem, e deseja ansiosamente que ele consiga descobrir novamente o caminho até ali. Ela sabe, porém, que deve ser difícil, porque, afinal, a Terra é muito grande e está sempre a andar às voltas e a mexer-se. Mas ela decidiu que enquanto vir que ele continua a procurá-la o há-de ir sempre esperar.

22.12.2016

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