O regressado

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Conto de Décio Bettencourt Mateus

O regressado
Fotografia: Arquivo

Quando Xavier Domingos António aterrou no aeroporto 4 de Fevereiro de Loanda e recebeu aquela lufada d´ar quente, barulhento e empoeirado, à saída do avião, não se sentiu como um estranho a pisar pela primeira vez «... as terras viciosas// De África» – como cantou Luís Vaz de Camões, seu compatriota. Não, não se sentiu assim; estranhamente. Sentiu-se como um regressado duma viagem distante.
E foi assim que mais tarde, quando já tinha quem o ouvisse, e com quem conversar, se foi definindo:
− Sabes, sou um regressado. Nunca cá estive, mas sou regressado. – Gabava-se com um sorriso orgulhoso. Até que lhe explicaram que ele, Xavier Domingos António, não podia ser regressado porque era branco. António levou a ponta da beata aos lábios e escutou envolto na fumaça:
− Os regressados são os zairenses – actualmente congoleses democratas. – Aqueles mbumbos que arranham o português. Tu, um branco, nunca podes ser regressado.
− Eles vivem no Palanca e almoçam ginguba com bombó – continuou a explicar o Mingaxe, o adolescente que lhe engraxava os sapatos nas manhãs quentes da Loanda. Xavier António não se deu por convencido. Redarguiu:
− Então aqueles angolanos finos que foram estudar nos Estados Unidos, Inglaterra e França, no tempo do socialismo, e da guerra, são o quê?, não são regressados também?
O Zé Manuel, um colega português que fingia olhar o trânsito saturado e estático da rua Rainha Ginga, mas que não perdia um detalhe da conversa, aproximou-se e disse-lhe com sotaque de bom portista:
− Ouve lá, já te disseram quem são os regressados. Não te metas com esta malta que andou a estudar nestes países. Presta atenção, aqui não é para falar muito. Nem à toa. Pensa na tua família e no teu pão. Não arranjes problemas, pá. – Xavier percebeu. Calou-se. A Loanda que encontrou era isto também: medo. E bico calado. Engoliu os argumentos e algum rancor que acumulou do colega.
E assim terminou aquela sexta-feira de trabalho na cidade de Loanda. A notícia de que Xavier andava a chafurdar na política alheia dos mwangolês espalhou-se rapidamente como um boato. Os colegas portugueses mais angolanizados olhavam-no agora com alguma suspeita.
− Já viste o palerma, a querer enviar-nos de volta ao desemprego de Portugal? – ouviu por detrás dos computadores.
Xavier António começou a dormir mal. A padecer de pesadelos. Despertava suado, aos gritos. Até que um dia, depois de varrer umas birras – e já embriagado – conseguiu decifrar o enigma consigo. Eram visões. Delírios... Que sim, era verdade, ele era um regressado. Tinha atracado na bela costa ocidental do reino do Kongo – que mais tarde faria parte da actual Angola – no final século XV, em 1490, seguindo as pegadas de Diogo Cão, o primeiro português a pisar aquelas terras virgens d´homem branco, em 1482. Que afinal ele, Xavier, tinha prosperado muito, muito com o negócio da escravatura. Porque enquanto El Rei de Portugal, João II se pasmava com o desenvolvimento do reino ora encontrado – que em alguns aspectos nada devia ao de Portugal e em outros, provavelmente estivesse mais avançado –, e trocava com seu homólogo Nzinga Nkwvo, beijinhos, mensageiros, embaixadores e outras mais cortesias diplomáticas; eles – militares, padres e comerciantes – não se fizeram rogados: trataram de subjugar os negros pela força das armas e das Escrituras Sagradas. Caçavam-nos e arrastavam-nos para o Porto do Mpinda onde eram empacotados e enviados em navios negreiros para a Metrópole. Era bom negócio caçar negros.
As visões eram tambores enfurecidos, martelados por mãos negras a rebentarem-lhe os tímpanos. Reclamavam também da terra dos axiluanda – baptizada por Paulo Dias de Novais em 1576, junto com outras terras, com o nome de São Paulo de Assunção de Loanda. Reclamavam do palácio Dona Ana Joaquina, negros mais negros acorrentados. Porém, aí, Xavier rebelou-se contra as vozes. Que não, não era ele. Nesta altura tinha já deixado a vida regalada de dinheiros, vinhos e pretas escravas, e partido contrariado para o outro mundo, rodeado das mais belas escravas, nuas em danças eróticas, a perfumarem-lhe o quarto de sexo. Não podia ser ele. Então os batuques enloqueceram a duplicar, e gritaram tão alto que o ouvido esquerdo de Xavier quase rachava e deixava de ouvir. Gritaram, Exodus 20-5 “... porque eu, o Senhor, teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a maldade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem”. E mais ainda sublinharam as vozes, a Bíblia, aprendêmo-la com os vossos missionários escravocratas. Então, Xavier lembrou-se da sua descendência com as escravas, que continuou o seu negócio. Tempos depois, quando os apetites comerciais e sexuais por negras não mais cabiam em Mbanza Kongo – capital do Kongo –, alguns descendentes rumaram aventureiros para sul, em direcção ao reino do Ndongo, a terra dos Ngola, tendo estacionado em Loanda.
Leu também nas visões sobre a morte. Que após a sua morte, sua esposa Margarida, sabedora dos seus passos, ordenou de imediato a transladação dos restos mortais e da sua riqueza para Lisboa, cuidando que não restasse migalha alguma às negras com quem ele, marido infiel e desavergonhado, se deitava e engravidava; e, menos ainda, à multidão de bastardos mulatos que coleccionou.
Ora, todos sabiam, Xavier António tinha muitos defeitos mundanos, todavia era consequente. Por isso, quando o corpo seguiu entristecido de volta ao frio e chuva de Lisboa, a sua alma recusou-se a acompanhá-lo. Preferiu ficar por ali, onde o seu dono tinha sido felicíssimo a fornicar as escravas negras. A sua alma quedou-se pelas terras viciosas d´África!, a deambular. Um kazumbi errante.
Depois que reencarnou e aterrou em Loanda – num acto involuntário de regresso –, Xavier foi imediatamente colhido à saída da aeronave, por esse kazumbi errante, que era a sua alma antiga, que trazia agora as inquietações dos kazumbis escravos. Por isso sonhava mal. E continuava com os delírios-visões ou visões-delírios, dava no mesmo porque sofria em demasia. Era angustiante ouvir os cânticos dos negros nos porões, as suas lamentações, mortes asfixiadas, afogadas no Atlântico, doenças. Pretas lindas com os seios de fora a chorarem os filhos, maridos, irmãos. Um reino a ser desvirtuado e devastado. Ele que agora era um grande crítico contra as injustiças sociais, como foi possível noutra vivência ter praticado tais desumanidades? Em vão tentava advogar a sua inocência, de que fora um bom português-reprodutor. Um lusotropicalista puro. Que o provassem os mulatos espalhados pelo reino. Debalde: trucidavam-lhe a alma as reivindicações do sangue dos antepassados.
Outra noite sonhou com as lágrimas amarguradas de Henrique Kinu-a-Mvemba que, enviado por seu pai Nzinga Mpemba – sucessor de Nzinga Nkwvo –, estudou teologia em Lisboa e Roma tendo regressado Bispo. Foi o primeiro Bispo negro africano da igreja Católica Romana. Porém, de volta ao Congo, decidido a juntar-se aos colegas europeus na evangelização do seu povo, viu-se desrespeitado e ridicularizado por aqueles que lhe haviam dado a conhecer um Jesus Cristo branco que veio também para salvar o homem negro. Sonhou com o Bispo deprimido e adoentado. Não que ele, Xavier, fosse directamente culpado, mas sabia, estava lá, e fez parte dos que boicotaram o Bispo, levando-o à ruína psicológica. E morte prematura.
Xavier Domingos foi emagrecendo à velocidade de cruzeiro, até que um dia a namorada Joaquina, uma preta descendente dos axiluandas, disse-lhe:
− Vem, vou te levar ao kimbanda. Senão vais começar a morrer ou então a xinguilar. Porque esse espírito que te entrou na cabeça traz muita razão e revolta. – E lá foi o mwndele cabisbaixo, a tratar-se no meio dos pretos.
Depois do tratamento tradicional, passou a beneficiar d´alguma trégua. Algum sossego d´espírito. Os espíritos dos escravos acalmaram. E, não se esquecendo das barbaridades do passado, aliviaram a intensidade das batucadelas nos tímpanos de Xavier.
Xavier Domingos andava pelos cantos da Loanda. Passeava pela Baixa empilhada de gente de todos os estratos. Funcionários públicos, vendedores ambulantes, engraxadores, candongueiros, desempregados, ladrões, polícias, militares. Estradas entupidas de carros, buzinas estridentes, e decorações abundantes de lixo. A Loanda de agora era uma capital porca, concluíu agastado. Mas o que mais pasmou Xavier foi o enorme crescimento imobiliário da cidade. Os edifícios floriam desordenados, desenhando paisagens pouco harmónicas. Loanda era uma cidade de ninguém. Era dos estrangeiros europeus, asiáticos – chineses –, africanos... No que lhe parecia um novo movimento migratório, onde os emigrantes tinham prioridade. Estimou que talvez houvesse na cidade sete milhões de habitantes, kazumbis incluídos – porque de dados oficiais pouco se sabia.
De quando em quando, em dias de grande inspiração, auscultava a cidade. Conversava com ela. Era uma cidade que tentava curar-se, e cicatrizar-se dum ontem ainda recente, nada pacífico. Loanda regenerava-se dos muitos sangues esparramados. António animava-se de saber. Todavia, ouvia rugidos distantes, abafados. Uma caldeira enchia-se lentamente... Xavier sabia do super-vulcão Loanda. Sabia dos perigos e violência das erupções vulcânicas.
Continuou com a Joaquina, a sua namorada preta, que na cama ajudava-o a secar o frio acumulado nos ossos, de tantos invernos europeus. Era quente a miúda. Cozinhava-lhe as comidas da terra, com a qual se lambuzava. À noite dava-lhe a provar os mistérios das suas entranhas. Era boa moça. Modesta e sorridente. Contentava-se com as migalhas que ele, magnânimo, lhe oferecia. Bastava-lhe dormir com um homem branco. Domingos António condoía-se com a miséria dos negros donos da terra riquíssima.
Xavier Domingos António deu um longo mergulho nas águas cálidas da ilha de Loanda. Longas e saborosas braçadas envolveram-no em espumas brancas, deslizando-o como um tubarão.
− Poças!, a terra é uma maravilha. As águas uma delícia. Nada a ver com o frio das nossas praias – comentou para si. Gostava da vida boa que tinha: salário, mulheres, sol, bebida... Gostava da espontaneidade das pessoas. Loanda era boa terra para um regressado branco viver. Sim, o paraíso devia ser isso: negras lindas ao desbarato a oferecerem a formosura das pernas. A terra continuava a ter nas mulheres o seu melhor.
No carro, já de regresso a casa, passou a mão pelas pernas fartas da Joaquina. A preta riu-se-lhe adocicada e entregue, fazendo um muxoxo provocante com os lábios apetecíveis. «É, talvez lhe espete um filho. Não deve fazer mal.» – Pensou consigo. – «Afinal, os mulatos são uma casta privilegiada em Angola.» Continuou a cogitar...
Mudou o rumo dos seus pensamentos reprodutores. Era altura de outras matemáticas importantes da vida.
− Sabes, da próxima vez não cometo a mesma asneira – disse, enquanto diminuía abruptamente a velocidade, por um candongueiro apressado que lhe caçumbulou a prioridade.
− Quando morrer, enterrem-me aqui. Meu último desejo – disse com solenidade.
− Xé, tão novo a falar em morrer. – Joaquina apressou-se a bater com os nós dos dedos em punho cerrado, no tablier do carro, para afugentar os maus espíritos de ouvirem e materializarem alguma coisa ruim contra Xavier. Aka!, Deus que a livrasse de perder o branco.
− Mas porquê? – perguntou assustada.
− Quero descansar o meu corpo e alma nesta Loanda dos ngolas e dos axiluandas. Amo esta terra, mulher. Na próxima encarnação, nascerei aqui nestas terras viciosas d´África. – Joaquina riu-se. O branco tinha a mania d´Angola.

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