O Tchiniangueiro

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“Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da
terra; (...); a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do género humano.”
John Donne
CONTO DE SÓNIA GOMES

O Tchiniangueiro
Sombras (VAN) Fotografia: Arquivo

Depois de ter feito alguma fortuna no comércio de automóveis de ocasião e telemóveis, certo dia sentei-me diante da minha esposa e declarei:
— Vou abrir um asilo para idosos!
Já bastante familiarizada com estes rasgos de generosidade do marido, muito calma, Marta ergueu os olhos da revista cor-de-rosa que tinha no colo e fitando-os em mim, proferiu:
— É uma excelente ideia, Tchela! Parabéns! — e numa atitude que não combinava com o entusiasmo das suas palavras, baixou de novo o olhar para a revista.
— E porquê um asilo para idosos? — tinha perguntado segundos depois, sem levantar os olhos.
— Há muitos anos, tinha eu ainda doze anos, testemunhei uma cena horrível, tendo deixado em mim uma sensação de culpa que o tempo não conseguiu apagar. — Tirei a revista do colo da minha mulher que depositei na mesa ao lado, e obrigando-a a olhar para mim, prossegui: — Vou contar-te a história.
Decorria o último ano da década de oitenta. Luena era uma cidade sitiada.
De longe, e de tempos em tempos, ouvia-se o ruído de disparos de metralhadoras,
o barulho da queda de obuses e o rumor da explosão de granadas e minas.
E com eles chegavam notícias sobre ataques a colunas militares, comboios, aldeias, pessoas feridas e mais deslocados ao centro de acolhimento da Delegação Provincial dos Assuntos Sociais. Mas no periférico bairro Sinai Velho, a vida continuava a correr assim, lenta e quase despreocupada. Um número grande da sua população adulta dedicava-se à prática da agricultura em campos que distavam do bairro mais de sete quilómetros. Alguns poucos estavam empregues em instituições estatais e privadas, trabalhando na fábrica de panelas, localizada no centro da cidade; na fábrica de tacos, CIMA, um edifício enorme e rectangular, que se desenvolvia no sul do bairro; na fábrica de licor e na padaria, duas estruturas que circundavam uma das laterais do bairro. Vivia ainda no Sinai Velho um homem oriundo do Bié que trabalhava nos Caminhos de Ferro
de Benguela (CFB).
De tanto faltarem às cozinhas, o arroz, o peixe do mar, o sal, o óleo vegetal, a farinha de trigo, o café e o açúcar, as pessoas chegaram ao ponto de considerarem que passavam muito bem sem esses produtos.
As crianças, a maior população do bairro, frequentavam a escola primária do vizinho Bairro Popular. Outrora, houvera alguns que estudavam na escola do Mandémbwé. Mandémbwé era um outro bairro vizinho, mais evoluído que o Sinai Velho, ostentando muitas casas feitas de tijolo com cobertura de rosalite, com reboco e pintura. Podiam também ser encontradas no popular bairro casas com corrente eléctrica.
Mas as frequentes brigas entre os meninos do Sinai Velho e os do Mandémbwé que acabavam invariavelmente por se estender para os pais dos pequenos contendores, com recurso, da parte dos progenitores dos donos do bairro, a facas, catanas e enxadas, tinham forçado as crianças do Sinai Velho a desistirem da escola.
Para chegar à escola do Bairro Popular, os meninos do Sinai Velho tinham de passar pela fábrica de tacos, penetrar na densa floresta de eucaliptos e capim alto, atravessar a via férrea que partindo da estação do CFB seguia para o interior da província, e finalmente seguir por um caminho ladeado por uma mata, menos fechada e de capim alto e verdejante e algumas mangueiras.
Com frequência aparecia no Sinai Velho, vindo não se sabia de onde, um homem, quase velho e muito estranho. Era mestiço, de estatura média e caminhava pelas irregularidades dos caminhos estreitos do bairro em passo estugado, mantendo quase sempre os braços cruzados atrás das costas e o olhar invariavelmente preso no chão enquanto mastigava a enorme língua dobrada para o lado, deixando correr, noutro canto da boca, um fio de baba. Ninguém sabia dizer se era maluco ou se tinha algum outro problema. Nunca ninguém o vira proferir palavra.
Aparecia barbudo, cabelo tingido de fios brancos caído até aos ombros e vestia umas calças largas amarradas à cintura com um fio de barbante e uma camisa demasiada grande para ele sob um pesadíssimo e velho sobretudo. No tempo seco, altura em que a fome apertava, ele recolhia-se para não sabíamos onde para reaparecer, algum tempo depois, limpo e em trajes novos debaixo do velho sobretudo, com a barba feita, o cabelo cortado, exibindo uma cabeça redonda e umas orelhas pequenas.
Sentava-se então debaixo de uma mangueira e depois de olhar em torno como se suspeitasse de qualquer perigo, punha-se a saborear um alimento, adquirido não sabíamos de que maneira, que trazia nos enormes bolsos do sobretudo.
Outras vezes instalava-se no canto de uma residência e ficava a ver as crianças que brincavam ou as mulheres que faziam trabalhos domésticos.
Quando alguém lhe dirigia a palavra, ele respondia com um sorriso que lhe fazia brilhar os olhos de amendoim, mas logo depois baixava o rosto como que envergonhado. Todas as vezes que alguém lhe ofereceu um prato de comida, ele recusou. Isso fazia-nos imensa confusão, a nós rapaziada, que o alcunháramos de Tchiniangueiro.
Largamente temido pelas crianças de tenra idade que se punham a chorar logo que o viam, a nós adolescentes acabava por nos proporcionar o conforto que o encontro com um adulto conhecido concede num lugar distante de casa, quando, por exemplo, o encontrávamos na floresta de mangueira a norte do bairro ou na floresta de eucaliptos. Era pois para lá que nos dirigíamos constantemente para fazer necessidades maiores e, algumas vezes, para andar a caça de pássaros, ratos, grilos e toupeiras. E também para trepar às árvores no tempo da manga.
Especulava-se muito sobre a vida do homem. Os moradores mais antigos do bairro diziam que já cá andava no tempo colonial e com aquele aspecto. A história mais espantosa era a que dizia que ele teria morrido ainda muito jovem.
Mas como o homem tinha sob seus cuidados muitos irmãos mais novos,Deus recambiara-o à vida.
A partir de determinada altura, mesmo que o não víssemos, sentíamos a sua presença por todo o lado, de tal modo nos habituáramos aquele homem.
II
Tinha chovido toda a manhã. As águas tinham-se acumulado em pequenos charcos nas esquinas das estreitas ruas que invariavelmente marcavam fronteiras entre os enormes espaços de terrenos vazios à volta das casas onde na estação chuvosa se fazia a cultura do milho e do feijão. O bairro estava em silêncio.
Do tecto da maioria das cozinhas, em grande número feitas de blocos de areia e com tectos de capim pontiagudos, funcionando num espaço independente da casa, subiam os rastos de um fumo azul em direcção ao céu ainda carregado de nuvens.
Mal abriu o sol, por volta das três da tarde, a maior parte das crianças abandonou o aconchego das fogueiras e correu para o único campo vazio do Sinai
Velho. O espaço, rectangular, cercado, por três lados, por casas, abrindo o quarto lado para a floresta de eucaliptos, era para lá onde a rapaziada se dirigia nos tempos livres para, os mais crescidos, jogarem futebol, e os mais pequenos, brincarem ao “cotcha” e ao jogo de malha.
Eu, porém, permaneci sentado na cubata do meu avô colada a um canto da nossa casa. E olhando para ele através das enormes línguas de fogo da fogueira feita com pesados troncos no centro da cozinha e que nos separava um do outro, eu ouvia uma história, já tantas vezes contada por ele, com o entusiasmo da primeira vez. Logo que a história chegou ao fim, ergui-me e abandonei o cubículo saturado de fumo.
Mas estando três a passos afastado da casa do meu avô, imobilizei-me e pus as mãos na cintura. Olhei por sobre os ombros para a porta da casa do velho e no enlevo de brilhante ideia, atravessei um enorme espaço vazio e dirigi-me à lavra de milho e feijão que germinava em frente à nossa casa. Vagueei entre os intervalos dos lombos dos socalcos, sentindo nos braços nus os cortes suaves das longas folhas de um verde-claro cujas extremidades encurvadas pesavam com as gotas de água. Apanhei algumas maçarocas que deixei com o meu avô antes de partir, seguindo uma direcção totalmente oposta a do campo.
Descendo por um caminho íngreme, no terreno meio acidentado, semeado de mangueiras e de um capim verde, do bairro para a estrada de alcatrão que ligava o Aeroporto à cidade, marcando os limites de Sinai Velho de uma das suas laterais, inspirei profundamente o cheiro característico da chuva — da areia molhada, do milho a ser assado às fogueiras acesas em muitas cozinhas.
— Senti na cara uma brisa ligeira sob o sol meio tímido.
Caminhava agora em passo lento, evitando as poças de água formadas, no espaço de terra empapada pela chuva entre a mata de mangueiras e o alcatrão.
As folhas das mangueiras que ladeavam a estrada, no lado do bairro continuavam a desprender pingos de chuva.
Nada se ouvia a não ser o suave ruído do rio de água lamacenta que, procedendo da Carreira de Tiros, deslizava no estreito carreiro cavado pelo deslizar constante da água ao longo da base da encosta. Sentia-me tranquilo apesar de me encontrar tão só num raio de muitos metros. Soprou um vento forte que trouxe até mim o odor das árvores de acácias rubras que bordejavam a estrada do lado da fábrica de licor e da padaria.
Vagueando o olhar à minha volta, ouvi de súbito o ruído de vozes da rapaziada vindo do campo de futebol.
Atravessei a estrada e pus-me a andar rente aos muros brancos que separavam, primeiro a fábrica de licor e, depois, a padaria, de um passeio de cimento já quase inexistente. Deparei-me com um tufo de margaridas ainda borrifadas com a água da chuva e, como que movido por uma força qualquer, ajoelhei-me diante delas. Quando ia estender a mão para arrancar uma flor, ergueu-se uma linda borboleta que se pôs a voar de um tufo de margaridas para outro de modo tão lento que parecia convidar-me a segui-la. E eu seguia, movendo-me de cócoras.
Um camião militar vindo do aeroporto passou a toda a velocidade na estrada estreita a espalhar um som ensurdecedor enquanto cuspia uma grande nuvem de fumo. O meu olhar, esquecido da simpática borboleta, permaneceu preso na estrada e quando se apresentou, como que tendo surgido do nevoeiro deixado pelo SCANIA, diante dos meus olhos, a figura do velho do sobretudo pesado, estremeci. Parado noutro lado da estrada, contra um fundo verde, salpicado de pontos castanhos, ele parecia estar a olhar para mim. Tinha o cabelo ensopado e as roupas molhadas. Pela primeira vez, fiquei um instante com a respiração suspensa diante de semelhante visão, e como para me libertar daquela inesperada reacção, sacudi a cabeça. E quando voltei a fixar o olhar no homem, tinha-se juntado, como num passe de magia, à volta do velho um bando de rapazes. Eu os conhecia, eram do Mandémbwé. Encontrava-os sempre a vagabundear, pelas florestas que rodeavam o nosso bairro. Todos eles tinham as roupas molhadas e sujas de lama. E assim, sem nenhuma razão, e conforme o seu costume, começaram, exibindo semblantes hostis, a zombar o velho:
— Tchiniangueirooo! Tchiniangueirooo! Tchiniangueirooo!
Agora, o homem olhava para eles com aqueles seus olhos de uma benevolência boba. Mas de repente, um dos rapazes posicionou-se e pontapeou o traseiro do velho. Impelido pela força do chute, ele deu dois passos para diante e cruzando as mãos sobre as próprias nádegas, pôs se a rir. E logo, um outro rapaz, arregaçando as mangas de uma camisa rota, pegou numa pedra e atirou-a ao homem. A pedra atingiu o lado direito do peito do velho. Eu ergui-me num salto.
Mas o velho que não se movera e cujo rosto não esboçara nenhuma reacção de protesto contra a dor continuava a olhar para eles com o seu sorriso bobo.
A nova vaga de rumor da rapaziada no campo abrandou o receio ardente que crescia no meu coração.
O segundo rapaz atirou outra pedra que atingiu o homem no mesmo lugar.
Eu cerrei os punhos, porém, no rosto do velho o sorriso persistia. Pensei então que o homem não manifestava nenhuma reacção àquela inexplicável
agressão simplesmente porque as pedras não podiam machucar o seu corpo, protegido como estava pelas pesadíssimas roupas.
A minha visão da terrível cena foi, por segundos, interrompida por um outro automóvel que passou a toda a velocidade pela estrada, desta vez seguindo para o aeroporto.
Uma terceira pedra cortou o ar frio e atingiu com muita força o lado esquerdo do peito do homem. A mão enrugada voou para o lugar atingido e o
antigo brilho no olhar velho apagou-se, instalando-se no seu lugar um olhar carregado de suspeita, de medo e tristeza. Quando lhe foi atirada a quarta pedra, que atingiu o lado direito da face, ele olhou à volta com a desorientação do indivíduo que de repente se descobre numa terra estranha.
Uma rajada de vento sacudiu a árvore debaixo da qual me encontrava e senti as acácias caírem sobre a minha cabeça e ombros. Perdi o controlo, e
uma vontade de fazer alguma coisa pelo infeliz ergueu-se gigante no meu peito.
Mas no lugar de gritar por socorro, agarrei-me ao tronco da árvore das acácias. Senti um misto de pena, revolta e medo.
Estava possuído de uma enorme vontade de enfrentar aquele bando, refreada, porém, pelo receio de conhecer a sorte do velho. Colei-me ainda mais
ao tronco da pequena e velha árvore e cerrei os olhos. Algum tempo depois, percebendo o rumor de vozes dos rapazes maus já distante, descerrei-os. O homem estava caído no chão. Olhei para o lado, os rapazes tinham desaparecido numa curva. Quando me aproximei do agredido, apanhei um choque diante da horrível imagem: tombado de costas num charco, tinha o rosto contorcido de dor, o nariz quebrado, a testa ferida e da boca meio aberta escorria um fio de sangue. Corri para o bairro para chamar pelos mais velhos.
Dois dias depois, eu e mais dois amigos fomos visitá-lo ao hospital para onde tinha sido conduzido e que ficava mesmo no caminho que nos levava do Sinai Velho para a cidade. A mulher de uniforme branco que nos olhou com imenso carinho, informou-nos que o Tchiniangueiro tinha morrido naquela manhã.
Baixei os olhos e fixei os meus pés, descalços e cobertos de poeira. Deveria ter corrido para o bairro a busca de ajuda logo que os rapazes do Mandémbwé começaram a insultar o velho. Acusei-me.
Luanda, Junho - Julho de 2011.

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