O Terrível Ano do Macaco Vermelho(I)

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Desde sempre se soube que aquela era uma terra onde, amiúde, ocorriam factos maravilhosos, factos extraordinários e mesmo factos terríveis como aqueles que se viveram no ano que ficou a ser conhecido como “O Terrível Ano do Macaco Vermelho”.

O Terrível Ano do Macaco Vermelho

Desde sempre se soube que aquela era uma terra onde, amiúde, ocorriam factos maravilhosos, factos extraordinários e mesmo factos terríveis como aqueles que se viveram no ano que ficou a ser conhecido como “O Terrível Ano do Macaco Vermelho”.
Era uma terra em que os homens e as divindades viviam, conviviam e se cruzavam a cada momento e de que se sabia que, tendo Nzambi Mpungu criado o mundo, competia à kianda, o império sobre os rios, lagos, lagoas, fontes, charcos, outeiros, bosques e sobre o mar. Também imperava sobre os homens, sobre todos os animais e sobre a chuva e, às suas leis, todos deviam obediência, sob o risco de enfrentarem a sua fúria. A sua influência estendia-se à peste, à fome, à guerra, à paz e a tudo mais. Por isso mesmo, na falta de chuva, de peixe ou de víveres, os homens a ela recorriam com suas angústias. Então, com uma sineta dupla, pelo Boka eram todos convocados para num dia designado, na praia ou à beira-rio, receberem a sua visita. Homens, mulheres e crianças, todos os presentes, eram então naquele dia untados pelo kilamba, com uma mistura de água e barro, com que se purificavam para receber e homenagear a divindade.
Chamada pelo Kilamba Kya Ixi, vestido de uma pele de animal sobre o pano, usando na cabeça a sua kijinga, com unhas de aves de rapina, de leões, de tigres, dentes de jacaré e penas brancas e encarnadas de diferentes aves ornamentada, à kianda, também chamada kiximbi ou kituta, eram oferecidos muitos kitutes e vinhos da terra e finos vinhos, azeites, doces e iguarias vindas das terras de além-mar, por todos trazidos, a que se seguia o sacrifício de alguns animais. Com a sua dikua, sembele ou machadinha, o Kilamba fazia a kudinga. Eram porcos, cabritos e galinhas que assim eram abatidos em homenagem à kianda, de quem se aguardava clemência por qualquer desrespeito à sua lei e lhes fizesse vir a chuva ou acalmasse as calemas. Se não fosse castigo seu e porventura a chuva tivesse sido amarrada por algum feiticeiro, pedia-se à kianda que ordenasse desamarrá-la e voltasse a chover.
Nessa ocasião, o sacerdote derramava no lugar e por todos os cantos, gotas de cada líquido recebido dos presentes, dos vindos de além-mar ao vinho de palma, enquanto muita gente ao redor ia tocando chocalhos, batuques e cantando. Procurava-se a comunicação pacífica com a kianda, que não se apresentava em corpo, mas sim em espírito na cabeça de um homem ou de uma mulher, por intermédio de quem via, ouvia e falava.
Sentado no seu mocho, entrava então o xinguilador em convulsões e da sua boca saíam palavras só percebidas pelos “entendidos”. Considerava-se nessa ocasião que um santo entrara na cabeça do xinguilador por quem a divindade se anunciava. Ora em voz alta, ora em sussurros, via-se então o Kilamba implorando e rogando para que a kianda acalmasse a sua fúria e lhes desse de volta a chuva, o sustento dos campos ou o peixe das águas.
Daquelas paragensconsta que haviam passados inúmeros anos, desde a altura em que ali se instalara a gente de Kimalauezu kya Tumba a Ndala. A este propósito conta-se que, tendo ficado grávida uma das esposas deste grande senhor, só lhe apetecia comer peixe. Kimalauezu kya Tumba a Ndala mandou então um dos seus servos pescar ao rio. No primeiro dia, o servo pescou bastante peixe. A senhora cozinhou-o e comeu-o todo. No dia seguinte, o servo foi novamente à pesca. Pescou novamente uma grande quantidade de peixe. Novamente a senhora cozinhou-os e comeu-os no mesmo dia. No dia seguinte aconteceu a mesma coisa. Sempre que o servo fosse à pesca, trazia cada vez maiores quantidades de peixe, mas a mulher de Kimalauezu kya Tumba a Ndala acabava-os todos no mesmo dia. Isso prolongou-se durante muito tempo. Certo dia, o servo chegou ao rio, atirou a rede para a água e esperou algum tempo. Puxou a rede e constatou que a mesma estava bem pesada. Puxou-a novamente, mas sem resultado. Gritou então:
– Tu que estás a prender a rede, ainda que sejas o dono do rio ou um crocodilo, larga a minha rede. Não vim pescar por minha vontade, cumpro ordens.
O servo voltou a puxar a rede e então foi bem sucedido. Porém, quando olhou para a rede, viu algo de espantoso e, cheio de medo, pôs-se a fugir. Nisso ouviu uma voz que lhe dizia:
– Pára, não corras mais!...
O homem obedeceu e voltou ao mesmo lugar onde estava antes e puxou a rede. O ser extraordinário disse-lhe:
– Eu sou o kiximbi deste rio. Vai para casa e volta com aqueles que te obrigaram a pescar. O homem obedeceu e, tendo chegado a casa, explicou tudo o que o génio lhe havia dito. Kimalauezu kya Tumba a Ndala e a sua mulher grávida, acompanhados do pescador, partiram e chegaram ao local. Ali estava o kiximbi do rio, que lhes disse:
– Tu, Kimalauezu kya Tumba a Ndala, meu amigo, quando vieste com a tua gente fixar-te nestas terras, pediste-me autorização. Entretanto, agora que a tua mulher está grávida, já não come outra coisa a não ser peixe. Por consequência disso, todo o peixe acabou e o meu povo desapareceu. Por isso, quando a criança nascer, se ela for rapariga será minha mulher; se for rapaz, será meu amigo, meu xará e ficará a viver comigo. Então, Kimalauezu kya Tumba a Ndala, perguntou:
– O que desejas mais de mim?
E, olhando para o local em que estivera a divindade, já não a viu mais.
Sabia-se também por aquelas paragens que Nzambi Mpungu, depois de ter criado a terra e o sol, a água e o fogo, “deu forma ao homem e à mulher, utilizando estes dois elementos. Ao casal primordial a transcendência divina atribuiu os nomes de Sàmbà e Máwezè. Estes tiveram uma grande progénie de ambos os sexos. Sendo irmãos, não podiam casar-se nem fazer sexo. Isto fez com que, depois de acordado com os progenitores, Nzambi se tenha decidido a purificá-los. Para tanto, os filhos do casal deveriam na madrugada do dia seguinte atravessar o rio Kwanzà. Chegada a hora aprazada, apenas dois dos irmãos acordaram ao canto do galo e cumpriram com o estipulado, isto é, atravessar o rio. Quando chegaram ao outro extremo, estavam completamente esbranquiçados e transformados em “seres maravilhosos”; Nzàmbì atribuiu-lhes os nomes de Mpemba e Ndèlè. Decidiu ainda que, doravante, estes deveriam passar a viver nesse mundo que alcançaram, isto é, o mundo harmonioso das águas, da humidade, do brilho e da luminosidade, da brancura e da felicidade absoluta. Os outros irmãos, que não cumpriram com a ordem estipulada, passaram a viver definitivamente na terra, com os seus problemas e angústias” (1). Por isso mesmo, quando os naturais viram emergir das águas do mar grandes barcos e homens de pele clara, entraram em pânico, por crerem que se tratava dos filhos de Ndele que, tendo saído das águas onde habitavam, voltavam à terra. Deles fugiram e passaram a designá-los por mindele. Reconheceram-lhes autoridade e prestaram-lhes reverência, o que facilitou a sua penetração e a ocupação do reino.
Consta que, da primeira vez que os mindele estiveram frente a frente com os autóctones, com palavras não entendidas, mas com largos gestos percebidos, ao perguntarem-lhes que terra era aquela, responderam-lhes:
– Mwa Ne Soyo. – Diziam que aquelas eram as terras e as gentes do Ne Soyo.
Anotou então o cronista dos mindele: “Muani Soio”. E escreveu que aquela terra era governada por um Governador designado Muani ou Mani. Tinha ocorrido um erro de comunicação fatal que trouxe para a história um título que nunca existiu naquele reino ou naquela língua.
Diz-se ainda hoje que os factos do Terrível Ano do Macaco Vermelho, ocorreram muitos anos depois daquele em que os mindele, tendo chegado ao reino, pouco depois haviam enfrentado o sacerdote da chuva e assim o relator tinha escrito ao seu Rei: “achei aqui um grande feiticeiro, que andava em trajes de mulher, e por mulher era tido sendo homem, a coisa mais feia e medonha que em minha vida vi: todos lhe tinham medo e ninguém lhe ousava falar, porque era tido por Deus da água e da saúde. Mandei-o buscar e trouxeram-mo atado: quando vi, fiquei atónito e todos se pasmaram de ver uma coisa tão disforme. Vinha vestido como sacerdote da lei velha, com uma caraminhola feita dos seus próprios cabelos, com tantos e tão compridos michembos, que parecia mesmo o diabo”(2) .
“Em chegando lhe perguntei se era homem ou mulher, mas não quis responder a propósito; mandei-lhe logo cortar os cabelos que faziam vulto de um novelo de lã, e tirar os panos com que estava vestido, até o deixar em trajes de homem. E para que vissem que não era Deus da chuva, pois vinha contra a sua vontade, ordenou Deus que estando nós nisto se deixou vir uma grande bátega de água, com que todos se alegraram porque a desejavam muito. Recolhemo-nos os que aí estávamos para dentro da igreja e a ele deixei-o ficar à chuva, até que confessou que ele nascera homem, mas que o demónio dissera à sua mãe que o fizesse mulher, senão iria morrer e que até agora fora mulher, mas que dali por diante, pois lhe dizia a verdade, queria ser homem: já era tão velho que tinha a barba toda branca, a qual trazia rapada” (3). Porém, acrescentavam os populares, mal a chuva parou, logo apareceu no posto administrativo um jacaré levando na boca um saco com moedas para pagar o seu imposto e pôs em debandada toda a gente que lá estava. Avançou e ali ficou a dar voltas. E ninguém entrou enquanto lá esteve o jacaré; tudo fugia. Pouco depois, o sol tornou-se uma bola de fogo que secou a vegetação e incendiou todo o burgo. Apenas restou um velho sobrado de dois andares, construído em madeira, que resistira a todas as guerras, conhecia todas as histórias e de que se dizia ser habitado por um poderoso possuidor de maiombolas. Resistira ao tempo e ao incêndio que queimara tudo em redor. Não se sabia ao certo quem o mandara construir, mas dizia-se que tinha sido por um igualmente poderoso possuidor de maiombolas e que na época o sobrado resistira ao fogo porque, enquanto o fogo avançava, os maiombolas carregando enormes selhas de água cartadas da cacimba no quintal foram molhando toda a vegetação em redor enquanto outros, como se faz nas queimadas, em torno do sobrado, iam derrubando o capinzal, deixando um círculo de terra batida de mais de cinquenta metros de raio. Fora um trabalho rápido e eficaz, até porque eram milhares os maiombolas a trabalhar, que já ali permaneciam desde que o mesmo fora construído. Morriam os homens, mas ali ficavam os maiombolas a que se vinham juntar outros trazidos pelos novos inquilinos. Naquele ano, que ficou conhecido como o Ano Terrível do Macaco Vermelho, por força das muitas emboscadas, das múltiplas capturas de soldados inimigos em armadilhas de caça adaptadas à ocasião, o burgo minguando de fome se viu obrigado a abrir os canaviais e aí plantar um pouco de tudo que desse para comer. Porém, pelas suas próprias características nutricionais, privilegiou-se o cultivo de milho.
Lançou -se assim pela primeira vez o conceito daquilo que muitos, muitos anos mesmo, mais tarde, viria a chamar-se cintura verde das cidades. Não se sabe pois, ao certo, o ano em que tal aconteceu. Sabe-se apenas que, tendo o milho sido lançado à terra, levantado as suas bandeiras, crescido e espigado, bandos de macacos invadiram os campos.
Assim fizeram uma, duas vezes… mas uma terceira vez já não podia ser; assim decidiu Sô Feliciano que ficou conhecido na história como o estratega da resistência contra a morte pela fome. Com efeito, numa dessas noites quase não dormidas de tanto cogitar no assunto, tomou a decisão de acabar com os macacos que devoravam o milho com tanto risco e a tanto custo plantado. Mandou pois Sô Feliciano capturar um macaco. Um macaco que, entre os poucos assimilados que habitavam o burgo, silenciosamente passou a ser chamado “macaco-cão”. Tratava-se de fazer chacota do terrivelmente célebre chefe da polícia que comandava as patrulhas e as rusgas nos bairros indígenas e que era conhecido por aquele nome: “macaco-cão”.
Capturado o macaco, Sô Feliciano mandou-o pintar, bem pintado, a vermelho. Pintado a tinta de óleo, é claro, não fosse a chuva tirar o vermelho ao macaco e desfazer-se assim o seu plano. Foi o macaco pintado e repintado, com uma, duas, três de mão como se pintam as casas. E o macaco, assim, de vermelho reluzente pintado ficou. Ao sétimo dia, foi o macaco vermelho colocado no local onde habitualmente os da sua família iam comer o milho. Desolado, lá estava ele com o olhar buscando na paisagem os seus. Quando estes chegaram, os outros macacos portanto, iniciaram a sua tarefa de roubar o milho. Vendo-os, o macaco vermelho exultou de alegria e correu em sua direcção para a eles se juntar, aos da sua família que havia perdido. Estes, ao verem correr para si o macaco vermelho, entenderam que um espírito maligno se apoderara do território e puseram-se em fuga. E então é que foi bom de ver: o macaco vermelho correndo atrás do bando para se juntar aos seus familiares e o bando fugindo do macaco vermelho porque tinham-no como um espírito maligno. A verdade é que, o bando de macacos nunca mais voltou ao milheiral e o macaco vermelho desapareceu. Muitos meses mais tarde, muito longe, abandonado, foi encontrado o cadáver do macaco vermelho.
Foi também nesse ano, no ano do macaco vermelho portanto, que por aquelas paragens, andando na pesca com a sua tarrafa, graças à sua rede, um homem travou um verdadeiro combate com um jacaré e conseguiu salvar-se, enquanto uma mulher foi devorada por um outro jacaré e uma outra que se encontrava grávida e andava de apetites de comer caranguejos da água doce, numa das suas idas ao rio em busca de água e à procura dos ditos caranguejos que viviam no lamaçal, um jacaré disfarçado entre os caniços agarrou-a pelo peito, içou-a e, impotentes, todos a viram abraçada ao jacaré, partir para o fundo das águas.
Foi ainda nesse ano, em que a pele de jacaré valia como ouro, que se viu pelo fim da tarde, enquanto o seu marido com os demais, bebia uma cabaça de malavo, a mulher que fora ao rio lavar o peixe para o jantar, ser arrastada pelas pernas para dentro do rio. Consta também que nesse ano um homem que vivera refém no leito do rio mais de trinta anos fora resgatado e um outro, agarrado e carregado por um jacaré, ali viveu treze anos até ser libertado. Quando voltou, contou que ali, no fundo do rio, encontrara um enorme número de pessoas que desde a sua captura e preparo para evitar a fuga, faziam o garimpo de diamantes uns e se dedicavam à agricultura outros. Numa longa esteira, de joelhos, ao fim do dia, uma velha mulher nua, do tamanho de um imbondeiro, servia-lhes numa das mãos um pedaço de carne humana cozida, que tirava de um tambor de mais de duzentos litros e na outra mão servia-lhes uma colher de pirão. Foi ainda nesse ano e nas mesmas águas que, tendo igualmente sido capturado por um jacaré, foi resgatado o grande e poderoso papá Kiame Kiame, É Meu, É Meu, de que se dizia ter uma jibóia que vomitava dinheiro e ser o dono do maior séquito de maiombolas da região. Diz-se que tal foi o resultado do seu encontro com uma jovem que, tendo morrido na véspera e não tendo sido ainda vendida pelo seu algoz, poderia voltar à vida se, dentro dos dias imediatos, o seu corpo fosse submetido a um grande tratamento como os do Mestre Terramoto e se ela, na sua condição transitória de alma do outro mundo, pusesse no seu lugar uma outra pessoa de maior valor.

Desde sempre se soube que aquela era uma terra onde, amiúde, ocorriam factos maravilhosos, factos extraordinários e mesmo factos terríveis como aqueles que se viveram no ano que ficou a ser conhecido como “O Terrível Ano do Macaco Vermelho”.
Era uma terra em que os homens e as divindades viviam, conviviam e se cruzavam a cada momento e de que se sabia que, tendo Nzambi Mpungu criado o mundo, competia à kianda, o império sobre os rios, lagos, lagoas, fontes, charcos, outeiros, bosques e sobre o mar. Também imperava sobre os homens, sobre todos os animais e sobre a chuva e, às suas leis, todos deviam obediência, sob o risco de enfrentarem a sua fúria. A sua influência estendia-se à peste, à fome, à guerra, à paz e a tudo mais. Por isso mesmo, na falta de chuva, de peixe ou de víveres, os homens a ela recorriam com suas angústias. Então, com uma sineta dupla, pelo Boka eram todos convocados para num dia designado, na praia ou à beira-rio, receberem a sua visita. Homens, mulheres e crianças, todos os presentes, eram então naquele dia  untados pelo kilamba, com uma mistura de água e barro, com que se purificavam para receber e homenagear a divindade.
Chamada pelo Kilamba Kya Ixi, vestido de uma pele de animal sobre o pano, usando na cabeça a sua kijinga, com unhas de aves de rapina, de leões, de tigres, dentes de jacaré e penas brancas e encarnadas de diferentes aves ornamentada, à kianda, também chamada kiximbi ou kituta, eram oferecidos  muitos kitutes e vinhos da terra e finos vinhos, azeites, doces e iguarias vindas das terras de além-mar, por todos trazidos, a que se seguia o sacrifício de alguns animais. Com a sua dikua, sembele ou machadinha, o Kilamba fazia a kudinga. Eram porcos, cabritos e galinhas que assim eram abatidos em homenagem à kianda, de quem se aguardava clemência por qualquer desrespeito à sua lei e lhes fizesse vir a chuva ou acalmasse as calemas. Se não fosse castigo seu e porventura a chuva tivesse sido amarrada por algum feiticeiro, pedia-se à kianda que ordenasse desamarrá-la e voltasse a chover.
Nessa ocasião, o sacerdote derramava no lugar e por todos os cantos, gotas de cada líquido recebido dos presentes, dos vindos de além-mar ao vinho de palma, enquanto muita gente ao redor ia tocando chocalhos, batuques e cantando. Procurava-se a comunicação pacífica com a kianda, que não se apresentava em corpo, mas sim em espírito na cabeça de um homem ou de uma mulher, por intermédio de quem via, ouvia e falava.
Sentado no seu mocho, entrava então o xinguilador em convulsões e da sua boca saíam palavras só percebidas pelos “entendidos”. Considerava-se  nessa ocasião que um santo entrara na cabeça do xinguilador por quem a divindade se anunciava. Ora em voz alta, ora em sussurros, via-se então o Kilamba implorando e rogando para que a kianda acalmasse a sua fúria e lhes desse de volta a chuva, o sustento dos campos ou o peixe das águas.  
Daquelas paragensconsta que haviam passados inúmeros anos, desde a altura em que ali se instalara a gente de Kimalauezu kya Tumba a Ndala. A este propósito conta-se que, tendo ficado grávida uma das esposas deste grande senhor, só lhe apetecia comer peixe. Kimalauezu kya Tumba a Ndala mandou então um dos seus servos pescar ao rio. No primeiro dia, o servo pescou bastante peixe. A senhora cozinhou-o e comeu-o todo. No dia seguinte, o servo foi novamente à pesca. Pescou novamente uma grande quantidade de peixe. Novamente a senhora cozinhou-os e comeu-os no mesmo dia. No dia seguinte aconteceu a mesma coisa.  Sempre que o servo fosse à pesca, trazia cada vez maiores quantidades de peixe, mas a mulher de Kimalauezu kya Tumba a Ndala acabava-os todos no mesmo dia. Isso prolongou-se durante muito tempo. Certo dia, o servo chegou ao rio, atirou a rede para a água e esperou algum tempo. Puxou a rede e constatou que a mesma estava bem pesada. Puxou-a novamente, mas sem resultado. Gritou então:
– Tu que estás a prender a rede, ainda que sejas o dono do rio ou um crocodilo, larga a minha rede. Não vim pescar por minha vontade, cumpro ordens.
O servo voltou a puxar a rede e então foi bem sucedido. Porém, quando olhou para a rede, viu algo de espantoso e, cheio de medo, pôs-se a fugir. Nisso ouviu uma voz que lhe dizia:
– Pára, não corras mais!...
O homem obedeceu e voltou ao mesmo lugar onde estava antes e puxou a rede. O ser extraordinário disse-lhe:
– Eu sou o kiximbi deste rio. Vai para casa e volta com  aqueles que te obrigaram a pescar. O homem obedeceu e, tendo chegado a casa, explicou tudo o que o génio lhe havia dito. Kimalauezu kya Tumba a Ndala e a sua mulher grávida, acompanhados do pescador, partiram e chegaram ao local. Ali estava o  kiximbi do rio, que lhes disse:
– Tu, Kimalauezu kya Tumba a Ndala, meu amigo, quando vieste com a tua gente fixar-te nestas terras, pediste-me autorização. Entretanto, agora que a tua mulher está grávida, já não come outra coisa a não ser peixe. Por consequência disso, todo o peixe acabou e o meu povo desapareceu. Por isso, quando a criança nascer, se ela for rapariga será minha mulher; se for rapaz, será meu amigo, meu xará e ficará a viver comigo. Então, Kimalauezu kya Tumba a Ndala, perguntou:
 – O que desejas mais de mim?
  E, olhando para o local em que estivera a divindade, já não a viu  mais.
Sabia-se também por aquelas paragens que Nzambi Mpungu, depois de ter criado a terra e o sol, a água e o fogo, “deu forma ao homem e à mulher, utilizando estes dois elementos. Ao casal primordial a transcendência divina atribuiu os nomes de Sàmbà e Máwezè. Estes tiveram uma grande progénie de ambos os sexos. Sendo irmãos, não podiam casar-se nem fazer sexo. Isto fez com que, depois de acordado com os progenitores, Nzambi se tenha decidido a purificá-los. Para tanto, os filhos do casal deveriam na madrugada do dia seguinte atravessar o rio Kwanzà. Chegada a hora aprazada, apenas dois dos irmãos acordaram ao canto do galo e cumpriram com o estipulado, isto é, atravessar o rio. Quando chegaram ao outro extremo, estavam completamente esbranquiçados  e transformados em “seres maravilhosos”; Nzàmbì atribuiu-lhes os nomes de Mpemba e Ndèlè. Decidiu ainda que, doravante, estes deveriam passar a viver nesse mundo que alcançaram, isto é, o mundo harmonioso das águas, da humidade, do brilho e da luminosidade, da brancura e da felicidade absoluta. Os outros irmãos, que não cumpriram com a ordem estipulada, passaram a viver definitivamente na terra, com os seus problemas e angústias” (1). Por isso mesmo, quando os naturais viram emergir das águas do mar grandes barcos e homens de pele clara, entraram em pânico, por crerem que se tratava dos filhos de Ndele que, tendo saído das águas onde habitavam, voltavam à terra. Deles fugiram e passaram a designá-los por mindele. Reconheceram-lhes autoridade e prestaram-lhes reverência, o que facilitou a sua penetração e  a ocupação do reino.
Consta que, da primeira vez que os mindele estiveram frente a frente com os autóctones, com palavras não entendidas, mas com largos gestos percebidos, ao perguntarem-lhes que terra era aquela, responderam-lhes:
– Mwa Ne Soyo. – Diziam que aquelas eram as terras e as gentes do Ne Soyo.
Anotou então o cronista dos mindele: “Muani  Soio”. E escreveu que aquela terra era governada por um Governador designado Muani ou Mani. Tinha ocorrido um erro de comunicação fatal que trouxe para a história um título que nunca existiu naquele reino ou naquela língua.                                                                                                     
Diz-se ainda hoje que os factos do Terrível Ano do Macaco Vermelho, ocorreram muitos anos depois daquele em que os mindele,  tendo chegado ao reino, pouco depois haviam enfrentado o sacerdote da chuva e assim o relator tinha escrito ao seu Rei: “achei aqui um grande feiticeiro, que andava em trajes de mulher, e por mulher era tido sendo homem, a coisa mais feia e medonha que em minha vida vi: todos lhe tinham medo e ninguém lhe ousava falar, porque era tido por Deus da água e da saúde. Mandei-o buscar e trouxeram-mo atado: quando vi, fiquei atónito e todos se pasmaram de ver uma coisa tão disforme. Vinha vestido como sacerdote da lei velha, com uma caraminhola feita dos seus próprios cabelos, com tantos e tão compridos michembos, que parecia mesmo o diabo”(2) .
“Em chegando lhe perguntei se era homem ou mulher, mas não quis responder a propósito; mandei-lhe logo cortar os cabelos que faziam vulto de um novelo de lã, e tirar os panos com que estava vestido, até o deixar em trajes de homem. E para que vissem que não era Deus da chuva, pois vinha contra a sua vontade, ordenou Deus que estando nós nisto se deixou vir uma grande bátega de água, com que todos se alegraram porque a desejavam muito. Recolhemo-nos os que aí estávamos para dentro da igreja e a ele deixei-o ficar à chuva, até que confessou que ele nascera homem, mas que o demónio dissera à sua mãe que o fizesse mulher, senão iria morrer e que até agora fora mulher, mas que dali por diante, pois lhe dizia a verdade, queria ser homem: já era tão velho que tinha a barba toda branca, a qual trazia rapada” (3). Porém, acrescentavam os populares, mal a chuva parou, logo apareceu no posto administrativo um jacaré levando na boca um saco com moedas para pagar o seu imposto e pôs em debandada toda a gente que lá estava. Avançou e ali ficou a dar voltas. E ninguém entrou enquanto lá esteve o jacaré; tudo fugia. Pouco depois, o sol tornou-se uma bola de fogo que secou a vegetação e incendiou todo o burgo. Apenas restou um velho sobrado de dois andares, construído em madeira, que resistira a todas as guerras, conhecia todas as histórias e de que se dizia ser habitado por um poderoso possuidor de maiombolas. Resistira ao tempo e ao incêndio que queimara tudo em redor. Não se sabia ao certo quem o mandara construir, mas dizia-se que tinha sido por um igualmente poderoso possuidor de maiombolas e que na época o sobrado resistira ao fogo porque, enquanto o fogo avançava,  os maiombolas carregando enormes selhas de água cartadas da cacimba no quintal foram molhando toda a vegetação em redor enquanto outros, como se faz nas queimadas, em torno do sobrado, iam derrubando o capinzal, deixando um círculo de terra batida de mais de cinquenta metros de raio. Fora um trabalho rápido e eficaz, até porque eram milhares os maiombolas a trabalhar, que já ali permaneciam desde que o mesmo fora construído. Morriam os homens, mas ali ficavam os maiombolas a que se vinham juntar outros trazidos pelos novos inquilinos. Naquele ano, que ficou conhecido como o Ano Terrível do Macaco Vermelho, por força das muitas emboscadas, das múltiplas capturas de soldados inimigos em armadilhas de caça adaptadas à ocasião, o burgo minguando de fome se viu obrigado a abrir os canaviais e aí plantar um pouco de tudo que desse para comer. Porém, pelas suas próprias características nutricionais, privilegiou-se o cultivo de milho.
Lançou -se assim pela primeira vez o conceito daquilo que muitos, muitos anos mesmo, mais tarde, viria a chamar-se cintura verde das cidades. Não se sabe pois, ao certo, o ano em que tal aconteceu. Sabe-se apenas que, tendo o milho sido lançado à terra, levantado as suas bandeiras, crescido e espigado, bandos de macacos invadiram os campos.
Assim  fizeram uma, duas vezes… mas uma terceira vez já não podia ser; assim decidiu Sô Feliciano que ficou conhecido na história como o estratega da resistência contra a morte pela fome. Com efeito, numa dessas noites quase não dormidas de tanto cogitar no assunto, tomou a decisão de acabar com os macacos que devoravam o milho com tanto risco e a tanto custo plantado. Mandou pois Sô Feliciano capturar um macaco. Um macaco que, entre os poucos assimilados que habitavam o burgo, silenciosamente passou a ser chamado “macaco-cão”. Tratava-se de fazer chacota do terrivelmente célebre chefe da polícia que comandava as patrulhas e as rusgas nos bairros indígenas e que era conhecido por aquele nome: “macaco-cão”.
Capturado o macaco, Sô Feliciano mandou-o pintar, bem pintado, a vermelho. Pintado a tinta de óleo, é claro, não fosse a chuva tirar o vermelho ao macaco e desfazer-se assim o seu plano. Foi o macaco pintado e repintado, com uma, duas, três de mão como se pintam as casas. E o macaco, assim, de vermelho reluzente pintado ficou. Ao sétimo dia, foi o macaco vermelho colocado no local onde habitualmente os da sua família iam comer o milho. Desolado, lá estava ele com o olhar buscando na paisagem os seus. Quando estes chegaram, os outros macacos portanto, iniciaram a sua tarefa de roubar o milho. Vendo-os, o macaco vermelho exultou de alegria e correu em sua direcção para a eles se juntar, aos da sua família que havia perdido. Estes, ao verem correr para si o macaco vermelho, entenderam que um espírito maligno se apoderara do território e puseram-se em fuga. E então é que foi bom de ver: o macaco vermelho correndo atrás do bando para se juntar aos seus familiares e o bando fugindo do macaco vermelho porque tinham-no como um espírito maligno. A verdade é que, o bando de macacos nunca mais voltou ao milheiral e o macaco vermelho desapareceu. Muitos meses mais tarde, muito longe, abandonado, foi encontrado o cadáver do macaco vermelho.
Foi também nesse ano, no ano do macaco vermelho portanto, que por aquelas paragens, andando na pesca com a sua tarrafa, graças à sua rede, um homem travou um verdadeiro combate com um jacaré e conseguiu salvar-se, enquanto uma mulher foi devorada por um outro jacaré e uma outra que se encontrava grávida e andava de apetites de comer caranguejos da água doce, numa das suas idas ao rio em busca de água e à procura dos ditos caranguejos que viviam no lamaçal, um jacaré disfarçado entre os caniços agarrou-a pelo peito, içou-a e, impotentes, todos a viram abraçada ao jacaré, partir para o fundo das águas.
Foi ainda nesse ano, em que a pele de jacaré valia como ouro, que se viu pelo fim da tarde, enquanto o seu marido com os demais, bebia uma cabaça de malavo, a mulher que fora ao rio lavar o peixe para o jantar, ser arrastada pelas pernas para dentro do rio. Consta também que nesse ano um homem que vivera refém no leito do rio mais de trinta anos fora resgatado e um outro, agarrado e carregado por um jacaré, ali viveu treze anos até ser libertado. Quando voltou, contou que ali, no fundo do rio, encontrara um enorme número de pessoas que desde a sua captura e preparo para evitar a fuga, faziam o garimpo de diamantes uns e se dedicavam à agricultura outros. Numa longa esteira, de joelhos, ao fim do dia, uma velha mulher nua, do tamanho de um imbondeiro, servia-lhes numa das mãos um pedaço de carne humana cozida, que tirava de um tambor de mais de duzentos litros e na outra mão servia-lhes uma colher de pirão. Foi ainda nesse ano e nas mesmas águas que, tendo igualmente sido capturado por um jacaré, foi resgatado o grande e poderoso papá Kiame Kiame, É Meu, É Meu, de que se dizia ter uma jibóia que vomitava dinheiro e ser o dono do maior séquito de maiombolas da região. Diz-se que tal foi o resultado do seu encontro com uma jovem que, tendo morrido na véspera e não tendo sido ainda vendida pelo seu algoz, poderia voltar à vida se, dentro dos dias imediatos, o seu corpo fosse submetido a um grande tratamento como os do Mestre Terramoto e se ela, na sua condição transitória de alma do outro mundo, pusesse no seu lugar uma outra pessoa de maior valor.


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