Os meses do sepulcro

Envie este artigo por email

A minha nação perdeu a cor em prol da falta de vergonha.

Os meses do sepulcro
linha de montagem VII

Estas sombras empanturradas levam-me, devagar, num navio sem velas onde quem funciona é o instinto. Sento-me à janela do tédio e vislumbro um silêncio satisfeito, uma amargura ancorada nas veias da vida, um silêncio sem roupas a vadiar as calçadas da minha casa, a voz dos outros bem longe como se parecessem estar perto, o dilúvio escondido na sombra das árvores como se a minha fosse um canto qualquer, empanturrem-me as quimeras, os lamúrios, os gritos fingidos, a incapacidade de dizer não a esta conversa sem princípio, a corda esticada à porta de todos no passo escondido nas vontades camufladas, esta cobardia de ter voz, de ter rumo, este caminho inventado para não se fazer nada e seguir como se o futuro fosse a vala comum de todos os destinos, pregos espetados nas palavras que se calam, pingos solitários no princípio deste inverno onde moras com lágrimas a coragem que te falta, parecem paredes de ferro a entrar adentro deste escuro deitado a ofuscar para fora este medo de viver, sinto-me cansado, tudo isto é nada e quem saberá como ser o contrário se a rua está fechada. A porta é aquela, que importa? A minha nação perdeu a cor em prol da falta de vergonha, como sinto ser como ela um cobarde escondido nas letras que soletro deitado nesta cama cheia de vícios a mensurar a saudade escondida da voz que tinha bem perto a aconselhar-me o caminho a seguir.
Ai que saudades e ainda saudades, não amo infortúnios nem deslavo peles cansadas, cuspo na cara desta honra vencida pela derrota que me avoluma, corro como tambores esta recta a descer e sentir no fim dela o corpo a doer, cansado talvez, mas na mesma a raiva de ser filho de uma vida que esqueci.
A cara lavada a vento rumo esquecida, a elegância ignorada no sentimento doente desta dor que incomoda, restam tempos que faltam, não sei, que horas nem isso, não me importa nada nesta altura saber que horas são, garanto, senta-te comigo e escuta as minhas frases disformes explicarem-te o que ainda não entendi, desabafa comigo o meu medo, conta-me da tua dor para que consiga perceber a minha, a barba vadia-me a face e calo-a escovando os lábios numa folha vulgar, não escutes a minha voz pendurada no tempo e perdida naquilo que pretendo, viajo selvas secas e medos escondido da vida, viajo, onde nem paredes o suor colar, cresce-me o cabelo e nem toco no corpo, lavo a cara na coragem de ser, onde me sinta vivo e a tua mão a meu lado, aquele abraço?

(onde me quiseram matar)

O silêncio sorria sozinho nas montanhas fantasmas do planalto. Um frio vazio deambulava nos alpendres onde paredes não existiam. Exibo a barba, o queixo dorido, o sorriso da sorte deambula algures pendurado nos postes da vida. Nem de que cunenes pensava. Pensava coisa nenhuma e caminhava enquanto rebolava pelo capim fantasma do caminho. Contava diariamente o castigo fustigado na face inocente do meu sorriso, magro, alto, pendurado nas quimeras severas do que me havia acontecido. O mar era longe, muito longe, sem carro, sem horizonte, restava o sonho queimado da cama imaginada nesta corda pendurado a sonhar contigo, a desejar-te, quem fosses, pouco importaria.
- Sabes?
Apeteceu-me tanto beijar-te, mesmo naquele cenário não feliz com as pernas esticadas para cima, presas em cordas de escárnio, sangue na cabeça, que dores amor, era o sepulcro. O rio tinha a força do destino.
- Como superá-lo?
Superando-o, as margens fugiam também, disse Deus na amálgama das margens que corriam, tal era a força do desejo.
Vivo nos restos da tua vontade onde só tu sabes de mim, procuro, de mãos atadas abraçar-te, e só consigo sentir o calor lindo do teu sorriso. As minhas mãos não conseguiram ainda chegar até ti, caminho solenemente farejando os teus passos, o redor calado da tua voz forçada pela campa avulsa desta caminhada, a erva daninha a proteger-me, o pensamento por ti protegia-me, repentinamente, um mergulho impensado numa mata qualquer repleta de todos os males.
- Abraças-me?
Preciso mesmo desse abraço, digo-o com todas as sinceridades, calado, apenas o meu pensamento funciona.
Desci a rua sentado no tempo, nem mãe à ilharga nem sonhos na manga, soldados fardados, confundi-os com capim, as vozes o sotaque diferente, deambulavam não sei em busca de quê, se me vissem matavam-me aos quadradinhos garantidamente mas nem me viram, passei de rastos apenas porque rastejava naquele solo divino, dizes ter tido sorte, não estava sozinho, entre mim e o capim a esperança da chegada ao desconhecido nem sabia dele, nada, nem notícias me chegavam, uma tarde mordaz sob um sol cansado e fugir sem saudades, o rio escorria suave o som da sua corrente descendo para sul.
- Sabes nadar?
Qual resposta qual quê!
- Cala-te masé!!!
Encharcado de tantas coisas como erva, capim, parecia mergulhado no algodão da inocência, nem arma a tiracolo houvesse necessidade de me defender, serviria?, e nem há mantas e nem sei onde, a minha mãe sentada creio, no canto onde soldados me quiseram matar.
Nem dentes para a escova ou escova para os dentes.

Comentários

Newsletter


Colabore com o Jornal Cultura - Envie-nos os artigos da sua autoria.

Colaboradores Ver todos