Primo Narciso

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(I parte): Conto de António Fonseca.

António Fonseca Fotografia: Jornal Cultura

Na verdade, o homem sempre tivera hábitos madrugadores. Porém, desde o dia em que ao povo viera o Chefe de Posto, cada vez mais cedo se levantava, ainda não tinham os galos cantado. Nem o sol começara a raiar, dirigia-se para a beira do riacho. Pegava então no pequeno pau desfiado numa das pontas, envolvia-o de carvão moído e com ele esfregava os dentes. Depois gorgolejava água fresca tirada com as mãos em concha, para de seguida tomar um banho que lhe lavava o resto do corpo e lhe acalentava a alma.
De um hábito rotineiro, tornara-se esse num momento de ponderação sobre a gravidade da situação: como poderia ele, descendente directo de Cazuangongo, esse mesmo que tanto trabalho dera aos portugueses, esse glorioso Cazuangongo que derrotara colunas de tropas de Luanda, Benguela e Moçâmedes e praticamente fizera a independência dos Dembos, e que se recusara a pagar imposto… esse mesmo que se opusera à passagem de qualquer natural que estivesse vestido à europeia… como poderia ele consentir que seus filhos fossem assimilados…!
Haviam passados já vários dias desde a visita do Chefe de Posto que, acompanhado de um sipaio que lhe servia de intérprete, um antigo soldado da Companhia Indígena, as tropas auxiliares, viera comunicar as novas medidas do governo quando, ponderadas as circunstâncias, o homem considerou que o melhor era seguir as sábias palavras de um mais velho que um dia dissera: “próximo deles somos protegidos ou menosprezados. Mas longe deles, pior um pouco. Temos medo até sermos acusados, ninguém nos salva; nem podemos invocar o nome deste ou daquele em nossa defesa. Mas se continuarmos com alguns deles, pode ser a nossa sorte. Há sempre alguém que nos possa defender”. – Com eles, sejamos como eles, entre nós, sejamos como nós mesmos. – Concluiu assim o homem o turbilhão de pensamentos em que há vários dias andava mergulhado.
E foi assim que tomou a decisão de no dia seguinte ir à vila onde conhecia alguns comerciantes, para tentar “colocar” os seus rapazes.
No Sô Martins, um branco considerado de primeira, nascido e crescido na metrópole portanto, colocou o filho dos seus quinze anos. Não era demasiado grande nem demasiado pequeno para criado, o que abonou em seu favor. No Silva, um branco de segunda, nascido na colónia portanto, conseguiu colocar o filho dos seus dezassete anos: era bom para ajudante da carrinha e do armazém. Quanto ao mais novo, dos seus doze anos, ninguém o queria, pois era pequeno demais para os trabalhos que tinham.
Seriam umas duas da tarde quando, sentados à sombra de uma figueira, o homem se pôs a fitar o edifício da alfândega, em frente. Com os olhos percorreu o grupo de carregadores que atirava sacos de café para o escorregador, uma rampa de cimento afagado, de onde iam parar directamente para os batelões, que depois seriam puxados por rebocadores até ao alto mar, onde então se faria o transbordo do café para os barcos.
– Devem ter vindo de Nambuangongo – considerou.
Uma carrinha, entretanto, aproximou-se para a descarga.
– Esta parece vir do Loge ou do Tabi. Deve trazer laranjas ou bananas – continuou o homem nos seus pensamentos.
Em cima da carga, os ajudantes esperavam a sua vez. O homem pensou então no filho que deixara colocado como ajudante do Silva. Cerrou os olhos e massajou o rosto. Pegou no pau que suspendia o embrulho que levava e colocou-o ao ombro, segurando-o com a mão esquerda. Deu a mão direita ao petiz e lá se encaminharam para as bandas da Fortaleza. Passou pela Casa dos Escravos, pela Fazenda, pelo Clube, pela Escola erguendo a sua torre centenária, pelo Girão, pelo J. Martins, pelo Isaías e, quando iniciavam a caminhada de regresso, olhando desalentado para o lado da Casa da Bomba situada no promontório da contra-costa, de onde se tirava água e de que se dizia ser habitada por uma sereia, se lembrou do Sô Rui. Virou à direita, seguindo depois em frente. Passou pela igreja e, lá adiante, avistou a casa pintada de ocre azul. Caminhou mais alguns metros até se abeirar do quintal da mesma. Junto à cancela, pousou o embrulho e, com as mãos em concha, como se faz tradicionalmente quando se quer pedir a palavra, bateu- as três vezes, produzindo um som oco. Respondeu-lhe um angustiante silêncio. O estabelecimento estava vazio àquela hora. Numa terra onde parecia não haver ladrões, bem poderia ser que as portas estivessem abertas sem que lá estivesse alguém… bateu palmas desta vez. Voltou a bater palmas e chamou:
– Sô Ruí… Sô Ruí…
E eis que à janela do quarto contíguo ao estabelecimento assomou um ­homem dos seus cinquenta anos, que lhe fez sinal para empurrar a cancela e entrar para o quintal.
Pouco depois, vestido com a sua habitual bata branca, lá estava o Sô Rui esboçando um breve sorriso como que a dizer que já imaginava ao que o homem ia com o rapaz. Aliás, tal não era difícil de adivinhar para quem já se tinha familiarizado com aquele tipo de coisas, desde que fora anunciado pelas sanzalas o novo estatuto indígena. O Sô Rui não era branco, nem de primeira, nem de segunda. Era sim um mestiço que, embora se soubesse de quem era filho, nunca vira essa paternidade reconhecida. Aprendera as letras com a Madrinha Josefa, recebera o baptismo pela mão do Padre Maia e por esses caminhos aprendera os hábitos da “civilização”. Graças a isso pudera ser considerado um assimilado, ao contrário de muitos outros que, como suas mães, permaneciam indígenas, tal como o estatuto no seu artigo segundo rezava: os indivíduos de raça negra ou seus descendentes que, tendo nascido ou vivendo habitualmente nelas (províncias) não possuam ainda a ilustração e os hábitos individuais e sociais pressupostos para a integral aplicação do direito público e privado dos cidadãos portugueses.(1)
– Mavakala?!... – Atirou o Sô Rui à guisa de saudação.
– Sim, Sô Ruí…
– Então, com essas imbambas, o que andas aqui a fazer?!...
E o homem, mais com gestos do que com palavras, explicou ao que ia: ali, na casa do Sô Rui, queria colocar o filho que ali estava com ele, para aprender a profissão.
– Bem, bem… este é pequeno mas, como se diz por cá, é de pequeno que se torce o pepino. Talvez sirva para alguma coisa.
Mavakala não entendeu grande parte das palavras do interlocutor mas percebeu que o miúdo poderia ficar, o que o fez exultar de alegria.
– Como se chama o rapaz? – Perguntou o Sô Rui.
– Kidilu Nsuadi – respondeu-lhe o homem.
– Não! Isso não. Com esse nome o rapaz não vai a lado nenhum. De hoje em diante – o Sô Rui dirigia-se agora ao rapaz¬ – passas a chamar-te Narciso. E quando eu te chamar, tu respondes: Padrinho.
E foi assim que Kidilu Nsuadi passou a chamar-se Narciso.

(Continua na próxima edição)

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