T'chikukuvanda

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No tempo de Kaparandanda.

 

Aquele lagarto, T'chikukuvanda, ameaçava-me num vaivém de cabeça, muito por demais assustador. Em cima da lohanda soprava numa insistente vontade de me ver fugir; a cabeça verde, como um fole, estendia-se do pescoço vermelho, inchando bravura num corpo escamado de azul elétrico.

Aqueles quarenta centímetros de lagarto, atemorizavam qualquer predador e, num suavemente, peguei numa pedra arredondada sem gesticular qualquer repentino movimento; ambos nos tremíamos e, eu só estava ali porque espreitava o atalho da bissapa que nos levava ao rio, o mesmo aonde o kaluviaviri mijou mau cheiro, por medo daquele lagarto ou para marcar território.

Quando o Kaluviaviri surgia nas redondezas havia azar de kazumbi por perto ou, estava para acontecer alguma coisa de mau.

O Faísca ladrou toda a noite, pelos trovões que se ouviam para os lados da Chicala. desconseguia se perceber se os trovões eram mesmo de trovoada pois que, nos entretantos, parecia ouvir-se o som de batuque, podia ser a caravana do katengue Jamba da Costa, que dez dias antes tinha passado com os seus muitos carregadores Bienos, Bailundos e Luchazes a im de permutar tecidos e álcool por mel, borracha, cera, urzela, óleo de palma, coconote, couros e cornos de bichos.

Naquela noite, o meu avô Mussungu, confidenciou que o espirito dele, cheio de ossos descarnados, lhe segredou coisa ruim; insistiu comigo, para logo que raiasse o dia me deslocasse ao rio Cunhangâmua para ver se havia pegadas e gente no lodo da margem; Kaparandanda, atormentou-lhe toda a noite, num sonho maluco rodeado de muitas e visionárias suspeições; deveria andar por perto!

A caravana do Katengue, que normalmente era composta por mais de trezentos homens, deveria passar por ali nos próximos dias e, haveria que salvaguardar o negócio do Quipeio. Durante dias vovô Mussungu mandou preparar kuambus feitos de farinha de milho grelada que já repousava fazia mais de dois dias inteiros.

Havia no N´jango enormes panelas com quimbombo e t´hassa para vender àquela gente toda, muitos cestos de matira cheios de mandioca para cozinhar na hora e, também batata doce nas quindas.

Todo este preparo de negócio não podia ser estragado pelo Kaparandanda, filho do soba Kulembe, bandido inteiro na arte de esconder, chefe de um grupo de renegados.

O filho de Kulembe desentendeu-se do pai por este ser demasiado colaborante com os Muana-pwó, daí o desentendimento, revolta e fuga com um bando daquele sobado.

O medo do meu avô Mussungu podia até não ter fundamento, porque estava este sítio do Huambo, muito para além das terras de Amepa, Kaluita e Bundionai, aonde Kaparandanda atuava mas aquele sonho do mais velho não dava tranquilidade a ninguém que fosse gente.

Vovô mandou-me meter um milongo, preparo de T'chingange na Iohanda maior, aonde as mulheres pisavam a mandioca; era ali que o lagarto T'chikukuvanda ia comer e assustar os meninos com reganho fintado.

O pedaço de milongo, era uma mistura de não-se-quê com gidungo para o lagarto após comer, dar indicação dum possível assalto a ser feito pelo Kaparandanda; se depois de comer aquilo, fizesse diarreia espalhada na direção de poente o sinal era por demais de bom, Kaparansdanda, o bandido, não atacaria!

Escondi-me por detrás dum muxito e, pude ver o lagarto aproximar-se de mansinho e após ter comido o preparo, tendo-se apercebido da minha presença correu para mim, estancou sacudindo a cabeça, soprou-me e riu com muku, não sei se por medo, se por valentia; na excitação avançou de novo e deu-me berrida. Só parei no ximbeco da n´haca do negro Sakassumbi.

- Haka!...sukuama!... que susto!

No dia seguinte dito e perfeito, o lagarto borrou-se todo na direção de Benguela e, assim, na tranquilidade a caravana no seu entretanto, chegou. Por ali acamparam perto do N´jango na N´dala, beberam, comeram, fumaram liamba pela mutopa, tocaram puhitas, reco-reco, gon´ma e já encharcados de katchipemba e os demais kuambus, ficaram por ali estirados no terreiro.

Dias depois soubemos por um funante de nome Pinto dos Santos, que o tal Kaparandanda tinha sido preso no Sopá do Passe quando vinha a caminho de Cunhangâmua. O Capitão Alexandrino prendeu-o tendo em seguida sido desterrado para a ilha de São Tomé.

Isto passou-se mais ou menos, quando eu era candengue, de faz-de-conta, no ano de mil oitocentos e oitenta e seis, "tempos de Kaparandanda" e, como tal, ficou assim conhecido.

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