Tragédia Tchokwe no Formato dos Autos de Natal com Dez Cantos em Surdina

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Sangwangongo Yafina

Kixixi hatchikúka wóma hiwéza
(O kixixi tem a cabeça para baixo o medo chegou!)

Canto I
Venham todos ouvir os prodígios
chegados dos mares
pela boca velha do viajante
que transpôs tundavalas e espinheiras
passo a passo um rio
sem canoa nem ponte
sem escravo que conte o tempo
nem muralha que meta medo
venham todos ouvir.
(Eu sei mãe, quem outra senão tu cobriu de estrelas a manjedoura?)

Canto II
Canta o grilo vermelho
e seu canto ondula pela distância
- tão leve a brisa que espalhou a farinha
reservada ao pirão da criança -
que som alado alegra o coração
dos que esperam o filho perdido
vendido e condenado a abrir um rio caudaloso
a cada passo rumo ao lar
o filho que deixou na estrada tudo o que levava
nas mãos ensanguentadas
na sacola definhada
na boca lacrada
e cada dia que passa
é mais pesado que a noite
mais sombrio que a servidão
porque não consegue largar
as mágoas que sufocam o coração
mesmo quando canta o grilo vermelho.
(Eu sei mãe, o filho que deste ao mundo é a tua máxima dor)

Canto III
Morrer é deixar todas as coisas para trás
nascer é encontrá-las
nas estradas arruinadas
em cada rio sem ponte
em cada casa assombrada.
Se morre a mukúla
na colina do Bindo
logo nasce a mwanza dos ninhos
o pé de bordão maruvo
verdejam as folhas da mandioqueira
quando a lua espalha prata nas lavras do Seke.
Nascer é encontrar
morrer é deixar tudo para trás.
(Eu sei mãe, enganaste a vida para salvar os sonhos)

Canto IV
A cria da gunga chorou
e seu choro matou a mãe
porque por trás da aflição
estava o arco do caçador.
A vida ainda não se pôs,
o grilo vermelho tem terra fresca
à porta de sua casa
nada está perdido
nem a esperança
nem o banquete do grande dia
para agasalhar os pródigos filhos da terra
a panela renova o pirão
que dorme há tantos anos na cozinha
kuhíkulula xima
só a velhice é definitivamente sábia
o caçador aprendeu
e o choro da cria matou a gunga.
(Eu sei mãe, sem ti ninguém salvava o mundo)

Canto V
O viajante falou dos segredos
guardados no fundo do mar
e perante gritos de espanto e lamentos lúgubres
chegou mascarado o que come vidas
só os velhos mais velhos
sabem esconjurar tanto perigo
e o estranho homem
que cria um rio a cada passo que dá
pagou o tchiwimbi
na noite soou ténue o canto do kixixi
e o viajante continuou a falar dos segredos do mar.
(Eu sei mãe, é tão fria a ausência dos mortos!)

Canto VI
Agora todos sabem, falou o afamado
Sakasole não morreu
tinha razão o grilo vermelho
para continuar a cantar
o rapaz recusou o calor do kimbo
e partiu depois do sol-pôr
pelos caminhos secretos
guardados por aquele que come vidas
na sacola tinha apenas o livro da sabedoria
Sakasole suicidou-se
ninguém anda com a noite pelas estradas da morte
agora todos sabem, falou o afamado.
(Eu sei mãe, pior que a prisão é a tristeza)

Canto VII
O pássaro da noite
poisou na árvore torta
e desde então há festa na floresta
vaidades do cuco ignoram o seu cheiro
quem canta espanta o medo
porque o kixixi tem terra fresca na toca
assim falou o viajante:
- o que vai à frente é que perde o caminho
vamos esperar o reencontro
com os passos perdidos
há-de regressar o que tarda
assim dita o voo flácido
do pássaro da noite.
(Eu sei mãe, o Messias bateu à porta)

Canto VIII
O jovem pastor da cabra velha
deixa o pirão a dormir
na esperança de comer carne
ao amanhecer da sua morte
o grilo vermelho ainda canta?
A resposta sobre os desgostos
está naquele que enterrou seus mortos
Sakasole partiu à noite
essa é a outra face da morte
intangível à magra sabedoria
do jovem pastor da cabra velha.
(Eu sei mãe, a ceia está na mesa e só falto eu)

Canto IX
Eis o medo, a lenta asfixia
dos nossos corações
kixixi calou o seu canto
a cabeça está virada para baixo
e a terra fresca à porta da sua toca
foi levada pela brisa como poeira
o viajante pagou o tchiwimbi
e o que come vidas agoirou:
- teme o futuro sem o grilo vermelho
que o passado foi vergado e vencido
e em breve o luto
vai amaldiçoar a abundância de pirão
mesmo que a cabra velha esteja morta
o choro das crias impede o banquete
e a carne vai dormir na podridão.
Não voltarão os que partiram
seus passos não abrem rios
agora é o tempo dos tristes lamentos
asfixiados pelo medo.
(Eu sei mãe, jamais se perderá a melodia da tua canção de ninar)

Canto IX
Eis o medo, a lenta asfixia
dos nossos corações
kixixi calou o seu canto
a cabeça está virada para baixo
e a terra fresca à porta da sua toca
foi levada pela brisa como poeira
o viajante pagou o tchiwimbi
e o que come vidas agoirou:
- teme o futuro sem o grilo vermelho
que o passado foi vergado e vencido
e em breve o luto
vai amaldiçoar a abundância de pirão
mesmo que a cabra velha esteja morta
o choro das crias impede o banquete
e a carne vai dormir na podridão.
Não voltarão os que partiram
seus passos não abrem rios
agora é o tempo dos tristes lamentos
asfixiados pelo medo.
(Eu sei mãe, jamais se perderá a melodia da tua canção de ninar)

Canto X
O kixixi silenciou seu canto
na chana plena de abundância
mas tremem corações de mães
e estão paralisados os passos da dança.
o que pede comida é rei
o que rouba na lavra é pedinte
mesmo que tenha um trono
seja dono de rios e mares
ou espante o que come vidas.
Nada existe para além do pensamento:
o kixixi virou a cabeça para dentro
o medo abriu a porta e mora na nossa casa.
(Eu sei mãe, as famílias pagaram o tchiwimbi para festejar o Natal)

Maianga, Natal de 2010

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