Ungunda

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Quando ouvi dizer que o Sekulu Tchikanya nunca abandonou a sua casa, a notícia não me caiu como verdadeira, pois, não houve ninguém naquela terra que não tivesse andado à toa, à procura de um lugar tranquilo no tempo de guerra.

Fotografia: Desenho de Neves e Sousa

Foi assim que, em pleno conflito, tive a feliz surpresa de me deparar em Viana com a prima Soliwa, bem sucedida, naquele tempo dos cartões.

Caímos sobre ela, todos nós, família e patos, como moscas á volta de uma porcaria pobre. Ainda vive, mas com perna inchada de trombose sem hipótese de cura e às portas da Kamama, ditaram os médicos.

À notícia, desandamos todos, sem exceção. Dizem que está na moda. A notícia sobre o Sekuku Tchikanya, virou-me a cabeça. Obrigou-me a pegar nas imbambas mais importantes e meti-me a caminho ao encontro do velho.

Tantas ideias e lembranças guardara que, às vezes, nem sequer pegava sono. Por isso, encarei com naturalidade aquela viagem longa e arriscada, envolvida de momentos quase lendários, caminhos desusados, obrigando-me a ir e a vir á procura das últimas pegadas de pessoas. As pegadas que pareciam atuais, eram de leões, elefantes, onças e até de ekisikisi .

Já sabia que até o vento daquela terra bazara para Namibe, transformando-se em deserto e tornou-se munano . Os macacos, precipitados com os acontecimentos, desandaram também para o norte, mas com o medo do destino que lá encontraram, tinham decidido regressar, era tarde demais, porque o caminho já estava impedido.

Sabia, por outro lado, que as aves desertaram para as margens do Kutato dos Nganguelas, entraram no território alheio da Namíbia, por engano, onde foram acantonadas como refugiadas e o regresso está vista.

Algumas árvores, precipitadas com os acontecimentos, morreram de vez. Nem uma raiz conseguiu brochar porque as nuvens, assustadas, rarearam e, só de vez em quando, deixavam cair algumas gotas, devido às bombas incendiárias que, por pouco, não atingiram Deus e estaríamos, então, de infinitamente tramados.

Pelo caminho, não vi nenhum transeunte, porque a terra parecia-se, ainda, a uma fogueira mal apagada. A água, até do Kuanza, caía às gotinhas nas duas margens e foi graças a ele, que esta terra resistiu, senão, nem nós, nem os animais, nem as árvores, nem os pássaros e, se calhar, nem as montanhas, sobreviveriam. Viva o Kuanza - murmurei.

Foi numa daquelas tardes dessa viagem tenebrosa que cheguei ao meu destino. Encontrei o velho Tchikanya sentado. Numa tranquilidade e silêncio de cemitério. Não se mexeu. Creio ter sido esta a sua arma de sobrevivência, pois, quem foge, esconde alguma coisa. Dizem que muitos foram abatidos ou simplesmente amarrados e surrados sem motivo, porque por tudo e por nada, puseram-se às correrias. O velho sabia e nunca se mexeu. Olhou para mim, à medida que me aproximava. Nem sequer se levantou, mas reconheceu-me e bem.
 -Tu não és o filho do endividado Sekulu Ndinga?
 -Sou eu mesmo! -Oh, tu! Que te trás aqui, agora?
-Vim visitar a minha terra!
 -Tu tens terra? Vá-te embora, teu maldito! Que o diabo te leve!
Cuspiu no chão em sinal de desprezo. Levantou-se e virou-me as costas, em direção à cubata e acrescentou:
-Não foram vocês que deixaram os pais em dívidas, no tempo em que eles fizeram tudo, para pagar os vossos estudos, convencidos de que iriam salvar o país contra as atrocidades do Mueputu?
 -Oh Sekulu, não fomos nós! Os acontecimentos surgiram...Mas eu vim falar contigo sobre outro assunto.
-Surgiram... ah? Não foram, vocês que os trouxeram? Vocês que estudaram com o suor dos pais?

Apoiou-se no cajado, fixou-me nos olhos e disse:
 -Olha a nossa ribeira ficou avermelhada. Nem uma gota de água para beber. Só de vez em quando é que recebe algumas gotinhas que vêm do Kuanja . A nossa colina ficou carecada como eu. Nem uma só árvore. Até o vento e as árvores, foram-se embora, sei lá... Vá-te embora. Nem te quero ver. Tu e os teus colegas transformaram-se em eternos servidores dos outros povos!

- Mas eu não vim para provocar sarilhos. Vim para que me explique umas frases que tinhas pronunciado para nós, quando éramos estudantes da Escola de Imaculada!
-O quê?
 Segurou no machadinho, meteu-o na cintura, e o cajado na mão, deitando para o ar, frases enigmáticas para o cabrito que o seguia:
 - Vamos meu caçule, estes gajos não aprendem mais. Colocarão outra vez esta terra em fogo, cuidado!

Pouco depois, já a descer à ribeira, gritou para mim!
 -Vou às nakas , se quiseres esperar, voltarei! Senão, é melhor regressares lá para donde viestes, lá onde se diz que há de tudo!
O velho deixou-me em apuros. Não sabia quanto tempo haveria de esperar e sentei-me por cima do muro de salalé. A tarde caía. Nenhum canto de pássaros que, outrora, entretiveram as tardes. Quando um cantava, o outro parava, numa sinfonia que punha a natureza deleitada. As coisas não eram nada como hoje em que até os homens com altos estudos, andam às escondidas uns atrás dos outros como formigas sem comando. Afinal, o velho não tinha ido a lado nenhum. Como sábio que era, colocara-se por trás de um arbusto à espera da minha decisão. Quando se apercebeu que eu não abandonara o lugar, pôs-se de volta, sempre, aos murmúrios.
 - Então, ainda não regressaste? Tu que nem sequer viste os teus pais a serem enterrados. Andaram aqui, anos a fio, á espera que tu lhes indicasses o caminho da vida. Foi, por isso, que se endividaram, enviando-te à escola. Para nada valeu.
 -Éramos jovens, ainda, quando estudávamos na Escola da Imaculada. Eu, o Chanda, o Sameti, o Kacthipalelo, o Fundanga, o Epakela,o Muango, o Silichamale, a Munga e outros tantos da minha juventude. Hoje, resta-me, apenas, um. Que saudades! O velho Tchikanya construíra a sua casa e seu onjango junto da ribeira de Kaneva. Antes de entrarmos na aldeia grande onde vivíamos , tínhamos que passar junto da casa do velho Tchikanya. Na escola, os estudos corriam bem menos o Português, que não sabíamos, de modo que quem se enganasse e falasse Umbundu, transportava uma tábua às costas com as letras Umbundu. Era , então, o bumbu de festa do dia entre colegas e ninguém queria passar por aquela experiência, sobretudo, na presença da Munga, Salala e da Natelele ( era linda que nem oluhengo ).

Na aldeia, pelo contrário, os velhos tinham decidido que nenhum de nós deveria falar em português, porque eles não o entenderiam, apesar de terem sido eles que nos tinham enviado á escola, dizia-se, que era apenas, para mudar o seu destino.

O Português para eles, era a língua do Mueputu que cuspia sobre o povo ou do cipaio Fioko que batia a sério. Aquela ribeira era a linha divisória entre o Português e o Umbundu. Quando estivéssemos próximos dela, junto da casa do velho Tchikanya, onjango cheio, tínhamos que conversar só em Umbundu.

O njango de Tchikanya era o local de encontro dos velhos, depois de saírem das lavras, para conversas do dia, enquanto as mães com olhos avermelhados, tentavam pôr as panelas de barro a ferver, para o jantar ficar pronto.

Se o velho regressasse do njango e não encontrasse o jantar pronto, então, surgia a maka da noite que, às vezes, terminava em gritos que se espalhavam por todo o kimbo como acontecera, um dia, com a tia Namoso.

Para quem tenha assistido a tudo aquilo, é emocionante vê-las, hoje, a saltitar, a brincar, a falar livremente e até a desafiar os homens. Sofreram muito. Que seja feita a justiça. Pois, as mamãs, foram também criadas à imagem de Deus e quem se atrever a tocar nelas, outra vez, será julgado, porque os tempos mudaram mesmo. Mas os tempos mudaram, menos para nós, ainda, quando fui pensando nas palavras do velho Tchikanya.

Nós vínhamos de férias para aldeia e já estávamos próximos junto do njango do velho. Contudo, o Sameti continuou a falar em português, depois eu, o Muango e o Fundanga. A conversa estava saborosa, quando sentimos que o njango entrara em silêncio.

O velho Tchikanya saiu para fora do njango, vindo ao nosso encontro com o rosto enrugado. Ergueu-se com um pau na mão e parecia mais alto, aos gritos para nós para toda a gente ouvir:
_Vão para lá com a vossa filosofia . Vêm aqui com uma só perna, deixando a outra na escola, he? Parecem-se aos morcegos. Wapaluhi ! Juntem as pernas como acontece com os homens que prezamos seus ancestrais. Se continuarem a andar, assim, com pernas afastadas uma da outra, uma na escola, outra no kimbo, amanhã, Ungunda.

Atravessámos a correr a ribeira, quando ouvimos de novo gargalhadas, vindas do njango. Os velhos riram-se, certamente, pelo facto de Tchikanya ter utilizado uma linguagem difícil de entender.

Assim que o velho regressou das supostas nakas, aproximou-se de mim, não perdi mais tempo e disparei a minha pergunta:
-O que me trouxe é saber o significado daquelas palavras que tinhas pronunciado, um dia, para nós, quando éramos estudantes e vínhamos da Escola da Imaculada. Por favor, ajude-me a entender o seu significado, supliquei!

O velho ficou triste, olhou para longe de mim:
-Outra vez? Ainda não aprenderam o significado daquelas palavras? Olha, enterrei aí os teus pais!

 Apontou com o cajado atrás da cubata e vi uns montinhos que pareciam ipanga , onde semeávamos o milho com os pais. O velho viu-me a lágrima a cair. Ficou com pena, mas entrou noutra conversa:
 -Daqui não saio, ouviu? Nunca saí. Daqui saem vocês, os fugitivos e perdem a terra.

Entrou na cubata e fechou-se.

A tarde caía. Escurecia. Nem sequer tentei entrar na nossa antiga aldeia. Tinha sido informado que ela se transformara em cemitério. Tomei o caminho de regresso à cidade. Quando, parei para beber a água do Kuanza, apercebi-me da sua grande resistência e benevolência que, apesar de tudo, foi dando água aos seus filhos, tanto os de uma margem como os da outra. Foi, então, que percebi o sentido da sentença do Sekulu Tchikanya.

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