A imagística das ilhas, o passo da morna e o gemido existencial do verbo

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Antologia da Poesia Contemporânea de Cabo-Verde de Ricardo Riso

Com António de Névada, Carlota de Barros, Danny Spínola, Dina Salústio, Filinto Elísio, José Luis Hopffer C. Almada, Margarida Fontes, Maria Helena Sato, Mário Lúcio Sousa, Oswaldo Osório, Paula Vasconcelos, Vasco Martins, Vera Duarte, Surgida à base das aspirações da mirabílica (período definido com a publicação de "Mirabilis: de veias ao sol", antologia dos novíssimos poetas de Cabo-Verde, organizada pelo poeta José Luís Hopffer C. Almada em 1991, nesta Antologia da Poesia Contemporânea de Cabo-Verde, publicada no ano passado por Ricardo Riso, o verbo cabo-verdiano, com a intenção de constituir no Brasil um corpus da sua literatura dos dias de hoje, se evola nas bandas do samba e do futebol por treze poetas cuja poética sofre, no sublimado momento de elevação, da mais alta carga torrencial da emoção das dez ilhas.

Com esta geração, satisfatoriamente definida nestas duas estrofes do poeta António de Néveda, poesia e desabafo confundem-se para serem ambos corpo e voz que se doam à revolução, que se entregam à luta contra sequelas e ilusões herdadas da condição de pós-colonialistas:

Na sua palavra de apresentação da obra, Ricardo Riso assume o cuidado da difícil missão ao acentuar que organizar uma antologia expõe os riscos oriundos da seleção de quem a produziu, sendo inevitáveis algumas lacunas em razão das escolhas tanto dos poetas quanto dos poemas.

Entretanto, a desejada sensatez na seleção dos autores é imediatamente advogada no esforço visível de Riso em fazer desabrochar da pluralidade poética atual um quadro satisfatório, uma fotografia do agora repleta dos agentes do seu momento.

Fazendo recurso à igualdade do género, o organizador deixa subscrito no equilíbrio seletivo que a produção criadora deve assentar acima dos preconceitos sociais e ser desvinculada de qualquer tendência devota da imposta superioridade masculina às mulheres cabo verdianas.

Este brado feminino já foi anteriormente, por via da CONFRARIA, revista de literatura e arte, elucidado pela professora Cármen Lúcia Tindo Seco num artigo intitulado "algumas tendências da poesia cabo-verdiana de hoje".

Neste artigo, fazendo recurso à crítica ao machismo cabo  verdiano feita pela professora Maria Aparecida Santili, refere que "com essa poética de contestação da submissão feminina, o eu-lírico rompe com a ideia do "cais da saudade" ("cais da sôdade", em crioulo) que sempre aprisionou as mulheres cabo verdianas ao espaço circunscrito das ilhas. Assumindo-se também narrador, o sujeito-poético mergulha em uma poesia confessional, autobiográfica que instaura uma "escrita de mulher".

Uma escrita que se rebela contra a longa espera das "mulheres-sós de Cabo-Verde".

Referindo-se à dualidade lírica que próprios desejos, sendo amada e, ao mesmo tempo, amante, capaz de conduzir e expressar seu erotismo e seus sonhos, conquistando seu próprio destino de mulher".

A temática desta antologia se desfaz do verbo, ganha automatismo e vitalidade. Tecido como parte concreta das coisas, o verbo, içado pela imagística das ilhas, geme de febre existencial com o vento das praias, cintila na volúpia do sol, trepa nas harmónicas proporções da morna, choca na magnética obstinação dos búzios, deixa-se persuadir pelas cores da buganvília, e, imbuído na sua verdade histórica, perfuma o local da chibatada.

Estes fatores aparecem na produção poética, na afirmação contextual e na criação de identidade como elementos horizontais que sustentam a peculiaridade da estética da poesia cabo verdiana.

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