A lusofonia é uma bolha 2. Um multiculturalismo vazio

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Texto ilustrado com obras do artista plástico angolano Paulo Kussy

A lusofonia é uma bolha 2. Um multiculturalismo vazio
Obra de Paulo Kussy

5. o que demos ao mundo
Outro logro é “a ênfase (ser) colocada naquilo que os portugueses deram aos outros – uma dádiva do seu sangue e cultura – e não tanto no que receberam.” (MVA) Sem atender ao que se ganhou nessas incursões, a nível económico e cultural, tendo apenas em conta o que acontece hoje, podemos avançar precisamente o contrário. Se em Portugal a língua, a cultura, o trabalho, as atitudes, a própria população nos seus baixos índices de natalidade, foram renovados, é em grande parte devido ao que esses tais “outros”, imigrantes ou não, têm vindo a oferecer, numa africanização que ganha contornos subconscientemente. Porém, haverá mesmo permeabilidade da parte dos portugueses para assimilar coisas que vêm “de fora”, ainda que estejam cá dentro? Que laços estão criados??A lusofonia, no mundo pós-colonial, funciona como uma descarga de consciência, em que Portugal, numa estreita relação entre nação e império, se sente responsabilizado pelos países dos quais foi colonizador, e actua como centro, desfasado e anacrónico pois já nem o Velho Continente é centro na nova ordem global.
Não é demais lembrar que o discurso multicultural da lusofonia se baseia na lógica do ‘nós e os outros’, os hospedeiros e os hóspedes, os que partem e os que acolhem. Tal como se trata a migração como um fluxo e estatística, esquecendo os avanços e recuos, as estratégias e histórias que implicam este movimento forçado ou desejado, também se veicula a visão vertical conservadora que simplifica as culturas desses países ou de pessoas provenientes desses países, traduzindo-as e anulando as suas rugosidades.?Portugal é o principal beneficiador deste espaço imaginário e, no entanto, ao contrário do discurso de harmonização económica e cultural, não se verifica um real interesse em integrar africanos. São exemplos dessa esquizofrenia as políticas europeias, que o país não hesitou em adoptar, que combatem os fluxos de emigrantes africanos; a dificuldade bilateral de circulação de pessoas entre países que têm tantos habitantes de ambas as nacionalidades nos seus territórios e tantos negócios e parcerias em curso, como Angola e Portugal, com uma máquina burocrática (cheia de contradições) de desmoralizar qualquer um; a dificuldade de legalização dos cidadãos dos Palops em Portugal, e a dificuldade de estes sentirem que pertencem horizontalmente aos país onde moram, trabalham e descontam, e que as conotações herdadas do passado se dissiparam.?Como é que sendo a mais antiga e com tantas relações históricas, a imigração africana (de feição gregária, criando nichos onde os ‘portugueses’ não conseguem penetrar) ainda é vista com maior suspeita em comparação às características positivas das outras comunidades - a simpatia dos brasileiros ou o profissionalismo das pessoas do leste, brancos e mais disseminados na estrutura social?
Na mesma lógica de só se defender o multiculturalismo quando é inofensivo, marginaliza-se aquilo que não se compreende. O livro de Joaquim Arena, A Verdade de Chindo Luz - o primeiro de uma inexistente literatura da diáspora (conceito que em Inglaterra é muito corrente) - aborda a descoberta de identidade cultural das pessoas que habitam na orla das grandes cidades, neste caso as chamadas 1ªs e seguintes gerações de imigrantes (designação também muito equívoca) caboverdianos, mostra-nos como podem viver, em Lisboa, pessoas que contactam com a cultura portuguesa, deslumbradas com a sociedade de consumo, mas que não se sentem participantes. Vão queimando etapas para serem cidadãos de pleno direito, mas ainda sonham ir morrer à sua terra.
Nas margens, alguns comportamentos de africanos e descendentes de africanos em Portugal continuam a ser: cultura de gueto, desconfiança, fundamentalismos (todos os brancos catalogados de neo-colonialistas), impenetrabilidade, invisibilidade nas áreas de decisão (muitos negros no desporto para vanglória das equipas portuguesas, nas profissões invisíveis que são o sustentáculo da vida urbana – limpezas, obras, cozinha, mas quase total invisibilidade nos media, universidades, opinião, chefias ou governo); além de um baixo horizonte de expectativas, nas escolas, nos meios intelectuais e artísticos.
Na ausência de oportunidades ou estímulos sócio-culturais e económicos, o desânimo assola: foi na capital do império que eu montei a minha barraca / não consigo afastar a minha pistola, enquanto menino não conheci nenhuma escola, no liceu nunca vi / reformatório já fugi / Saramago nunca li / preparatório desisti, cantam os Phillarmonic Weed.
A vida apartada do centro (da tal Lisboa cool e multicultural) que habita em dormitórios, que se arrasta em comboios e barcos de exaustão, ou passeios a centros comerciais, é uma espécie de condição reproduzida em várias gerações, excluída deste cartão de visita que crêem fazer valer quando se fala de uma sociedade onde cabem todas as culturas. Mas, a partir da periferia, a nova diáspora africana “ultrapassa em grande parte as visões simplistas de diferença cultural e racial que dominam o discurso público” (Teresa Fradique, Fixar o Movimento, 2002, p.69), por exemplo através do rap, construindo um discurso crítico sobre essa mesma condição.

6. pensar o “Outro”: um multiculturalismo vazio
A única forma de pensar o “Outro” até agora tem sido ou assimilar ou tolerar (Sanches, 2006: 8), ou apenas explorar. Entenda-se tolerância no sentido do filósofo esloveno Slavoj Zizek: tolerar o “Outro enquanto este não é o verdadeiro Outro, mas o Outro asseptizado da sabedoria ecológica pré-moderna (…)a partir do momento em que se trata do Verdadeiro Outro (digamos, à clitoridectomia, às mulheres condenadas ao uso do véu, à tortura que acarreta a morte dos inimigos), da maneira como o Outro regula a especificidade do seu gozo, a tolerância detém-se.” (Zizek, 2006: 76)?Ou seja, ou se procura o semelhante (omiti-lo em nome da homogeneização da nação) ou o respeito distante, sempre por aquilo que é inofensivo e ‘tratável’, o que pressupõe uma despolitização de todo este processo ou estratégias de convivência.7
Se a multiculturalidade surgida na Europa é entendida como um veículo que proporcionou políticas de reconhecimento, há que contextualizá-la. No meio de tantas ofertas culturais e tantas boas vontades de ‘abertura ao Outro’, há que ter cuidado com as versões de multiculturalismo para as quais somos convocados, que não raro acabam por fechar as comunidades em si-mesmas transformando uma luta política (a luta de fundo: porque há ricos e pobres?) em combates culturais de reconhecimento de identidades. Ainda Zizek “como se a energia crítica tivesse encontrado uma via de substituição na luta por diferenças culturais que deixam intacta a homogeneidade de base do sistema-mundo capitalista.” (Zizek, idem)
O multiculturalismo como “uma espécie de posição global vazia, que trata cada cultura local como o colono trata uma população colonizada – como indígenas cujos costumes devem ser cuidadosamente estudados e respeitados.” Nesta lógica, as culturas apenas se encontram, ou entram em choque, mas não se contagiam, porque são coisificadas, promovidas a identidades (étnicas, por exemplo) e retiradas de um processo de complexidades. (MVA) Raros são os momentos de conhecimento, fruição, trocas culturais e debates produtivos, em que as diferenças culturais convivem de formas variadas, em movimento e influenciando-se mutuamente. Apesar dos combates culturais não deverem substituir-se às lutas sociais, é uma dinâmica que deve vir a par.
Marta Lança

(CONTINUA NA PRÓXIMA EDIÇÃO)

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