A maioridade da Literatura Infantil

Envie este artigo por email

Sempre me intrigou, como estudiosa e produtora de literatura infantil e juvenil, certa tendência, nem sempre confessada, mas percetível em alguns críticos e até em algumas faculdades de letras, de considerar essa literatura como produção menor.

Nunca entendi o sentido desse "menor". Literatura para menores? Menores de idade? Menores na cognição? Menores em prestígio intelectual? Menores no número de páginas? Menores em qualidade? Nunca ficaram claros para mim os critérios utilizados para definir esse "menor", porque sempre vi a produção literária infantil como um espaço de grande desafio.

É sabido que, egressa da narrativa popular, a literatura para crianças esteve muito associada a uma produção simples, de regras previsíveis, que tinha em suas origens o objetivo de dividir experiências, divertir e nortear caminhos. Importando da literatura oral para o texto escrito a simplicidade técnica, os recontadores de histórias fixaram essas vozes populares.

Foi o que fez Charles Perrault, em 1697, no classicismo francês, com os Contos da Mamãe Gansa, cujo título original era Histórias ou narrativas do tempo passado com moralidades .

Como é sabido, Perrault, de forma "politicamente correta", atribui a autoria da obra a seu filho adolescente Pierre Darmancourt e dedica-a à neta de Luis XIV, rei da França. Empregando a terminologia da análise semiolingüística do discurso de Patrick Charaudeau, podemos dizer que o autor, dessa forma, evita infringir o contrato de comunicação da literatura da época, resguardando-se de possíveis críticas e criando um canal para eventuais elogios.

É a partir dessa forma literarizada por Perrault que os contos de fadas passam a ocupar um espaço expressivo, legitimados na sociedade francesa e vistos como fonte de literatura para crianças.

Se, por um lado, Perrault se revela um bom conhecedor dos contratos de comunicação "vigentes" na Academia Francesa e na corte de sua época, por outro deixa marcado o lugar bastante desconfortável a que relegou a produção apresentada. Se não é digna de levar seu nome, pode ser tomada como produção "menor", bastarda, de uma paternidade outorgada.

Se pensarmos também no fato de que, a partir do século XVIII, a literatura infantil esteve associada à consolidação da burguesia e que isso significou estar ligada a contratos de comunicação que supunham um enquadramento aos valores da nova classe, daremos razão ao imaginário que considera tal literatura arte menor, já que esse engajamento excessivo implicou a hipertrofia do aspeto didático, em detrimento da fantasia e do estético.

A literatura para crianças passa a ser vista como uma excelente forma de ensino e não de educação. Não custa lembrar o étimo dessas palavras: educar contém o prefixo latino e, variante de ex ­ "para fora" ­ seguido do verbo ducre ­ "conduzir". Significa, portanto, "conduzir para fora", "trazer para fora", ou seja, conscientizar o aluno de um conhecimento latente em seu espírito, como fazia Sócrates com seus discípulos pelo método da maiêutica.

É, pois, tratar o estudante como um ser inteligente, é orientar a aprendizagem e não adestrar, ao passo que ensinar é in ("dentro") seguido de signare ("colocar marca" ­ signum é `sinal", "marca" ­ como se faz com o gado, a ferro quente). Significa, por conseguinte, calcar de fora para dentro a mente do aluno, colocando nela informações. Ensinar é, pois, "treinar", "adestrar".

A indústria do livro infantil surge num cenário em que cabe à família e à escola ­ instituições responsáveis pela solidificação política e social da burguesia ­ qualificar as crianças para a vida adulta, num quadro em que estas passam a ocupar um lugar até então inusitado e se tornam centro simbólico das atenções.

Comentários

Newsletter


Colabore com o Jornal Cultura - Envie-nos os artigos da sua autoria.

Colaboradores Ver todos