A música contemporânea tuaregue, O eco do Sara tocou o mundo

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INTAGRIST EL ANSARI

Tassili, o novo álbum da banda Tinariwen, foi lançado a 28 de Agosto de 2011.Este álbum, exclusivamente acústico, foi gravado em Tassili n'Ajjer, uma zona montanhosa maciça situada no sudeste da Argélia. A tendência, desde a realização sonora ao local escolhido para a gravação, pretende ser (supostamente) "um regresso às origens" para esta banda, figura de proa da chamada “música contemporânea tuaregue”.

Ora, será que “retorno às origens” não quererá, na verdade, dizer um “descolamento” destas mesmas origens? A questão é pertinente no caso da “música contemporânea tuaregue”, especialmente depois da sua criação, das mudanças que sofreu e das relações que mantém com o mundo, ou seja, além da imensidão desértica do Saara.

E para responder a esta questão é necessário recuarmos na história, na esteira do percurso dos Tinariwen, figura emblemática deste movimento eclético. Vamos então no trilho dos criadores da "música contemporânea tuaregue ".

Contexto e nascimento

O grupo Tinariwen é uma banda composta inicialmente por vários artistas tuaregues (Feu Intayaden, Ibrahim  AgAlhabib, Al-Hassan Touhami, Abdallah Ag Al-Housseïni, Mohamed Ag Itlal, Kedhou Ag Ossad e outros).

O grupo integra mais de uma dezena de membros permanentes e participantes pontuais. Tinariwen é, para os tuaregues nativos, o emblema de um movimento musical, revolucionário, artístico e poético, de um género novo. Esta corrente surgiu no início dos anos 80, nas fronteiras comuns a quatro países: o Mali, o Níger, a Argélia e a Líbia.

Esta música contemporânea tuaregue é também habitualmente designada pelo chamado movimento Teshumara, que significa literalmente “caminhada”, em língua Tamasheq. Trata-se de uma corrente musical que conta hoje com cerca de uma centena de artistas e de formações musicais.

As circunstâncias do aparecimento do Teshumara correspondem aos anos 70 e 80, anos de grandes secas no grande deserto, especialmente nas zonas nórdicas do Mali e do Níger. As consequências (crise alimentar e política) destas perturbações ecológicas fizeram com que um grande número de jovens tuaregues partissem em exílio para os países vizinhos, como a Argélia e a Líbia. Estes jovens partiam em grupo à procura de aventura, glória e fortuna.

Viver uma vida de “exilados”

O desenraizamento, o sentimento de ter deixado os seus para trás e de ter deixado o seu país na indiferença dos poderes políticos de então são os principais elementos que forjaram as características, os objetivos poéticos e as identidades artísticas do movimento Teshumara.

Dão assim origem a uma música cuja composição rítmica parece extremamente simples e cuja força se deve sobretudo ao poder de uma poesia cheia de nostalgia e de um sentimento de devaneio que emana, por vezes, do repertório tuaregue clássico.

Foi assim que se formou um primeiro grupo em torno dos atuais membros da banda Tinariwen. Naquela altura, este grupo era conhecido por Taghreft In Tinariwen (a edificação dos desertos).

O primeiro concerto teve lugar em Argel, em 1982. Seguiram-se depois outros concertos e a rápida popularização da música dos Tinariwen em cidades como Tamanrasset, no grande sul argelino.

O grupo foi aumentando ao longo do tempo e com os encontros, enquanto este estilo musical conquistava cada vez mais o espírito dos jovens tuaregues, exilados ou autóctones do grande sul argelino e sudeste líbio. Formaram-se outros grupos. Assistia-se assim ao aparecimento, no Sara, de um “movimento cultural e artístico” de dimensões importantes.

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