A música contemporânea tuaregue, O eco do Sara tocou o mundo

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Esta nova vaga não encontra a origem do seu aparecimento e da sua existência, intrinsecamente (como afirmam erradamente “os etnólogos, antropólogos, musicólogos, críticos…”), no “desejo de rebelião”, para retomar a sua expressão, embora a rebelião emergente (mais de dez anos depois da formação do primeiro grupo) tenha beneficiado deste fenómeno de expressão artística e cultural.

Creio que este movimento emana sobretudo dos sentimentos – de exílio, de aventura, de desenraizamento – e de encontros e confrontos, especialmente (e em grande parte) com “músicas clássicas e populares do Magreb e do Médio Oriente” e, em menor grau, comas “músicas do mundo”. A conjugação destes acontecimentos permitiu a eclosão desta expressão pessoal e artística da nossa época a que chamamos “música contemporânea tuaregue”.

O aparecimento deste tipo de música é, mais uma vez, muito anterior, independente e “exterior” à revolta tuaregue dos anos 90, que viria a servir-se desta corrente artística já em marcha para fazer passar a sua mensagem.

Sequência dos acontecimentos

No início dos anos 90,dá-se a Revolta, a dita “Rebelião Tuaregue”, na sequência de um tumulto popular e político geral no Mali. Uma crise política e as rebeliões populares de grandes dimensões e sem precedente perturbam o país de norte a sul.

Cinquenta e um anos depois da independência do Mali, estes diferentes tumultos fazem parte da sua história. Embora tenham sido dolorosos, trouxeram, a meu ver, transformações importantes a nível político, económico e social a este país.

Uma breve resenha destes acontecimentos: de início, no Grande Norte, nas regiões de Tombouctou, Gao e Kidal, os rebeldes tuaregues reclamam ao Estado maliano um reconhecimento das especificidades da cultura e da identidade tuaregue, uma melhor distribuição da riqueza e uma política de desenvolvimento do norte árido, deserto e isolado do resto do país num vasto território demais de 1 240 000 km2.

Quanto ao sul do país, é na capital do Mali, Bamako, que a revolta dos estudantes ganha mais expressão.
Se, a sul, esta revolta é duramente reprimida de forma sangrenta pelo antigo regime político, os confrontos no norte do país entre o exército do Mali e os rebeldes tuaregues fazem mortos entre as populações civis, e levam ao exílio dos sobreviventes nos países vizinhos: Mauritânia, Argélia e Burkina Faso.

Foi assim que se instalaram campos de refugiados tuaregues nestes países fronteiriços.

Estas revoluções originaram, um pouco mais tarde, o estabelecimento da democracia no Mali, a organização de eleições pluripartidárias (é o multipartidarismo emergente no Mali) e a assinatura de um pacto nacional de paz entre o exército e a Rebelião do Norte, acompanhado de um plano de desenvolvimento das regiões saarianas do Mali.

Quanto à música do Sara, do "movimento Teshumara " que todos apelidavam na altura de "a Guitarra " (e, ainda hoje, nos meios tuaregues), ela era, na altura, unicamente acústica e veiculava a mensagem da nova revolta do norte do Mali. As fitas-cassete circulavam tão depressa como as informações circulam na Internet dos nossos dias.

É a partir daqui que os Tinariwen passam a basear o essencial das respetivas composições numa mensagem de resistência e de encorajamento que se destinava aos jovens, incentivando-os a juntar-se às frentes em guerra contra o exército do Mali. A música dos Tinariwen e de outros grupos do mesmo género tornou-se a porta-voz da rebelião tuaregue.

O movimento Teshumara tinha então encontrado nesta revolta o sentido de um compromisso que inspirava mais o seu repertório que já tinha estado, no início dos anos 90, em pleno florescimento.

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