A música contemporânea tuaregue, O eco do Sara tocou o mundo

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Inseridas numa música de ritmo nostálgico e cativante, as palavras tinham uma poesia poderosa que seduzia facilmente as raparigas. Estas, por sua vez, desafiavam os rapazes. Querendo provar a bravura aos olhos das suas belas, e para cair nas graças delas, os rapazes respondiam ao apelo dos Movimentos de libertação do Azawad” e alistavam-se nas fileiras.

Perspectivas e evolução: Nós éramos jovens

A nossa juventude foi passada nos campos de refugiados de "Kel Tamasheq" (Tuaregues) que se formaram na Mauritânia, na Argélia e no Burkina Faso, na sequência dos confrontos entre os rebeldes e as forças armadas malianas no norte do Mali. Adolescentes, crescemos moldados pelo espírito desta música carregada de sentimentalidade, esperança e nostalgia.

A beleza dos poemas cantados fazia reviver em nós a esperança de voltar um dia, pelo melhor, ao espaço desértico da nossa infância. Existia em nós a esperança muito viva de recuperar a nossa vida anterior. Vivíamos com esta sensação que transparecia sempre nas canções dos grupos: como um sonho e como a procura de um paraíso perdido.

Despendíamos muita energia a organizar soirées musicais nos campos, dedicadas especialmente a esta música, a maior parte das vezes por meio de postos de rádio cassetes. De vez em quando, vinham grupos dar concertos.

Ainda hoje, guardamos uma certa nostalgia da autenticidade daquelas primeiras músicas.
Em 1992, o regresso da paz ao Mali seria garantido pela assinatura de um pacto nacional entre o governo maliano e os Rebeldes. Em 1995, iniciava-se o regresso dos refugiados que se tinham instalado nos países vizinhos do Mali.

Adivinhava-se uma nova carreira para os Tinariwen: a geração intermediária de artistas já tinha nascido na esteira dos acontecimentos, por vezes nos campos de refugiados ou nos países vizinhos, como aconteceu com Mohamed Issa Ag Omar, que nasceu na Mauritânia.

É em 1992, com "Ténéré", que os Tinariwen gravam pela primeira vez em estúdio, em Abidjan. Dezenas de cassetes terão circulado no Saara antes do aparecimento desta primeira gravação em estúdio. Uma segunda cassete foi depois gravada em Bamako, em 1993.

Nestas duas gravações, havia já uma nova tendência nas sonoridades. Na realidade, a guitarra elétrica, o sintetizador e a máquina absorviam grande parte da acústica, e a música parecia, ao ouvido, muito menos autêntica: começava a distanciar-se das suas origens, ou seja, da sonoridade acústica simples que acompanhava um canto poético poderoso, que vos transporta para um qualquer lugar longínquo, infinito e profundo.

Seria necessário esperar por 2001 e pelo lançamento do álbum Radio Tisdas Sessions, produzido por Justin Adam, para descobrir os Tinariwen. Retomando certas passagens antigas, o álbum aventuras e agora na rota dos blues e do rock. É um álbum muito influenciado pela direção artística de Justin Adam, guitarrista dos anos 70 e que toca um tipo de música punk com influências diversas, como o blues africano, o reggae, James Brown, Robert Plant…

É como álbum Amassakoul, lançado em 2004, que os Tinariwen dão a conhecer ao mundo a música contemporânea tuaregue. O lançamento deste álbum teve um sucesso enorme, com grandes tournées na Europa, nos Estados Unidos, no Canadá, na Ásia…

Os dois álbuns seguintes (Aman Iman, em 2007, e Imidiwan: Companions, em 2009), que confirmam o sucesso internacional do grupo, já não representam os Tinariwen. O novo álbum Tassili, lançado no final de Agosto, representa um regresso às origens mas, no entanto, continua “produzido” com um processo mais industrial, menos artesanal, menos “roots”, contrariamente ao que deixaria supor o espírito com que o álbum foi fabricado.

Tassili é uma peça de exceção, inscrevendo a banda entre os grandes nomes das músicas do mundo. Embora se fale, cá e lá, (erroneamente) de blues e de rock tuaregue, basta olhar para o itinerário, a formação, as influências, a construção, a evolução e, sobretudo, para o que dizemos próprios artistas para admitir que é despropositado falar intrinsecamente de blues ou de rock tuaregue.

A imprensa e a crítica internacional insistem e criam o mito: “os homens azuis do deserto que renunciam à Kalachnikov em favor da guitarra elétrica”. Os clichés genéricos dos “senhores, Homens azuis do deserto ” são a prova da ignorância do Ocidente em relação ao Saara, às respetivas culturas e à respetiva história.



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