A odisseia da reapropriação na obra de Mouloud Mammeri

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Este artigo reproduz uma conferência de Pierre Bourdieu sobre a obra do escritor e antropólogo argelino Mouloud Mammeri.

Fotografia: Desenho de Ahmed Messli

Resumo

O texto de Bourdieu foi lido in absentia no colóquio realizado em Argel sobre "A dimensão magrebina da obra de Mouloud Mammeri". O Autor compara a relação de Mammeri com o Magreb, região do Norte da África, como uma "odisseia", na qual essa peregrinação comporta dois momentos.

O primeiro, de afastamento da cultura nativa, em direção à cultura universal universitária. O segundo, de reapropriação da cultura de origem através da investigação etnológica e de suas pesquisas sobre os antigos poetas cabilas.

A descoberta de Homero e o investimento no trabalho etnológico sobre sua terra natal permitem a Mammeri ligar as duas pontas dessa viagem, graças ao resgate da cultura renegada através da cultura que impôs sua negação.

O fim desse percurso equivale à confrontação com uma das modalidades da dominação simbólica, que é a vergonha de si. Palavras-chave: Mouloud Mammeri; Magrebe; poesia; Etnologia; Homero; dominação simbólica.

Gostaria de estar em Argel para participar da homenagem prestada a Mouloud Mammeri e a sua obra, falando sobre aquilo que, a meu ver, constitui a sua maior contribuição à cultura deste pai s.

A minha vontade seria mostrar, em poucas palavras, que a história da relacao de Mouloud Mammeri com a sua cultura de origem e a sua sociedade pode ser descrita como uma odisseia, em que um movimento inicial de afastamento, em direcão a praias desconhecidas e sedutoras, e sucedido por um longo regresso, lento e cheio de perigos, aterra natal.

Essa odisseia e , a meu ver, o caminho que todos os filhos de uma sociedade dominada, de uma classe ou regia o submetidas a sociedades dominantes, devem percorrer para encontrar-se ou reencontrar-se. Eis o que, a meu ver, torna exemplar o itinerário de Mouloud Mammeri.

O primeiro passo e, então, o movimento a ser feito para se apropriar da cultura, da cultura pura e simples, aquela que não e preciso qualificar e que aparece a si mesma como universal, aquela ensinada oficialmente nas universidades e que só se adquire ao deixar para trás muitas coisas, quase sempre a língua materna e tudo o que a acompanha.

Esse movimento de repúdio, de renegação , muitas vezes ignora-se como tal. Ele sempre efeito, em todo caso, com o consentimento daqueles que o fazem, associando-se a uma espécie de felicidade.

O processo poderia parar ai e são muitos que, integrados ao universo dominante, conhecidos e reconhecidos pela sociedade e pela cultura que eles reconhecem, nada mais lhes pedem. Mouloud Mammeri parte do ponto em que outros teriam se detido: escritor da língua francesa, ele se põe a escuta, agora, dos poetas forjadores, demiurgicos (Homero usa várias vezes a palavra "demiurgo" para designar o poeta), guardando na mesmo ria as poesias que eles compõem, muitas vezes ta o sofisticadas quanto as poesias dos simbolistas.

Quem teve de pagar o seu acesso acultura legitima com uma espécie de morte simbólica do pai, liga-se de novo, então, acultura paterna. Pois essa cultura, tanto tempo reprimida, permanece um propósito contido de reabilitação e leva Mouloud Mammeri a interessar-se por ela. Ele continua preso aos modelos que o fazem buscar referências nobilitadoras nas figuras mais nobres da poesia ocidental, como Victor Hugo.

Somente ao descobrir, por ocasião de nossas conversas, uma figura de Homero que seus mestres académicos na o lhe podiam revelar, e que as suas pesquisas sobre os antigos poetas cabilas e suas pesquisas etnológicas deixam de se desenvolver em planos distintos.

Um Homero reconstitui do em sua verdade antropológica e, desse modo, arrebatado a irrealidade da ficção académica, aproxima-se do amusnaw berbere, a quem Mouloud Mammeri confere uma forma de consagração o indiscutível.

E longo, como se vê, o caminho até o reencontro da colina, por algum tempo esquecida. O trabalho que, ao vencer a vergonha em relação acultura de origem, conduz a sua reapropriação é uma verdadeira socio análise, de que jamais se esta seguro de ter sido inteiramente concluída. Isso porque a superação da negação inicial na o pode tomar a forma de uma negação daquilo que determinou a própria negação inicial, isto e, de todas as fontes que a cultura dominante oferece.

Toda a dificuldade do caminhar para a reconciliação consigo mesmo e que os instrumentos que permitem a reapropriação da cultura renegada são fornecidos pela cultura que impo s a renegação. O último ardil da cultura dominante consiste, talvez, no fato de que a revolta por ela suscitada arrisca proibir uma apropriação dos instrumentos que, como a etnologia, são condições da reapropriação da cultura de origem, cuja negação foi motivada pela cultura dominante.

Mouloud Mammeri soube escapar desse ardil. Foi um dos primeiros a reclamar o uso da etnologia, combinando o seu trabalho pessoal de reapropriação de si mesmo com o empenho para desenvolver um trabalho coletivo de reapropriação de uma cultura esquecida ou reprimida.

Por certo na o gostaria de reduzir a soum dos seus aspetos uma obra essencialmente plural, múltipla, como a de Mouloud Mammeri, e ninguém se preocupa em protege-la, mais do que eu, das tentativas de apropriação a que ficara sujeita.

De todo modo, parece-me que a conversão pessoal que ele teve de realizar para reencontrar "a colina esquecida", para regressar a sua terra natal e , sem dúvida, aquilo que sobretudo ele quis compartilhar com todos, não apenas seus concidadãos, irmãos na repressão, na alienação cultural, mas também com todos os que, submetidos a uma forma qualquer de dominação simbólica, estão condenados a essa forma suprema do desapossamento que é a vergonha de si mesmo.

REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS

BOURDIEU, P. 1985. Du bon usage de l’ethnologie. Awal. Cahiers d’Etudes berbe?res, n. 1, p. 7-29.
_____. 1989. Mouloud Mammeri ou la colline retrouve?e. Le Monde, Paris, 3.mars.1989. Republicado na revista Awal. Cahiers d’e?tudes berbe?res, n. 5, p. 1- 3, 1989.

_____. 1998 (2004). L’odysse?e de la re?appropriation. Awal. Revue d’e?tudes berbe?res, n. 18, p. 5-6. (Publicado primeiramente na revista Le Pays, Argel, 27.juin-3.juil.1992; republicado em ingle?s : The Odyssey of Reappropriation. Ethnography, v. 5, n. 4, p. 617-621, Dec. 2004).

[in “Revista de Sociologia Poli?tica”, Curitiba, 26, p. 93-95, jun. 2006 - traduc?a?o de Luciano Codato] Cf. o artigo Diálogo sobre a poesia oral na Cabília, no presente número da Revista de Sociologia e Política (Nota dos editores).

Referência ao romance mais conhecido de Mammeri, La colline oubliée (1952), que trata da subversão da cultura tradicional nas montanhas da Cabília, resultado da guerra e da invasão colonial. O romance foi adaptado para o cinema, em 1996, pelo diretor cabila Abderrahmane Bouguermouh, que deu ao filme o mesmo título. Ficha técnica: La colline oubliée, França/Argélia, 1996, 105 min. Direção de Abderrahmane Bouguermouh; fotografia de Rachid Merabtine; trilha sonora de Cherif Kheddam e Taos Amrouche; produç.o de CAAIC/IM Products Films/APW Tizi Ouzou.

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