A raiz de uma coletânea de contos da África Portuguesa: Reflexões acerca do conhecimento das letras de Angola na Hungria

Envie este artigo por email

Algumas publicações recentes, e em especial a primeira colectânea de contos da África Portuguesa, nos obrigam a reflectir sobre o processo como esta literatura jovem tem sido divulgada e conhecida na Hungria.

Reflexões acerca do conhecimento das letras de Angola na Hungria
A poesia de Agostinho Neto foi das primeiras obras angolanas traduzidas na Hungria Fotografia: Paulino Damião

O nosso conhecimento da literatura angolana, formando parte das Literaturas de Países de Língua Oficial Portuguesa (não vou usar no meu texto as diferentes denominações que apareciam até esta, definitiva) remonta até as décadas de ‘50 e ‘60 quando as literaturas africanas e entre elas as de língua portuguesa apareceram no horizonte do nosso interesse. As razões, então, foram eminentemente políticas, dado que a causa dos povos africanos das ex-colónias e, no caso de Portugal, das províncias ultramarinas podia ser muito bem usada na luta contra o imperialismo nos anos da Guerra Fria. Por isso, pelo menos no primeiro momento, não podemos falar sobre um interesse eminentemente estético no conhecimento das literaturas africanas – o valor das obras literárias publicadas foi relegado a um lugar secundário, as obras eram mormente uma ilustração dos manifestos e artigos políticos.

Primeiras informações

Como escrevi antanho num meu trabalho, publicado em 1980, na vista “África, literatura, arte e cultura”, do saudoso colega Manuel Ferreira (nro. 8 de 1980, pp. 359-361), as primeiras informaçõess sobre literaturas africanas de língua portuguesa chegaram até nós através de uma “História da África Negra” de Endre Sík (“A fekete Afrika története”, Ed. Akadémia, 1964), em quatro volumes, apesar de o romance de Castro Soromenho, “Terra Morta” (“Halott föld”, Kossuth, 1963) ter sido publicado no ano anterior, em 1963. Ambas as obras saíram em condições muito determinadas pelo regime de então, porque o romance de Soromenho saiu numa editora semioficial do partido comunista e a obra de Endre Sík, segundo as palavras do autor, pretendia estudar a história da África do ponto de vista dos povos escravizados, e o autor no prefácio rezava que [cito] “o estudo da história da África Negra tem uma importância específica também no sentido de que eminentemente comprova e ilustra com clareza várias teses de Marx, Lénine e Estáline no terreno da história”. (Sík 1964, vol. 1. p. 18).
Outro estudioso húngaro, Tibor Keszthelyi publicou alguns anos mais tarde, nomeadamente em 1971, o seu livro “Formação e evolução da literatura africana até os nossos dias” [Az afrikai irodalom kialakulása és fejl?dése napjainkig, Ed. Akadémia, 1971]. Nesta análise histórica, de quase 300 páginas, apesar de uma predominância (aliás compreensível se tomarmos em conta que o autor conhecia apenas as áreas de influência francesa) das literaturas africanas em francês e em inglês, o estudioso húngaro dedica extensos capítulos, exemplarmente circunspectos, às literaturas de língua portuguesa, que ainda hoje têm validade. A “Formação e evolução… é uma obra que pode servir de iniciação para o conhecimento da literatura africana, em geral e das de diferentes línguas, em particular. É de sublinhar a vasta e exacta bibliografia que encontramos neste livro.

Divulgação no regime socialista

Nesta época, aliás prevalecia certa atitude divulgadora da cultura que foi uma das atitudes positivas do regime socialista, vigente então na Hungria, porque foram criados vários foros nos quais o leitor atento e circunspecto podia conhecer literaturas de outras terras. Assim podiam sair obras literárias de autores africanos que escreviam em língua portuguesa nas folhas da revista literária “Nagyvilág”, e nos volumes duma colectânea chamada “Égtájak” (‘Confins do Mundo’) – o curioso no caso destes foros foi que neles a intenção política não prevalecia e assim apareciam obras do mais alto valor artístico e estético.
Foi assim que saíram nas páginas da revista Nagyvilág poemas de Agostinho Neto, sendo ele o primeiro poeta africano de língua portuguesa que os leitores puderam conhecer na Hungria. O seu poema ”Fogo e ritmo” foi publicado no nro. 10 de 1961 da mencionada revista. Seguiu-se em junho de 1963 (nro. 7 daquele ano), na mesma revista, uma seleção de poemas africanos. De par com os versos de Birago Diop e de Jean-Joseph Rabearivelo, foram publicados os versos do poeta angolano Mário António Fernandes de Oliveira (“Sábado à noite”), os da moçambicana Noémia de Sousa (“Samba”), os do cabo-verdiano Jorge Barbosa (“Choupana”) e os do santomense Francisco José Tenreiro (“Os negros em muitas partes do mundo”). Neste mesmo número da revista saiu também um artigo assinado pelo notável investigador húngaro das literaturas africanas, Tibor Keszthelyi, intitulado “Desde a baqueta de tambor até a caneta”, no qual ele apreciava a atividade poética de Agostinho Neto, entre outros.
Ainda na década de 1960 vieram à luz na revista Nagyvilág (nro.6 de 1966) um conto de Castro Soromenho, intitulado “Samba”, e o poema ”Surge et ambula” do moçambicano Rui de Noronha.
Nos volumes da mencionada série Égtájak (‘Cantos do Mundo’) também saíram várias obras de prosa africanas dos autores dos hoje PALOP. Assim, chegou aos leitores húngaros o conto do escritor angolano Herbert L. Shore “Casamento em Angola” (Égtájak 67. Ed. Európa, 1967), o “Balaguinho” do cabo-vediano Baltasar Lopes (Égtájak 69, Ed. Európa. 1969) e o ”Repouso para almoçar” do moçambicano Luís Bernardo Honwana (Égtájak 70, Ed. Európa, 1970). Estas obras como podemos deduzir da pessoa do tradutor, foram traduzidas na maior parte de outras línguas intermédias, e não do português, mas mesmo assim serviam para a difusão das literaturas africanas de língua portuguesa.
Depois do período referido, veio um silêncio de quase dez anos. Na década de 1970, a atenção dirigiu-se em primeiro lugar para as literaturas das áreas francófona e anglófona, o que bem compreensível é se tomarmos em conta que naquele tempo já se tinha formado um grupo de especialistas das literaturas destas áreas, enquanto que, não havendo antes de 1974 contactos com a área de língua portuguesa em África, escasseavam os conhecedores destas literaturas.
Este “silêncio” foi desfeito no outono de 1979 quando a “Aurora”, uma revista literária de província, editada na cidade Békéscsaba, publicou versos de alguns poetas africanos, entre eles dois angolanos e um moçambicano: Agostinho Neto com o “Adeus à hora da largada” e “Para além da poesia”, Pierre Bamoté com a “Despedida” e Noémia de Sousa com o “Grito” (Aurora, nro. 3. de 1979)
Com a independência das colónias portuguesas em África chegou a altura de começar uma bem meditada actividade no sentido de divulgar sistematicamente os valores da literatura dos PALOP para evitar que as publicações fossem casos isolados e condenados assim a um rápido esquecimento. Foi novamente a revista Nagyvilág que tomou a iniciativa publicando em março de 1980 (nro. 3) uma panorâmica de poesia e prosa, acompanhada de um esboço histórico que traçava as linhas primordiais do desenvolvimento e das actuais tendências das literaturas dos PALOP, evocando este artigo, no seu título, a antologia de Manuel Ferreira, “No Reino de Caliban”. Dois poetas e dois prosadores representaram a África, lusófona desta vez. Agostinho Neto e Arlindo Barbeitos com os seus poemas “A verdade das palmeiras da minha mocidade” e “Almas de feiticeiros desaparecidos”, “Eu quero escrever coisas verdes”, “Oh, flora na noite”, “Um homem de chuva”, “Ilum”, “Oh monstro enorme do dorso”, “Por detrás da lua suja”, “Oh, princesa sem outra terra”, respectivamente. Os dois contistas foram: Manuel Ferreira com o seu conto “Nhô Vicente, conte a história toda” e Luís Bernardo Honwana “O Papá, a cobra e eu”.
Mais ou menos nesta altura saiu finalmente o livro de poemas de Agostinho Neto, “Sangrantes e Germinantes” em húngaro, com o título Vérzünk virágzunk (Ed. Europa, 1980), traduzido por inteiro pela eminente poeta Éva Tóth.
Na revista Nagyvilág sairam dois anos mais tarde dois contos de José Luandino Vieira do livro Vidas Novas: “Dina” e “Fato Completo de Lucas Matesso” (Nagyvilág, nro. 2 de 1982).

Minha experiência em Angola

E agora permitam-me alguns momentos subjetivos.
A partir da segunda metade da década de 1970, trabalhei várias vezes como intérprete, acompanhando delegações húngaras que visitaram Angola. Tendo visitado Luanda e viajado um pouco pelo país, tive a possibilidade de conhecer vários escritores e poetas angolanos, assim como pessoas simples da rua e cheguei a ter uma simpatia por este país e pelos seus habitantes. O director de então do departamento, professor Zoltán Rózsa, vendo o enorme material literário que tinha reunido, entusiasmou-me a debruçar-me sobre estas literaturas e autorizou-me a ensinar literatura africana. Assim aconteceu que a pedido da primeira e/ou segunda turma de alunos de português ministrei em 1981 e 1982 um curso de literatura africana, com muito êxito, e a partir daquela altura a história da literatura angolana, e um pouco das outras literaturas dos PALOP, formam parte do curso “Introdução às Literaturas em Língua Portuguesa”.
Estes cursos exerceram influência nos alunos, pois nasceram várias teses sobre autores da literatura angolana, como recentemente uma tese sobre a obra de Ondjaki e apareceram vários tradutores de obras da África Portuguesa. Assim, uma ex-aluna minha, Mónika Bense, traduziu o romance “O Vendedor de Passados”, de José Eduardo Agualusa (L’Harmattan, 2010), e vários alunos meus ajudaram-nos na seleção e tradução dos contos que formaram parte da primeira colectânea de contos da África portuguesa, intitulada Álomvadászok (Caçadores de Sonhos, Ed, ELTE Eötvös kiadó, 2012), baseada numa selecção publicada em 2008 na revista Nagyvilág (nro 11). Maria Demeter traduziu Pepetela, Réka Karvaly Uanhenga Xitu, Zsófia Pilhál Dario de Melo, Zsombor Szabolcs Pál, Agualusa, Viktória Nagy João de Melo, Szabolcs Király Roderick Nehone, mencionando apenas os autores angolanos.
E ultimando esta enumeração hei-de mencionar as duas traduções de romances de Ondjaki. Bálint Urbán e Péter Borbáth na edição de 12 de junho de 2012 da revista electrónica Új Nautilus traduziram um fragmento de Bom dia, Camaradas! deste autor angolano, cuja obra foi profusa e inteligentemente analisada nas páginas desta revista, que ofereceu também um espaço a um estudo volumoso de Bálint Urbán, sobre o desenvolvimento da literatura angolana, do ponto de vista pós-colonial. Outro fragmento, desta vez do romance A Vavó dezanove e o segredo do soviético saiu na revista Nagyvilág (nro. 4. 2013).
Com estas traduções e publicações a literatura angolana vai entrando no nosso dia-a-dia, e, o que é um fenómeno feliz, vêm aparecendo estudos, análises da literatura angolana, e recensões críticas das obras traduzidas. Antes mencionámos o nome de Bálint Urbán, que sendo meu doutorando escreveu vários estudos e recensões sobre a literatura de Angola e obras angolanas traduzidas; assim saiu uma recensão dele de “O Vendedor de Passados”, revista Disputa (nro. 7 de 2010); saíram, do autor deste estudo, um texto sobre a literatura angolana na revista Nagyvilág, encabeçando a seleção de contos, outro sobre o romance de Agualusa (nro. de setembro de 2010) e uma análise dos romances de Ondjaki também na Nagyvilág (nro. 4 de 2013).
Por falta de tempo esta apresentação não pode ser completa, assim hei-de passar por alto aquela grande empresa da Editora Europa, que na década de 1990 deu a luz uma grande antologia. Mas talvez este texto sirva de ilustração de como as literaturas dos PALOP, e entre elas a literatura angolana, começaram a ganhar terreno na Hungria e vão entrando no nosso dia-a-dia.
Pál Ferenc

Comentários

Newsletter


Colabore com o Jornal Cultura - Envie-nos os artigos da sua autoria.

Colaboradores Ver todos