A vigilante poética de Tony Tcheka

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MOEMA PARENTE AUGEL

Tendo promulgado unilateralmente a independência a 24 de setembro de 1973, a Guiné Bissau continua sendo sacudida por tensões internas motivadas por lutas pelo poder.

 

A vigilante poética de Tony Tcheka

O desenvolvimento económico e social é prejudicado por problemas até agora insolúveis, relacionados à gerência e à valorização do potencial natural e humano, o que se reflete no regime político e institucional, na distribuição e administração dos recursos, continuando o país quase completamente dependente da ajuda externa, tanto na sua economia quanto nas infra estruturas sociais e materiais. Uma parte considerável da população, premida pelas dificuldades sócio económicas e políticas daí decorrentes, abandona a terra natal, à procura de melhores condições de vida.

Os emigrantes, que acorrem em número cada vez maior aos países industrializados, estão longe de neles encontrarem o paraíso: abalados pelo desenraizamento, uma grande parte sem qualificação profissional e confrontados com culturas e mentalidades muito diferentes das anteriormente vivenciadas, envolvem-se em problemas de ordem emocional e económica, dificilmente conseguem alcançar uma integração, embora a melhoria do padrão de vida, por menos que seja, represente para a maioria a principal compensação. Em Portugal, por razões históricas óbvias, concentra se a grande parte dos africanos oriundos das ex-colónias lusas.

A ausência do torrão natal, o deslocamento do espaço vital, o desenraizamento do emigrante na diáspora, trazem como consequência o estranhamento, a perda de referências e o isolamento, tópicos explorados tanto por vários escritores guineenses, como Abdulai Sila, em seus dois primeiros romances Eterna paixão (1994) e A última tragédia (1995), Filinto de Barros, em Kikia matcho (1997) ou Carlos Lopes, nas crônicas de Corte Geral (1997). Tony Tcheka, mas também Pascoal D’Artagnan Aurigemma, Félix Sigá e outros, são poetas que, com seus brados de reprovação, de crítica e de ternura, expressam esteticamente a preocupação em compartilhar a sorte humana, num impulso de darem voz ao subalterno, ao oprimido, aos que estavam até agora à margem dos interesses e da representação hegemónica.´

Destacarei neste ensaio a obra de Tony Tcheka, dando prioridade a textualidades que tematizam poeticamente o desenraizamento dos emigrantes e a ambivalência de sentimentos tanto em relação ao torrão natal como ao país acolhedor, recorrendo para tal a Noites de insónia na terra adormecida (1996) e ao recém publicado Guiné sabura que dói (2008) Tony Tcheka, pseudónimo de António Soares Lopes Júnior, nascido em Bissau, em 1951, é jornalista desde 1974. Sua obra em prosa (crônicas, ensaios, resenhas, produção jornalística) é abundante e se encontra dispersa na imprensa nacional e estrangeira, sobretudo portuguesa (cf. Augel, A nova literatura; Augel, O desafio).

Arrefecida a euforia dos primeiros anos da libertação do jugo estrangeiro, a traição aos ideais revolucionários anuviou o entusiasmo do passado recente e a auto colonização recrudesceu, ulcerando a dignidade e o amor próprio da classe dirigente, ao lado do descalabro dos governantes, desiludindo a população que, cada vez mais, foi buscar possibilidades de sobrevivência fora do país. A falta de oportunidades profissionais na Guiné Bissau, a estagnação económica, o mau estado da agricultura e das infra estruturas sociais (provocando o êxodo rural), a ausência de indústrias que criariam lugares de trabalho são muitas das razões que movem o emigrante: “É gente nossa partindo/ desesperadamente/ semana/ a /semana/ vôo/ a/ vôo”, registra Tony Tcheka num poema intitulado “Ilusão”, consciente da falácia dessa vã esperança (Tcheka, Noites de insónia, p. 63).

Em “Diasporando”, o poeta reforça com essa transgressão semântica o protesto contra a degradação do emigrante africano na diáspora, vítima da complacência e do desprezo dos privilegiados: “Silenciosamente/ mudámos// para ficar/ sem estar// Mas ainda nos querem/ grãos de gente apeada/ da vida/ os negados do bem estar// ilegitimados/ da sorte” (Tcheka, Guiné sabura, p. 38). A experiência acumulada pela submissão ao colonizador continua viva, repetindo se, na metrópole, quase a mesma situação das passadas humilhações e de desintegração identitária: “adulteraram a minha cartilha – amassaram a minha alma”, denuncia ainda no mesmo poema; e em “Poesia brava”, recusa-se altivamente a perpetuar a dependência: “Não seremos/ o velho das grandes avenidas/ de cadillacs e benzes/ que estende a mão/ sem vintém/ ouve desdém/ e passa fome” (Noites de insónia, p. 81).

A identificação com o meio social e físico onde cresceu e viveu tem grande relevância para o posicionamento do indivíduo dentro da sociedade e em sua interação com ela, e propicia uma ligação emocional com esse território. Desenvolve-se uma identidade espacial que constitui uma necessidade emocional e psicológica do indivíduo (Mai, p. 5). Longe, na cidade estrangeira, a saudade envolve o emigrante, ampliando na memória o espaço físico
do torrão natal, o que pode provocar uma desestruturação no indivíduo, assunto muito tratado nas ciências políticas e também presente na literatura guineense, como se vai apresentar exemplarmente na lírica de Tony Tcheka.

A ilusão de uma vida melhor, a perspetiva de salários mais elevados, de liberdade e de autodeterminação podem levar ao fascínio muitas vezes falacioso da emigração. Em um poema na língua guineense, “Noba di prasa” (Novidades da cidade), o poeta realça a desilusão da jovem que sai de sua aldeia natal para tentar a vida num meio maior, cedo descobrindo que os encantos do mundo urbano não trazem nem a esperada fartura nem a almejada felicidade: “tarbadju keia/ diñeru nin pliu!/ [...] é barankial bida/ kurpu sinti ” (nenhum trabalho, nenhum dinheiro, [...] a vida sacode-a (a jovem) com violência, a pessoa sofre). Nem o conforto nem o brilho da cidade conseguem arrefecer a saudade do lugar de origem, a saudade do vento a soprar nos campos de arroz, nas bolanhas, misturada à sede da água da fonte: “sodadi di bentu di blaña/ djagasi ku sidi di iagu/ di fonti ” (Noites de insónia, p. 21), à sede de suas raízes e de sua autenticidade.

Pois a realidade do emigrante é bem distinta: “ Erramos/ no desconforto/ desesperado/ da diáspora ” (Guiné sabura, p. 39). Em “Ceia operária”, espelha-se o que quase sempre aguarda o emigrante na metrópole: uma vida de operário não qualificado, trabalho por vezes aviltante, salários de fome e a frustração, fatores que o arrastam frequentemente, por desespero, ao vício da embriaguez, além da marginalização e do isolamento: “Um copo três/ tinto/do tinto que queima o peito/[...] manhãs de invernia/ em pleno verão/[...] ’uma sandes/ de chouriço’/ sem manteiga/[...] e mais.../ um copo/ e outro/ no papo seco/ é uma ceia operária/ às duas da tarde./ Lisboa coisa boa/ disseram-me um dia!!!” (Noites de insónia, p.58).

Referências geográficas são parte da comunicação, apontam simbolicamente para um sentido social e guardam uma vigorosa memória histórica e biográfica, contribuindo para o equilíbrio emocional e o reforço da “consciência de pertencimento”, expressão já utilizada por Georg Simmel. Muitos poemas de Tony Tcheka estão impregnados de uma ira santa, de indignação e impaciência pelo desbarato social e económico em que o país está mergulhado, pelo marasmo de sua “Guiné”, “terra adormecida”, sua “terra tísica”, “zurzida”, terra “mulher grande/ fêmea/ sofredora/ terra di mi” (Guiné sabura,p.45),mas também terra “suave, sabi”, “kerensa gustus”.Confirmando a assertiva de Stuart Hall, que afirma fazer geralmente parte da definição do indivíduo nomear sua origem (Hall,p.47), a “Guiné sabura que dói” é referida ao longo de toda a obra, ora com desabafos esbravejantes, como em “Terra sofredora”: “Terra [...]/ plasmada de dores/ sucumbindo a tormentos/ amontoados nos becos” (“Guiné sabura”, p. 33); ou por lamentos amargos: “Terra sahel/ [...] voos amargos/ [...] esperança a esvair” (p. 21), ora ainda com balbuceios plenos de ternura: “Guiné minha flor de canteiros perdidos”. Elegendo a “sombra minha/ protegendo as minhas ibéricas noites”, o poeta amante desdobra-se em evocações, entoando um “Concerto à Guiné”: “Guiné [...] amor/ da chuva deflorando/ a terra vermelha de Bankulé/ [...] do perfume das moranças/ em tons de cabaça[...] acácias floridas” (p.30).

Stuart Hall, em A identidade cultural na pós modernidade, acentua a grande importância para o indivíduo de pertencer a um grupo, a uma sociedade, a uma nação, ali estar integrado, conhecimento ao qual “pode até não dar nome, mas que ele reconhece instintivamente como seu lar” (Hall, p. 48). Tony Tcheka conhece, por experiência própria, a inadaptação, a saudade da pátria distante, o perigo do desenraizamento. Em “Guiné”, confessa ter a pátria onipresente no pensamento: “De longe/ entre as sete colinas/ vejo-te” (Noites de insónia, p.59). E a ânsia do regresso provoca miragens no sujeito poético: “aquela ausência demorada/ faz-me ver o Geba/ subindo sobre o Tejo”.

Dificilmente integrando-se no novo ambiente, o traço de união mais forte e a força congregadora mais eficiente do emigrante é a vivência em comum do não pertencimento, o desconforto causado pelo estranhamento. “A integração foi um fiasco”, constata Joana, personagem de Kikia matcho (Barros, p. 142). A inclusão se efetua entre os excluídos, formando uma comunidade de sofrimento e insatisfação, de frustração e ressentimentos, mas que lhes proporciona uma estabilidade emocional.

Carlos Lopes, em “Do poilão à cova”, um dos contos de Corte Geral, refere se ao costume de muitos emigrantes que não dispensam os produtos da terra para assim, na situação de marginalidade em que vivem, fazerem face emocionalmente a uma relação social assimétrica, de outro modo insuportável: “Sobretudo os mais velhos não dispensavam os sabores mais exóticos que tinham pautado a sua vida: papaia, mango (que nós não dizemos isso no feminino), goiaba, mas sobretudo fole, azedinha, veludo e miséria. Para já não falar de chabéu e outros suculentos molhos pré preparados. Essas coisas não se vendem nos hipermercados, nem tão pouco ’baguitche’ ” (Lopes,p.36).

O africano procura adaptar se, pelo menos exteriormente, ao ambiente e aos costumes europeus, vestindo-se e comportando-se como aqueles que os rodeiam, mas tem consciência de continuar sendo um corpo estranho. Carlos Semedo, a primeira voz poética guineense, como poema “Ansiedade”, datado de Bissau, 1962, enquadra-se muito bem nessa temática. A saudade o atormenta e o emigrante anseia pelos ruídos, cores e aromas de sua terra: “Visto fato/ de corte moderno/ gravata condizente// A camisa de Vibra sintética/ assenta impecavelmente// Sou peça sombria/ d’uma Europa/ patética// Minha África distante...// A saudade faz-me louco” (Semedo, [p.27]).

Mais de uma década depois de ter escrito os poemas que integram seu livro inaugural, Tony Tcheka mostra se, em “Guiné sabura que dói”, continuadamente solidário e vinculado a seus compatriotas, com eles identificando se empaticamente. Em “Diasporando”, empregando a primeira pessoa do plural, Tcheka define-se a si, e aos demais marginalizados na grande metrópole, com dolorosas metáforas, chamando a atenção para a vida mofina dos desterrados: “chegamos/ asados/ africanamente [...]/ sublimamos os partos adiados/ aprendemos a falar de boca fechada/ e a saborear a saliva amarga de desgraça (“Guiné sabura”, p.38).

Tony Tcheka tematizou em muitos poemas a experiência da guerra intestina que abalou o país de junho de 1998 a maio de 1999, quando a visão dos “magotes de guineenses” em fuga arrancou-lhe pungentes e irados versos, como em “Êxodo”: “Balaios/ de mágoas/ corpos/ sofridos/dores/ encruadas/ cruzam-se em estradas/ de ninguém/ caras/ tisnadas de sofrimento/ baldeados/ sem caminhos/ magotes/ de guineenses/ fugindo da sua Guiné/ terra seca/ insuflada/ de pólvoras/de ódio” (p.37).

Está-se diante de um poeta de olhar vigilante e insone, possuidor de um lirismo indignado, postura participativa, sensibilizada e sensibilizadora, gerando versos de grande criatividade, e que capta, solidariamente, não só o sujeito subalterno no seu país, emprestando-lhe sua voz, como tem olhos e oração para a vida difícil e interiormente dividida dos emigrantes, saudosos do torrão natal, insatisfeitos em terras estrangeiras.

Concluo este ensaio com excertos de um longo poema do recente livro de TonyTcheka, como título “Angulazada na Tugalândia!”,neologismos invulgares que ressaltam as diferentes interseções dos ajustes e compromissos da aculturação, marcando a distância existente entre os dois mundos, mas também a inevitável, e mesmo desejável, coexistência: “Obtuso/ ângulo/na interceção/ de um tempo fronteira/ configurou se/ a 360 graus// angulei//[...] e /quando o mar/ desadamastado/ anuiu aos encantos do korá/ o nhanhero traçou a nobel rota/ cantado o último fado/ [...]//benzidas com cálices de porto e palma/ as novas caravelas zarparam/ ligando o Tejo ao Geba/ sem adamastores e sem recear bojadores// angulei/ voltei/ à terra branco das sete colinas/ de infantes conquistadores/ de Camões e de Alegre/ de Eça e de Negreiros/ penas afiadas/ que cortaram amarras/ quais santos milagreiros// – Capitães de Abril – // não vi a rainha santa/ mas saboreei a multiplicação/ de cravos vermelhos/[...] rasgando sorrisos/ dessa lusa gente minha irmã// [...] soltei/ o tempo/ fui às docas catingadas de suor antigo/ de cais em cais fui ouvindo Zeca Afonso/ interpretado na dança das gaivotas// os soldados já não embarcam/ as mães guardaram os lenços de acenos temerosos// uma lágrima de negro/ juntou se às águas ternurentas do Tejo/ falando mantenhas de saudade da Guiné reencontrada// essa Guiné que embala o sono/de soldadinhos de chumbo/ que nunca mais voltaram/ ao regaço da Tugalândia// subi/ subi/ subi/ animei/ fui à Mouraria Alfama Bairro Alto/ becos de saudade[...]// eu estava na Tugalândia/ sem mordaça//[...] fintei/ a saudade/ de um espaço/ que não era meu[...]// lembrei/ tempos estéreis/ tempos em que/ eu/ tu/ nós/ éramos/ os outros/ o segundo/ o terceiro/ o quarto/ de um outro qualquer// regressei/ hoje estou aqui/ sem lanhos biliosos/ aliviado de um peso/ que não é meu/ nem teu// e/ sem precisar de/ crucificar caravelas/ ou de permutar/ santos e/ aguardentes// angulei// exorcizei !“ (Guiné sabura, p.40).

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