ACALANTO: Um filme de Arturo Sabóia

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Acalanto poderia ser apenas uma canção de embalar.

ACALANTO:Um filme de Arturo Sabóia
ACALANTO:Um filme de Arturo Sabóia

Ou um mingau, um cheiro de infância - como um banho de chuva quente ou de mangueira no quintal - ou uma fotografia a sépia carcomida pelo tempo. Acalanto, realizado pelo maranhense Arturo Sabóia, é uma forma de preservar e criar vida através da memória de um filho que não deixamos partir. Mia Couto situa a narrativa do seu conto A Carta (que inspirou esta curta), num cenário de guerra. O jovem Ezequiel escreve uma carta para a mãe, mamã Cacilda, uma mulher humilde e analfabeta, porém sábia nos seus gestos e silêncios: a sua escrita tem um tom militar, desapegado, formal, e recorre a palavras de ordem em vez dos termos afectuosos que nunca aprendeu, para chegar ao coração da mãe, que é a sua única casa. O leitor, não do conto, mas da carta, um visitante habitual e conhecido da velha senhora, faz jus ao adágio popular (quem conta um conto acrescenta um ponto). Assim, de cada vez que lê essa carta, para satisfazer um pedido recorrente e insistente daquela mãe que mora na saudade do filho, reinterpreta-a, acrescenta-lhe emoção, pormenores, ternura e notícias novas. E a mãe deixa-se embalar por essa nuvem de carinho que a desperta do seu torpor, até ao dia em que entende que a carta não poderá voltar a ser dita, porque quem a escreveu não é já deste mundo. No filme do cineasta Arturo Sabóia, brilhante adaptação desta história tocante, tudo se passa na quietude da cidade, em tempos de paz, se é que pode existir paz num coração de mãe de onde partiu um filho para não regressar, a não ser pela magia das palavras do notário, griot moderno e exímio contador de histórias. O realizador optou por uma sobriedade absolutamente necessária e suficiente, pois a profundidade do enredo é carregada com eloquência e suavidade pelo olhar de Léa García e Luiz Carlos Vasconcelos. As suas personagens – Luzia, a velha senhora analfabeta e Chico, o notário - estabelecem uma relação cúmplice de afecto e dependência mútua, a mãe precisa de sentir o filho na narração dele, que cresce também como ser humano ao encontrar em si essa capacidade de mudar a vida de alguém através da palavra, repetida, renovada e purificada uma e outra vez. E assim, esse filho errático do conto de Mia Couto e da curta de Sabóia, acaba, afinal, por estar sempre presente, ainda que ficcionado e reconstruído diariamente, como numa narrativa amnésica. A beleza desta trama reside na aproximação de duas pessoas que dificilmente se cruzariam, mas que os imponderáveis da vida levam a construir este canal em que se tocam e se transformam. E esse filho passa a ser de ambos, vivendo na saudade de um e na palavra do outro. Ao ler, ver e sentir o peso desta carta e deste acalanto, atravessaram-me o espírito também outras histórias de embalar, ou de arrepiar, por razões diversas, mas que provocam calafrios da mesma índole: Cyrano de Bergerac, o homem que conseguia escrever e sentir como suas as emoções de um homem rude, mas que não conseguia expressar-se no amor, e conquistar o coração da bela por quem outro suspirava. Mestre Tamoda, o personagem mítico do escritor angolano Uanhenga Xitu, que escrevia cartas a pedido dos que o procuravam baseando-se em manuais de correspondência familiar e de cartas de amor. José Costa, o ghost writer de Chico Buarque em Budapeste, ou ainda e sobretudo, o conto La salud de los enfermos, de Júlio Cortázar, no qual o personagem Alejandro, falecido num acidente de viação «continuava» a escrever regularmente, do Brasil, cartas carinhosas e ricas em detalhes à sua mãe, através de um complot bem-intencionado e sem falhas, e da piedade cúmplice de toda a família.
Acalanto poderia ser apenas uma canção de embalar. Neste caso é um espaço de encontro entre três almas perdidas de si mesmas, que enfim encontram a paz.

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