Aeroporto, símbolo da transversalidade

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Amosse Mucavele os remos dispensa, temos as mãos para a navegação Sangare Okapi

Elói Vasco é um dos artistas moçambicanos dono de uma música de grande lirismo Fotografia: Jornal Cultura

O Aeroporto é um bairro único na cidade de Maputo. Diferente. Graças à sua extraordinária e encantatória localização, para ele confluem várias vozescom outros cânticos, para ele confluem todas as pedras fundamentais entre o Aeroporto Internacional, a linha férrea, a vala de drenagem e no meio das avenidas de Angola e Moçambique, por “sinal e sina” projecta-se e edificam-se espaços múltiplos para alargamento das distâncias.
Neste bairro as paixões são representadas à altura dos acontecimentos, Malangatana pintou os lugares cativose a ternura da nossa sociedade, Lindo Lhongo, o dramaturgo, acendeu a luz da intimidade nas suas celebres peças As Trinta Mulheres de Muzelenie e Os Noivos ou Conferência Dramática sobre o Lobolo, Oblino, o escultor, ergueu o alfabeto da melancolia, Vasco Manhiça, o artista plástico, com uma aritmética global e globalizante, expõe a doença do capitalismo, com todos os seus sintomas.
Se olharmos o bairro como um palco, Montaparnasse negra, como um articulista já o descreveu nos anos 80, estende-se, o bairro, como uma privilegiada montra de sofridos êxitos.Mais do que uma consistência dos sonhosé a renovação e a multiplicação dos lugares. Há um olhar longínquo que se infiltra como o ar nas janelas do bairro, este olhar redesenha o Aeroporto como a metrópole da nação criativa, sonhadora, futurista e utópica.SHIKHANI redefiniu a preto e branco os equívocos da nossa história, NaftalLangaesculpiua memória colectiva, instaurando desde sempre o mesmo sonho de retratar todas as épocas, Elói Vasco, com a sua música de grande lirismo, sintetiza múltiplas referências, traduz a dor exposta no “Mural do Povo” , desdeas hostilidades sociais àexplosão do grito suburbano no seu Rythm& Blues rouco Bantu e Laurentino.
Aqui chegados, devemos nos lembrar dos quintais de latas de parafina (phalafêni) bantustanizando as casas civilizadas de madeira &zinco, onde a vela no dorso do carvão refundiu o discurso da felicidade de muitas famílias, que têm no batique a gratidão e a bondade do percurso frenético do seu quotidiano.
Azmir, Simbine, Ukheyo, AmósMawai, Beto Sitói, Bachito, Hambro, Thafu, de geração em geração com seus “Olhos de Deus” vão pondo em cena a difusão das figuras de cores múltiplas que reinventam o tempo para melhor diluir as fronteiras.
Hobjwana, Neto, Makazaku e João Timane entre o óleo e a tela traçam caminhos fragmentados, imagens fantásticas, questionastes a encherem-se de pássaros, gritos, flores, ferramentas indecifráveis, arquitectam um bairro “sempre” em ascensão. Uma Torre de Babel?
O poeta SangareOkapi, (re)coloca o espólio do bairro numa dimensão satírica e contraditória:
Nu e vazio regresso pelo túnel da memória (alguma rede ou algum anzol do chão cavado)! Que recordações para o futuro!... (...) (inMesmos barcos ou poemas de revisitação do corpo, 2007, p.15).

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