Alfredo Margarido, Um intelectual comprometido com África

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Sob o subtítulo “Um Pensador Livre e Crítico” está patente na Biblioteca Nacional de Portugal, Lisboa, uma exposição evocativa de Alfredo Margarido, ensaísta, poeta, ficcionista, tradutor, artista plástico e sociólogo, que faleceu, com82 anos, a 12 de Outubro de 2010, em Lisboa. Trata-se de uma exposição comissariada por Isabel Castro Henriques, com coordenação de Fátima Lopes e Manuela Rêgo, constituindo um documento importante que apresenta ao público em geral e aos estudiosos sobre a lusofonia e as literaturas africanas de expressão portuguesa em especial o contributo crítico de um intelectual empenhado e de qualidade, como foi Alfredo Margarido.

Alfredo Margarido, Um intelectual comprometido com África

Esta exposição em Lisboa descobre entretanto outra das suas ocupações e paixões: a pintura, no seu caso totalmente dominada pelos símbolos africanos, não só na cor mas especialmente no aspeto formal, o que faz dele incontestavelmente um artista africano em todo o esplendor do conceito.

Era natural de Moimenta, Vinhais (Portugal), e foi um dos maiores estudiosos e divulgadores das literaturas africanas de expressão portuguesa, passe a ‘expressão’, de que não gostava, alertando para o lastro neo-colonialista patente na nomeação: «Não se trata de escrever em língua portuguesa, mas de se manter fiel à expressão portuguesa, o que seria contraditório com a substância nacional da escrita».

Para além do que fez, cuja importância é de realçar, como se pode deduzir a seguir, o mais importante foi a sua posição anti-colonial em locais como eram São Tomé e Príncipe e Angola e numa altura – década de 50 do século passado – em que era completamente tabu pôr em questão a presença portuguesa nas colónias, posição que prosseguiu até ao fim da sua vida, pois ainda há bem pouco tempo punha em causa o próprio termo ‘descolonização’, afirmando que tal termo «quer simplesmente dizer que foram os portugueses, os colonizadores, que libertaram os dominados, descolonizando-os [...] Vistas assim as coisas, os portugueses aparecem como os únicos atores do processo político: colonizadores graças às malhas que o Império tece, mas também descolonizadores, quando se trata de destecer as mesmas malhas».

Efetivamente, como diz Anselmo Peres Alós, «O estudo da luta pela independência, pelo viés dos textos literários, nas nações africanas de língua portuguesa, envolve profundas questões teóricas. Entre elas, o problema da diferenciação entre conceitos como colonização e colonialismo, e outras categorias de análise destas derivadas. Costuma-se trazer a lume, por exemplo, os problemas do processo de descolonização cultural, o que ressalta as cicatrizes provocadas pelos grilhões do colonialismo nas nações africanas. A perspetiva da descolonização, de acordo com Alfredo Margarido, aponta justamente para tal ponto: tanto africanos quanto portugueses não conseguiram ainda se desenvencilhar da “ganga colonialista”: “a ‘descolonização’ quer simplesmente dizer que foram os portugueses, os colonizadores, que libertaram os dominados,  descolonizando-os. »Vistas assim as coisas, os portugueses aparecem como os únicos atores do processo político: colonizadores graças às malhas que o Império tece,  mas também descolonizadores, quando se trata de destecer as mesmas malhas, asseverava.

Alfredo Margarido foi, antes de mais, um cidadão coerente e um intelectual comprometido, arrostando firmemente com muitas incompreensões e pressões. A sua defesa do artista surrealista Cruzeiro Seixas, quando este montou uma célebre exposição nas ruínas de um palacete do séc. XVII, na zona dos Coqueiros, em Luanda, que causou grande escândalo, nos idos de 1954, valeu-lhe a expulsão da colónia, mas nada o demoveu dos seus propósitos.

Segundo diz Perfecto Cuadrado, intelectual galego especialista em surrealismo português, «Na história do Surrealismo português, Alfredo Margarido teve direta participação num dos seus episódios mais interessantes e menos conhecidos, o da experiência surrealista em Angola, e sobre esse particular deixou-nos palavras de recordação, de história e de crítica no seu artigo “Surrealismo in colonia” (Quaderni Portoghesi 3, 1978) onde, falando concretamente de “l’intervento dei surrealisti e del surrealismo nella Luanda e nell’Angola degli anni1 954-
1958 […] il cui fulcro fu la mostra de Artur do Cruzeiro Seixas nel gennaio 1957”, informa: “Il gruppo era formato da Artur Manuel do Cruzeiro Seixas, José Manuel Soares Guedes, Manuel António da Silva Júnior, Maria Manuela Margarido, dal sottoscritto [Alfredo Margarido] e de Acácio Barradas.»

Ao mesmo tempo, conforme salienta o Prof. Pires Laranjeira, «Alfredo Margarido é autor de uma crítica cáustica à negritude, publicada em livro pela Casa dos Estudantes do Império, CEI, em 1964. Pouco propenso a aceitar, durante décadas, uma negritude africana de língua portuguesa com importância decisiva na fase de transição dessas literaturas para a temática da luta de libertação nacional, Alfredo Margarido não terá sentido qualquer necessidade de conhecer L'Etudiant Noir. Todavia, como militante da CEI, alinhando pelo sector dos africanos revolucionários, independentistas, a que correspondeu uma atividade teórica sobre a literatura com base nos princípios do materialismo dialético, Margarido pôde furtar-se aos muitos equívocos da discussão sobre a raça, porque tinha uma visão da literatura como atividade decorrente do processo de produção material e das relações sociais.»

A obra

Considerado como um dos grandes intelectuais portugueses da segunda metade do século XX, estudou na Escola Superior de Belas-Artes do Porto e chegou a expor os seus trabalhos em Portugal antes de ir viver para África, no início dos anos 50, tendo trabalhado primeiro na produção agrícola em São Tomé e Príncipe, transferindo-se a seguir para Angola, onde foi responsável pelo Fundo das Casas Económicas, corporação que pretendia resolver o problema de habitação da classe média ascendente. Todavia, nos finais de 1957, em consequência de artigos que publicava no Diário Popular, de Lisboa, denunciando situações de discriminação racial, a que acrescentou a defesa de Cruzeiro Seixas, Margarido recebeu do Governador-geral de Angola, Horácio José Viana Rebelo, uma ordem de expulsão do território, deixando, à pressa, o seu espólio literário nas mãos do jornalista Acácio Barradas, falecido emNovembrode2008. Entre as várias publicações em que colaborou saliente-se Boletim de Cabo Verde e Boletim da Guiné, este último uma curiosa iniciativa do almirante Sarmento Rodrigues quando ali esteve como Governador.

Vem a propósito lembrar que Margarido, como informou Leonel Cosme, nos últimos anos da sua estada em Angola, seguiu de perto o movimento das pulsações culturais que na altura fervilhavam, tendo sido um frequentador de nichos culturais como era a Sociedade Cultural de Angola, coma sua revista “CULTURA”, de certo modo a antepassada desta, e de uma "tertúlia" que funcionava, no musseque, numa casa decorada "anarco-surrealisticamente" – no dizer do jornalista Acácio Barradas -, para cujo aluguer contribuíra o empresário, de certo modo um mecenas das artes, Manoel Vinhas, dono da Cuca. Do grupo dinamizador faziam parte Alfredo Margarido, além de Cruzeiro Seixas, ambos anunciadores, numa Angola esteticamente expectante, do surrealismo na literatura e na pintura (que Margarido continua a praticar discretamente, à margem do seu discurso científico, casando a palavra com a imagem).

A partir de 1964 instala-se em Paris, onde se formou em Ciências Sociais e foi investigador da École des Hautes Études, ao mesmo tempo que lançava, com um grupo de exilados portugueses, a revista Cadernos de Circunstância.

Além dos problemas africanos, dedicou-se especialmente à sociologia da literatura, tendo-se igualmente salientado como poeta, cuja obra apresenta elementos surrealizantes, bem como ficcionista, qualidade em que foi um dos introdutores do nouveau roman francês em Portugal.

Mas foi como ensaísta e crítico literário que desenvolveu uma atividade mais continuada, tendo deixado disperso por várias publicações um extenso conjunto de estudos, designadamente sobre Fernando Pessoa, um dos autores que mais o interessaram. A cultura portuguesa deve-lhe ainda traduções de obras de Nietzsche, Joyce, Faulkner, Steinbeck e Kafka, entre muitos outros, incluindo Melville, de quem traduziu o gigantesco Moby Dick.
Segundo Manuel Jorge, talvez seja Alfredo Margarido, que nos permita re-situar a problemática cultural angolana, na sua historicidade, quando diz que: «... a Angolanidade é a substância nacional angolana». Porque, como realçou Agostinho Neto, «a Angolanidade não se constrói pela rejeição do substrato negro-africano, nem pela diluição numa cultura dominante e, ainda menos, pela aceitação da “pseudo-condição de mestiço cultural”, para retomar uma expressão de Mário Pinto de Andrade.

É que, a noção de Angolanidade foi obscurecida como tempo e, parece, por vezes, imprecisa na sua formulação ou inexata no seu conteúdo, porque é uma noção evolutiva. Aqueles que procuraram esclarecê-la, não tiveram em conta os fatores da sua evolução.»

A Lusofonia segundo Alfredo Margarido

Para Alfredo Margarido, «…a lusofonia é apenas o resultado da expansão portuguesa e da língua que esta operação teria espalhado generosamente pelo mundo fora. Ou seja, seria menos o resultado de um projeto, do que a consequência inesperada de uma maneira particular de circular pelo mundo. Nesse aspeto, a portugalidade opõe-se certamente à lusofonia: a primeira é o resultado de uma oposição constante aos espanhóis (…) ao passo que a lusofonia seria a consequência quase passiva da expansão e da banalização da língua.»

No seu livro A Lusofonia e os Lusófonos: Novos Mitos Portugueses, Edições Universitárias Lusófonas, Lisboa, 2000, Alfredo Margarido salienta que «A criação da lusofonia, quer se trate da língua, quer do espaço, não pode separar-se de uma certa carga messiânica, que procura assegurar aos portugueses inquietos um futuro senão promissor, em todo o caso razões e desrazões para defender a lusofonia. A independência das nações africanas obrigou os teóricos da colonização portuguesa a modificar de maneira substancial o seu vocabulário. Tal como se verificara já no caso francês, que já nos anos 1962 começou a banalizar a noção de “francofonia"...o sentido atual...visa manter o espírito colonial, salientando a importância do cimento linguístico. Respeitando um velho movimento de submissão cultural, não puderam os portugueses furtar-se ao modelo tradicional, tendo criado, após1974, a lusofonia.»

Pelo que «Hoje, uma fração substancial dos teóricos da “portugalidade”, fazem da língua o agente mais eficaz da unidade dos homens e dos territórios que foram marcados pela presença portuguesa. Não tendo havido uma grande reflexão anticolonialista antes das independências, registou-se a necessidade urgente de organizar uma ideologia explicativa: os portugueses foram obrigados a renunciar à dominação política e económica, mas procuraram assegurar o controlo da língua. (…) se a língua não for capaz de assegurar a perenidade da dominação colonial, os portugueses ficarão mais pequenos. A exacerbação da “lusofonia” assente nesse estrume teórico…”

E a concluir, é perentório: «O meu intuito era muito simples: quis mostrar como nos recusamos, quer como coletividade, quer como indivíduos, a analisar de maneira sistemática as técnicas utilizadas para tratarmos os Outros. O discurso “lusófono” atual limita-se a procurar dissimular, mas não a eliminar, os traços brutais do passado. O que se procura de facto é recuperar pelo menos uma fração da antiga hegemonia portuguesa, de maneira a manter o domínio colonial, embora tendo renunciado à veemência ou à violência de qualquer discurso colonial».

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