Angèle Amoussou e Imane Ayissi: Tradição africana e modernidade entretecem a alta costura

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Paris é uma cidade capital exógena da África e um dos pontos mais altos da moda internacional.

Fotografia: Angèle Amoussou e Imane Ayissi

A capital francesa chama os talentos da África francofona atraídos pela energia criativa e a forte cultura de moda dos seus habitantes. AngyBell, com uma longa experiência, passa o testemunho a Imane Ayissi.

Angèle Amoussou é a fundadora da alfaiataria e pronto a vestir AngyBell, situada na Côte d'Ivoire. Esta grande senhora da moda recebeu inúmeras distinções dentre as quais um prémio outorgado pela UNESCO para recompensar o seu trabalho com base na ráfia e as Tesouras de Diamante.

Ela foi elevada ao círculo de Cavaleiro da Ordem do Mérito Cultural. É igualmente embaixadora da Cultura Africana em Massachusetts. Naomi Campbell e Miriam Makeba vestiram as suas criações. Por ocasião do Ethical Fashion Show, o salão que se abre para dar a conhecer a moda ética que integra as dimensões económica, humana e ambiental, tivemos um belo reencontro que aqui relatamos.

Como caracteriza o desenvolvimento atual da moda africana?

Há a real evolução técnica, com os estilos mais modernos. Os jovens apanharam o comboio em marcha e querem fazer melhor. Mas, mesmo produzindo moda com um M grande, é necessário redobrar esforços e vencer o desafio da distribuição.

É necessário alcançar a meta da distribuição, é muito importante para os produtos dos países emergentes. Nós não estamos muito longe das casas de moda ocidentais. Eu aconselho as linhas puras, simples e modernas de forma a que esta moda seja consumida.

Os desenhistas jovens são muito criativos mas eles ainda não dominam plenamente a distribuição, eu passei por isso. Eu fiz vestidos sofisticados que ninguém poderia usar. Eu era aplaudida maciçamente no fim de cada desfile. Mas é necessário vender, pensar no negócio e fazer produtos vendíveis.

As parcerias com os artesãos e produtores locais são indispensáveis?

É difícil fabricar produtos em grande série sem parcerias se se pretende obter as quantidades exigidas e respeitar os prazos. As parcerias são necessárias e indispensáveis. Como é do seu conhecimento, os artesãos e os produtores locais preservam as técnicas tradicionais e o ambiente.

Os nossos pais sempre tiveram consciência disso, por isso cresceram num ambiente são. Nós também devemos proteger o ambiente.

O que é que a África e os seus criadores podem oferecer à mode ?

O nosso continente já fez as suas cores da moda: índigo, ferrugem, terra. Trazemos a nossa cultura. Os europeus estão conscientes de que não têm mais nada na terra deles, por isso é que buscam a inspiração nos outros povos.

Esta é a era das mestiçagens. Nós trazemos novos produtos, novos projetos. Temos de acreditar em nós mesmos para que as pessoas acreditam em nós, temos os meios para isso. Temos muito para dar. O salão do Ethical Fashion Show é uma excelente plataforma para nos ajuda a ir mais longe. E o que é que a moda pode oferecer à África?

A moda é uma indústria que pode fornecer divisas, muitas divisas. Precisamos de nos organizar, temos que ser mais agressivos comercialmente, acreditar no nosso potencial, estar abertos ao mundo e às influências externas. A África tem uma abundante oferta de trabalho, disponível, no desemprego. A moda pode criar empregos. Quando temos dinheiro, temos paz. A moda pode contribuir para uma melhor distribuição da riqueza, mantendo a equidade.

Sra. Angybell, você teve uma longa carreira, o que é que a moda lhe ofereceu?

A moda foi para mim a escola da humildade. Quando você cria, você pensa que inventou o fio de cortar manteiga. No entanto, não se trata de criar ilusões, de fazer tudo o que seb sonhou ou o que nos passa pela cabeça. Humildade na criação permite pesquisar, questionar, para trazer novidades e não para reaquecer somente o que já estava congelado.

Imane Ayissi, alta costura

(primavera/verão 2013) «New York Bambara»

Vinte passagens e muitos arrebatamentos. A arquitetura art déco do início do século 20 casa com as máscaras-gazelas Ci Wara da escultura tradicional do povo Bambara. Este é o fio condutor desta coleção que dispara mais rápida do que a luz, desde o Mali até aos pés do Chrysler Building.

À velocidade e outras exigências dum mundo urbano contemporâneo justapõe-se a nostalgia dum mundo antigo, rural, rico em lendas e mistérios. A escrita estilizada de Imane Ayissi procura fazer coabitar os afluentes do rio Níger numa cidade devotada ao futuro.

Assim nesta temporada, a seda ondula de uma calça aos panos de um vestido e parece estar a correr ao longo de silhuetas como uma fita de água. Oriunda do sul da China, esta seda laqueada, completamente artesanal, foi coberta com uma pasta à base de tubérculos, depois deitada sobre a terra, seca ao sol e lavada 30 vezes ns águas dum rio.

Estas múltiplas linhagens geográficas podem ser encontrados na utilização de elementos bimatéria. Tonalidades betuminosas da cidade grande respondem aos acastanhados tons das paisagens africanas. Quanto ao preto, quer-se magistral, uma evidência às margens de tintas surdas, tijolo, berinjela, cinza e outros: antracite, rato, pérola, a transcender a frieza métalica dos grandes edifícios.

Muitos bainhas, decotes lisonjeiros, paletós ajustados ao corpo para um olhar cada vez mais vertical. O espírito evade-se das notas do New York state of mind (Jay-Z/Alicia Keys) para se concentrar exclusivamente no escrutínio da passagem n º 11, um vestido longo antracite cuja presença tão leve parece levitar, encantando os ares. Imane Ayissi observa a mulher com um olhar arquitetónico e a metamorfose em gazela das cidades.

Aliás, ela sempre mantém debaixo das sandálias alguns grãos de areia da suas terras de origem. Caisa nunca vista, nem mesmo nos longos passeios cansados de Park Avenue South.

(Tradução livre de José Luís Mendonça)

«Esta é a era das mestiçagens. Nós trazemos novos produtos, novos projetos. Temos de acreditar em nós mesmos para que as pessoas acreditam em nós, temos os meios para isso.»

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