“Angolanos contribuíram enormemente para o DNA brasileiro”

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Embaixador Norton Rapesta

Angolanos contribuíram enormemente para o DNA brasileiro
Norton Rapesta Fotografia: Jornal Cultura

“Para entender a CPLP e a cooperação cultural com Angola, é preciso lembrar que o Brasil e Angola têm uma história comum: o mesmo colonizador e o facto de que milhões de africanos, dos quais muitos angolanos, foram levados para o Brasil durante séculos, e apesar e terem sido levados de maneira forçada, contribuíram enormemente para a cultura brasileira e para o DNA brasileiro, a culinária, a língua, palavras como banguela, quitanda, cambada, são todas palavras daqui”, afirmou o embaixador Norton de Andrade Melo Rapesta em entrevista ao jornal Cultura.
Na verdade, a relação Angola-Brasil possui duas dimensões: uma, internacional, que tem e ver com a língua portuguesa, a CPLP e outra, mais dual, que tem a ver com o património bantu levado para o Brasil com as populações que viviam no território que hoje integra o mapa de Angola.
Daí que o embaixador brasileiro veja o intercâmbio cultural entre Angola e o Brasil como “um reflexo, um resultado natural dessa história comum”. O facto de o Brasil ter sido o primeiro país a reconhecer a independência de Angola é o resultado de “uma obrigação”, disse Norton Rapesta. “Brasileiros foram também mandados para cá, também foram forçados: os Inconfidentes (da Inconfidência Mineira de 1792), condenados ao degredo em Angola e que foram morar em Benguela. E já havia comércio de produtos. Nada mais natural do que a iniciativa do Brasil de propor a criação da CPLP, não só por causa de Angola, mas porque, assim como a Inglaterra tem a Commonwealth, com as ex-colónias, a CPLP foi uma organização não comandada pela ex-metrópole, mas uma coisa horizontal, onde todos os países têm o mesmo peso... e onde se insiste na intenção de aproximar, de conhecer mais as nossas culturas”.

INTERCÃMBIO HUMANO
Verifica-se, por via desse entrosamento histórico secular, um intercâmbio real, promovido por instituições privadas e por cidadãos. Os angolanos consomem muita música brasileira, o samba, por exemplo. E as novelas brasileiras, que até induzem os angolanos a falar à moda do Rio de Janeiro ou de São Paulo. Um intercâmbio vivo e não oficial, que ganhou raízes de irmandade.
“Ainda bem”, considerou o embaixador brasileiro. “Eu acho que a cooperação, o intercâmbio deve ser entre povos, não entre governos somente. Os governos criam as facilidades, criam muitas vezes as condições, mas cabe aos povos que têm interesses, se aproximarem. Temos música brasileira aqui e também temos música angolana no Brasil. Temos até influência da música angolana na música brasileira. Lembramos o Kalunga, quando Chico Buarque, há 35 anos, compôs uma música aqui, Morena de Angola.”
Sobre o Kalunga III, quisemos saber do embaixador se iria demorar como o interregno que se verificou entre o primeiro e o segundo, ao que Norton Rapesta sorriu de caxexe: “A ideia é justamente que não esperemos mais 35 anos para ter o Kalunga III. Tudo leva a crer que será já no ano que vem, porque os artistas que vieram agora pela primeira vez a Angola querem voltar em breve e é uma forma de passar o bastão para as novas gerações que querem desenvolver reciprocamente a música dos dois países.

COOPERAÇÃO CULTURAL
No domínio da cooperação técnica, Angola e o Brasil firmaram dois projectos: um dirigido ao fortalecimento da Gestão do Património Cultural de Angola e outro, que visa o fortalecimento da Preservação da Memória e da Produção de Audiovisuais de Angola. Será que a crise global está a impedir a concretização plena dos acordos?
O embaixador disse que “há vários projectos em falta e que ainda não decolaram. Por vezes, é a burocracia dos dois lados, surgem outras prioridades, mas eu acho que esses são dois projectos muito importantes. Não é apenas uma questão de crise. Sei que já temos contribuído para o projecto ligado à museologia. Do audiovisual ainda não vi nada nos cinco meses que estou aqui.

40 ANOS DE INDEPENDÊNCIA
O Embaixador Norton de Andrade Melo Rapesta não partiu sem deixar uma mensagem, em nome do povo brasileiro, ao povo angolano. Uma mensagem de agradecimento, porque, disse, muito do que o Brasil é hoje é devido à contribuição de Angola, do povo angolano durante séculos. “Como disse antes, a cultura brasileira é muito influenciada, o brasileiro aqui se sente em casa. Luanda podia ser uma cidade localizada entre o Rio de Janeiro e Salvador. A minha mensagem é de confiança, de esperança. Angola vai conseguir continuar a construir este belo país que já o é por natureza e de Natureza, com uma sociedade melhor, uma sociedade de maior inclusão social, com mais desenvolvimento, é um trabalho árduo, com muito esforço, muitos sacrifícios e muitos bons resultados. A nossa palavra é de esperança e de agradecimento por tudo o que nos trouxe, as empresas brasileiras estão aqui há trinta anos, contribuindo, trabalhando, formando mão-de-obra, formando angolanos, para que cada vez mais Angola ande pelos seus próprios pés.”

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