"Antropologia Receativa", ou a Decomposição do Homo Sapiens

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“Antropologia Recreativa”, do cubano Amilkar Feria Flores, é um edifício térreo, muito colado à terra e à humanidade. Permite-nos observar o mundo e reler o cosmos que trazemos gravado em cada átomo do sangue. Dentro de portas, dá para ressentir a decomposição do homo sapiens.

Antropologia Receativa
Fotografia: Arquivo

“A vida pede ao meu corpo algo que ele não sabe fazer. Com um pouco de paciência, depois de pensá-lo várias vezes num atordoado labirinto de probabilidades, a cabeça encontra uma fissura por onde se enfiar, e sabe-se que, por onde passa a cabeça, o corpo passa.”
Este é o primeiro poema do livro, a chamada proposição, ou invocação de uma obra poética. a mim, este poema introdutório de Antropologia Recreativa, do cubano Amilkar Feria Flores, sugere-me o nascimento do homem, aparição, prelúdio, a primeira sensação (im)pura da relação sexual. é daí que surge o homem, o sujeito e o objecto de que trata este livro.
Em PALAVRA DE HOMEM, o primeiro caderno do livro, lemos: “Reconheço: sou tão humano como o cão que me guarda bruta lealdade, como a água que me sobe à cabeça (no lugar da fumaça) enquanto a lua escorre das minhas ideias, como o olhar firme que me devolve a mulher de cada manhã, como a terra que cede levemente à minha pegada, como a tripa inteligente que não me reconhece mais humano que o ar que respiro.
Eis-nos confrontados com a auto-consciência do autor (que o mesmo é dizer, de nós próprios), ou o auto-conhecimento imprescindível para agirmos neste mundo. Nestes versos, vemos o homem ciente da sua ontologia globalizante, o homem total na sua relação com o universo: cão, água, luz, olhar, terra, tripa inteligente “que me reconhece mais humano que o ar que respiro”.
Em “Estou experimentando a evolução em carne própria”, o poema nos diz que “as minhas melhores ideias estão acantonadas nas pernas.” Este verso é o complemento dos estudos arqueológicos e antropológicos mais recentes, que vieram provar que a evolução não partiu apenas da mão que passou a fabricar objectos, mas começou pela modificação dos pés, ou das pernas, que permitiram ao homem circular no solo e aumentar o cérebro.
Estamos perante um livro que brinca às antropologias.
Embarquemos no poema
“(Mareagem / à beira do naufrágio)
Um argonauta, é isso que eu sou, perdido no desvario que a tua vida lisa me propôs. (...)”
Deixemo-nos vaguear com este argonauta pelo cosmos da palavra. vêm-nos à mente reminiscências das “Iluminações”, até mesmo de “Uma Estação no Inferno”, de Rimbaud, sentimos o aroma de “O Estado dos Campos”, de Nuno Júdice, e a loucura imanente à nossa época que nos soa como o “Uivo”, de Alain Ginsberg.
Se eu fosse um sujeito versado em estudos literários, teria uma excessiva bagagem verbal para dissecar este cadáver que respira, esta Antropologia Recreativa, de Amilkar. E fá-lo ia, é claro, com as próprias citações dos grandes mestres dessa disciplina.
Sou um mero poeta. Sou, essencialmente, um inveterado canibal do poema. e também jornalista. o que vos ofereço é a minha ultra-sensibilidade poética e a minha argúcia fenoménica de jornalista, comprometidos com a demolição deste edifício verbal.
Antropologia Recreativa é um edifício térreo, muito colado à terra e à humanidade. o terraço deste edifício é amplo. Dá para observar o mundo e reler o cosmos que trazemos gravado em cada átomo do sangue. Dentro de portas, dá para ressentir a decomposição do homo sapiens.
VIII. 1) Penso que existe algo mais em jogo, além das batatas. A fila não deve desfazer-se, sob nenhum conceito. Há modalidades disciplinares que devem ser respeitadas até às últimas consequências: alguém poderia usurpar a minha posição.”
Que posição é essa? Aquela que nos cabe no interminável jogo económico da luta de classes?
“2) O réptil perdeu temporariamente a sua cauda. Agora pensa noutra cauda, a fila. Perder a fila dói a metade da vida, mas salva as caudas da outra metade.
XV. Os meus amigos deitam bafo quando balbuciam qualquer confidência e um hálito de enxofre etílico quando dividimos tragos. (...) Meus amigos, de oscilante catadura moral, sustêm a respiração quando me aproximo deles, bêbado e confesso.
(...) Duma vez, volto a ser todos os homens humanamente possíveis. Sessenta minutos andando a Leste da profecia, sem dar um passo sequer. Crucial, deixo atrás o umbral da palavra.”
Depois do poema iniciático, e do poema sobre a descoberta de si mesmo, Amilkar repousa aos pés do poeta, ele e o outro que o escreve. e volta a ser, como já vimos anteriormente, “todos os homens humanamente possíveis”. Mas, atónito, descobre que não deu sequer um passo. É então que “crucial”, Amilkar deixa para trás “o umbral da palavra” e passamos então ao segundo caderno.

A BREVE ARTE DA HISTÓRIA

“I. Como é que a guerra terminou, quando é o homem mesmo a essência da guerra? Retorna a tua casa, pedaço de idiota, até que novamente sejas alistado! (...)
III. Estamos mesmo à beira do prato. (...)”
Muito longe do teatro de operações, ninguém sabe que o desfiladeiro deve ser superado com um salto no vazio.”
Eis aqui o verdadeiro teor da arte contemporânea. À beira do prato é à beira desfiladeiro, em linguagem corrente seria à beira do precipício. E o artista supera-se a si mesmo com “um salto no vazio”.
Nos BEIJOS QUEBRADOS, do último caderno, lemos:
“Se a sedução vem duma árvore, aceita-a sem dúvidas.
Se for humana, pensa-o duas vezes. É mais prático pecar originalmente.”
Dissemos atrás que Amilkar constrói um edifício térreo. E, quando, do terraço, avista uma árvore, o pecado de comer-lhe uma maçã não o inquieta. Absolutamente. só quando o homem desceu da árvore e povoou a terra é que se assemelhou a deus, conhecedor do bem e do mal e da própria nudez. e descobriu os encantos da nudez. A árvore é o símbolo da sedução feminina. Devemos aceitá-la sem sombra de dúvida. porquê? Não é ela uma coisa natural? Não foi Deus que criou a árvore e a colocou no meio do paraíso?
“V. Ela não existe. Eu incinerei-a ontem à noite em litúrgico arrebatamento. O cinzeiro não era suficiente para uma cremação digna, porque as pernas saiam da borda. Então esquartejei o corpo em pedaços irreconhecíveis. (...) Depois o corpo coube perfeitamente no cinzeiro, enquanto o fantasma fumegante do papel fotográfico teimava em evocar as suas curvas.”
Esta poesia continua a cegar-nos com o seu jogo de imagens materiais e texturas reflexivas abstractas que canalizam o leitor para um estado mental situado a céu aberto, em plena planície da alma, onde só passam repercussões multicolores da nossa própria existência, do nosso quotidiano, reproduzidos magistralmente pelo olhar quimérico do poeta. ou do artista plástico da palavra.
Os verdadeiros poetas são grandes filósofos.
Amilkar Feria Flores escreveu-nos um tratado sobre a ciência do homem. É antropologia poética, o que não lhe retira o mérito científico. Não foi Herberto Helder que chamou a uma das suas obras de poesia “Última Ciência”?

Luanda, 6 de Dezembro de 2016

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