Arlete Bombi actriz Moçambicana moldada no calor da representação

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Quando tinha 5 anos de idade ela conheceu o perigo da guerra de perto e sobreviveu, pois o destino tinha outros planos para si. Arlete Bombi hoje é actriz, nos palcos despe sua personalidade e vive outras vidas.

Arlete Bombi actriz Moçambicana moldada no calor da representação
Arlete

O destino fez
sobreviver a actriz

É final do dia na localidade de Mapata, distrito de Chokwe, província de Gaza. No calor da guerra civil moçambicana, a brutalidade, violência são uma das marcas dos guerrilheiros que procuram mantimentos. Quando o sol se põe, as famílias refugiam-se em locais improvisados para escapar da fúria desses soldados insensíveis.
No rosto dos avós de Arlete reina o medo de perder sua neta que saiu de Maputo para passar as férias em Gaza. Ela foi esquecida na casa de alvenaria. Os soldados estão a fazer a ronda e para agravar a situação, as janelas da casa estão abertas. Da rede feita com arames de metal que cobre as janelas, dá para enxergar o interior da casa.
Depois de horas de tensão, os guerrilheiros partiram. Os avós tinham uma convicção: Arlete não sobreviveu. Contrariando todas as certezas, Arlete Bombi aparece. “Quando percebi que estava sozinha, escondi-me em baixo da cama e fiquei quieta, como meus avós já haviam ensinado. O tempo passou, eu ali. Depois de horas, eles apareceram, eu lhes abracei e confessei que havia feito xixi. Eles relevaram e abraçaram-me novamente”, relata com as mãos trémulas.
Hoje, Arlete sabe que Deus poupou a sua vida, pois estava destinada a algo maior: o TEATRO.

O teatro me mudou
Espontânea e bem-disposta, Arlete Bombi fala da arte que faz com firmeza. Ela conhece os palcos e todas suas particularidades. Este espaço é seu e já não lhe mete medo. Mas, as artes cénicas não são o sonho de infância de Arlete, ela queria ser bailarina e por falta de “talento” e apoio da mãe acabou desistindo.
“Entrei neste mundo por acidente, em 2001. Um amigo convidou-me para assistir a performance de seu grupo (Luarte) no bar e discoteca Kaya Kwezo (nossa casa em Português). Gostei da actuação deles, achei aquilo maravilhoso. Depois da apresentação, perguntei ao meu amigo se podia fazer parte do grupo e ele respondeu positivamente”, narra Arlete com os olhos a brilharem como se vivesse aquele dia.
A aventura do teatro não seria fácil. Arlete tinha de fazer escolhas, abdicar de algumas coisas para dedicar-se a esta arte. “Ensaiávamos de noite na Mozart e isso coincidia com meu horário da escola. Em alguns dias tinha de faltar as aulas para ensaiar”.
Na primeira apresentação Bombi foi possuída pelo nervosismo, mas ela conta que ao longo da performance conseguiu dominar este sentimento. O nervosismo é um animal que não morre, “até hoje ainda sinto, mas já sei domar”, narra.
O teatro mudou a forma de pensar, vestir e comportar de Arlete. “O teatro revolucionou a minha vida, mas as mudanças não foram por influência alheia e sim por liberdade própria”, expressa.
Essas transformações mexeram não só com ela, mas com a família, principalmente com a mãe. Ela não percebia o que estava a acontecer com a filha. No I Festival de Inverno, em 2004, o grupo Luarte apresentou a peça “Loucura”, Bombi ganhou coragem e fez algo:
“Convidei minha mãe. Ela não concordava, “com aquilo de teatro”, mas veio para ver o que transformava a filha. Quando ela terminou de ver a peça descobriu duas coisas: Para onde iam as suas capulanas e que o teatro era a minha vida. Ela gostou, incentivou-me e nunca mais questionou, nem a maneira de vestir nem nada”, recorda esboçando um sorriso espontâneo.

Desafios
Arlete encara cada peça que participa como uma batalha a vencer. Mas em uma, esteve a beira da derrota e quase içava a bandeira branca, se rendia.
“Estratos de Uma Loucura Emergente”, encenada por Félix Mambucho, foi a peça que mais deu-lhe trabalho. Nela, pela primeira vez, Bombi é a actriz principal e interpreta o papel de uma mulher casada vivendo uma relação monótona e conturbada. Sua vida transforma-se quando nas manifestações de 1 e 2 de Setembro de 2010 perde o seu filho. Obcecada, coloca como condição para sua separação que o marido encontre o assassino do filho.
“Foi complicado interpretar o papel. O encenador quando concebe a ideia já tem em mente uma imagem da peça e eu não superava suas expectativas. Ele exigia muito de mim, eu não aguentava a pressão e até chorava. Era o pilar da trama equalquer erro meu mancharia a peça”, relembra Arlete com o rosto amarado.
O personagem que Bombi tinha de encarnar era complicado e tirava seu sono. Perante a situação, ela pediu ajuda a actores mas experientes e buscou dentro de si essa mulher temperamental e emotiva. “Descobri o personagem dentro de mim, comecei a vive-la. Depois de vencer o desafio aprendi novas formas de encarar um personagem”.
Para interpretar o papel do seu marido, passaram quatro actores: Nelson Faquir; Horácio Quiamba, Félix Tinga, e o Yuck Miranda, o definitivo. Miranda viveu o papel e assistiu de perto as provações pelas quais Bombi passou.

Teatro de intervenção social
Arlete iniciou a sua carreira no Luarte, grupo teatral do qual até hoje faz parte. A intervenção social é uma das características do Luarte. O grupo aborda de forma crítica os problemas da actualidade, com um enfoque nos jovens. “O meu grupo é frontal, intervém socialmente. E eu compartilho destas ideias, quero mostrar os problemas da sociedade através do teatro”.

“Niketche” lançou-me
No ano de 2013, o grupo Luarte estreia a peça “Niketche – Uma História de Poligamia”. A trama é inspirada na obra homónima de Paulina Chiziane.
Na peça, Arlete Bombi é a protagonista, encarna Rami, uma mulher casada, honesta e dedicada à família que vê sua vida a desmoronar quando descobre as amantes de seu marido. Enfurecida, procura por elas e acaba reunindo-as para combater o marido.
Para interpretar o papel buscou a calma de Paulina Chiziane e da actriz Ana Magaia. Bombi confessa: “esta peça lançou-me e me deu maior visibilidade”.

“Não há pequenos papéis”
Além da Luarte, ela trabalha com outros grupos teatrais. “Já colaborei com o Grupo Teatro do Oprimido, de Alvim Cossa, em peças de intervenção social. No grupo teatral Mbeu participei na peça para crianças, “O coelho Preguiçoso”. Com este grupo, em 2014, interpretei no dia dos trabalhadores, 1 de Maio, uma peça sobre segurança no trabalho” esclarece.
Em 2008, a Luarte participou na peça Confissões de adolescente, uma co-produção com o grupo teatral Mutumbela Gogo e Mugas. A peça conjunta retracta os problemas pelos quais os adolescentes passam: droga, a gravidez precoce, álcool, entre outros.
“Em Inimigo do Povo, Arlete actuou com actores renomados como Graça Silva, Branquinho e Jorge Vaz. Na peça ela encarnou Petra, uma adolescente mimada, filha do protagonista, Dr. Simbine. Na trama, Dr. Simbine descobre que as águas da cidade estavam contaminadas, as autoridades sabiam e estavam alheias a isso.
Foi papel secundário, mas para a actriz “não existem pequenos papeis. A nossa actuação, nem que seja por segundos, têm de ser marcante”, expressa com emoção.

A menina de Ninguém
No primeiro semestre do ano 2014, a companhia de teatro Mutumbela Gogo levou para o palco um clássico, a peça Meninos de Ninguém, depois de quase duas décadas. Arlete Bombi foi desafiada a encarnar Ritinha, uma albina que vive entre os meninos tendo de sofrer agressões mentais e físicas, inclusive sexuais.
“A peça era antiga e marcou uma época. Existia grande espectativa por parte do público. Eu faria o papel em reposição a grande actriz, Lucrécia Paco”, relata Arlete gesticulando de forma firme.
Para vencer este desafio, Arlete teve apoio dos actores do elenco. Mas como ela conta, “o facto de não ter visto a peça antes ajudou-me a interpretar de forma característica”.
Além da sombra da Lucrécia, Bombi teve de vencer outros obstáculos. “Tinha de fazer uma pesquisa profunda para saber encarnar o papel. Investiguei as particularidades dos albinos: sua forma de falar, olhar e andar. Para agravar a situação o papel exigia que eu cantasse, coisa que eu não sei”.
Depois da estreia a actriz sentiu que a meta foi alcançada. “Quando entro no palco, depois da caracterização, transformo-me na Ritinha”. A actriz conta que o público procura saber quem é a Ritinha e isso a emociona.

Uma actriz versátil
Arlete tem a capacidade de participar em várias peças no mesmo período. Em 2013, Arlete participou em três peças simultaneamente: Niketche, Coelho preguiçoso e Inimigo do Povo. Arlete vivia praticamente no teatro, tinha apenas uma hora de intervalo no término do ensaio de cada peça. Nesta empreitada “suicida”, Arlete confessa que sentiu-se desgastada.
“Foi difícil, nem parava em casa. Tinha vários textos para guardar na cabeça. Cada peça tinha sua exigência: em Inimigo do Povo era uma adolescente orgulhosa, inteligente e arrogante; em Nickeche tinha de dar tudo de mim, pois era a personagem principal. Confesso que relaxava na peça Coelho Preguiçoso, pois era mais leve, uma peça para crianças”.
Empresto um pouco de mim as personagens
Depois desempenhar um papel, os actores têm dificuldades em livrar-se da personagem e acabam vivendo as mesmas por um período, uns por dias e alguns por meses e outros até por anos. Arlete explica que isso acontece porque ao representar “empresta-se um pouco de si. É difícil separar o seu eu ao do personagem”, explica.
Bombi narra que já deparou-se com esses casos. “Na peça Estratos de Uma Loucura Emergente, demorei um período para livrar-me daquela mulher sofrida. Até adoeci. Depois da actuação ficava um tempo em “coma”. Não há como ficar indiferente, pois quando estamos no palco a vida da personagem é a nossa vida. Ali é nosso mundo. O mesmo, mas de forma ligeira, aconteceu depois de representar Ritinha (Mininos de Ninguém). Depois do espectáculo ficava com aqueles tiques da menina”.
As personagens ajudam Arlete Bombi a encarrar a vida. “Aprendo com elas e ajudam-me a encarrar os factos da vida. Por exemplo, com a Rami (Niketche) aprendi a saber ouvir, ser compreensiva e a agir controlando os impulsos. Graças a Rami, não trato os assuntos de cabeça quente, tenho de ficar calma primeiro”.

O Cinema e as experiencias internacionais
Participou como figurante em alguns filmes, mas teve uma actuação significativa em dois filmes: Ivone Kane e Muro da vida.
No filme Ivone Kane, da realizadora Portuguesa Margarida Cardoso, Bombi interpreta o papel de mulher solteira mãe de três filhos. As gravações do filme, decorreram em Xai-xai no antigo hotel Chonguene. No filme, além das máquinas de filmar, Arlete teve de vencer um trauma.
“Já fui atropelada por uma moto e tinha jurado para mim mesma nunca andar deste meio de transporte, nem de boleia, mas o papel obrigava. No filme, tinha de percorrer 100 metros de moto numa estrada de areal com três crianças de 2, 4, e 6 anos de idade. Tive aulas de condução de moto e graças a minha determinação consegui andar. Confesso… depois chorei de emoção”, expressa sorrindo encabulada.
Ainda no cinema, Bombi participou de Muro da vida, uma produção independente, feita com fundos próprios. O filme participou num festival no Rio de Janeiro, Brasil, em 2014.
No âmbito do projecto “Madalenas Internacional”, inserido na iniciativa Teatro do Oprimido, Bombi fez duas viagens, para a Alemanha e Brasil. As viagens contaram com o apoio do FUNDAC (Fundo para o Desenvolvimento Artístico e Cultural de Moçambique).
Arlete participou em publicidades, nelas por vezes empresta e a sua voz e sua imagem. O teatro radiofónico é outra área em que Arlete já navegou.

Inspirações
“No exterior admiro actrizes como as brasileiras Tais Araújo e Vera Ficher, bem como a norte americana Angelina Jolie. Em Moçambique admiro Graça Silva, adoro aquele seu timbre de voz. Na minha lista contam também actrizes como Isabel Jorge, Yolanda Fumo, Lucrécia Paco. Busco em cada uma delas um pouco”, afirma.

Teatro moçambicano está num bom estágio, mas há falta de união
“Há falta incentivos para os actores. Em Moçambique deviam existir formas de valorizar o trabalho dos actores, por exemplo, premiações anuais. Essa seria uma forma de tornar os actores mais competitivos e descobrir novos talentos. Mas isso não depende apenas de nós, necessitamos de apoios”.
Na visão de Bombi não existe união entre os actores. “Aqui é cada um por si. Cada um procura o seu pão,não se pensa no colectivo. Acredito que juntos combateríamos os problemas comuns, como a situação de salas, patrocínio entre outros.”
Apesar da desunião, a actriz defende que o teatro Moçambicano está num bom estágio. “Existem bons grupos, actores e encenadores. Já contamos com a Escola de comunicação e Artes (ECA), que forma mais quadros para o teatro moçambicano. Temos o Instituto Superior de Artes e Cultura (ISArC) que está a formar Gestores Culturais para o mercado. Mas ainda há muito por fazer, temos de lutar para ter mais salas independentes. Precisamos tutelar os grupos novos para garantir a continuidade do teatro”.

Planos futuros
Arlete sonha em se continuar os estudos e ter uma profissão fora do teatro, pois na sua óptica “apesar de viver do teatro, essa área não é sustentável”.

“Sinto-me reconhecida
como actriz”
“Sinto que sou reconhecida pelo trabalho que faço. É gratificante quando as pessoas cumprimentam-te e enaltecem o teu trabalho. Mas ainda existe muito a ser feito. Estou a lutar para construir o meu nome a nível nacional e quem sabe fora do país”.
De ressaltar que ao longo de sua carreira Bombi participou em peças como Embrulhados na Inocência,Celestina Puta Velha Casamenteira, Joana Moçambique, Loucura, A história Repete-se, Politica do Estômago, entre outras.

Parte sentimental

A actriz nasceu numa família alargada, é a quinta filha de sete. Teve uma infância agitada. Na adolescência, com 17 anos, teve o seu primeiro filho. Sua vida parou, ela largou a escola e só retornou anos depois. Actualmente, tem dois filhos e reza a Deus para ter mais tempo para eles. “Sinto que, por vezes, sou uma mãe ausente, mas eu amo meus filhos, vivo por eles. Espero um dia ter mais tempo para eles”.
Bombi é comprometida e sente-se uma mulher apaixonada. Sua relação ainda não está formalizada, mas o casamento está nos planos. “Ele acompanha e respeita minha profissão. Está sempre presente, é o meu melhor amigo e pai que meus filhos não tiveram”.

Hélio Nguane

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