Arménio Vieira: Uma fulgurante ilustração da mudança de paradigma na poesia caboverdiana (I)

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“O poeta é um fingidor/ um pedreiro muito lido,/calceteiro dolorido/ cujas pedras são pedaços/que ele arranca dos penhascos/de uma alma nua e sua/ e da alma de outros poetas// Um poeta e o seu canto: /Harpa eólia, sons de louco/O vento sopra, sopra, sopra/o vento é brisa
e é vendaval/O vento aquece e arrefece //POESIA-pássaro livre, quase verde/ que os poetas alimentam com mãos de afago/e tenros, ternos grãos/sejas tucantor solitário nas horas sem canção/sejas tu-na minha morte/ (mão de amor e serenidade/dedos de mãe e de amada)/-sejas tu a cerrar-me os olhos” Ser Poeta
Arménio Vieira, in Poemas

Arménio Vieira Uma fulgurante ilustração da mudança de paradigma na poesia caboverdiana (I)
Arménio Vieira Uma fulgurante ilustração da mudança de paradigma na poesia caboverdiana (I)

Sublinhava João Manuel Varela, na sua alocução por ocasião da realização em 1984, em Paris, do Colóquio Internacional sobre Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, organizado pela Fundação Calouste Gulbenkian, e reiterava o seu heterónimo T. T. Tiofe, nalgumas Epístolas ao meu irmão António, que a literatura cabo-verdiana vinha conhecendo desde havia algum tempo uma mudança de paradigma no sentido de universalização e da extra-territorialização temáticas e de indagação existencial e metafísica.
Tal mudança de paradigma tornouse, no período pós-independência, opção consciente e deliberada de ruptura (1) quer com a mundividência telúrica enclausurada do homem insulado na sua resignação; (2) quer com a palavra lapidar e rudemente imprecativa de alguma rebeldia cantalutista (tanto na acepção de poesia oficinalmente lapidada para a contestação social e anti-colonial cunhada por Osvaldo Osório no livro Caboverdeamadamente Construção, meu amor (Editora Nova Aurora, Lisboa 1977) como também na acepção mais restritiva e controversa que, na aocução acima proferida, lhe foi atribuída por João Manuel Varela como "artefactos poéticos" destituídos ou insuficientemente apetrechados da arte poética intrínseca à verdadeira poesia); (3) quer ainda com a linguagem ínsita no chamado português literário caboverdiano, de invenção claridosa e muito usual na nossa literatura de feição telúrica (se bem que mais na prosa de ficção do que na poesia). Português literário caboverdiano, aliás, reconhecidamente muito propício, na sua pertinência identitária, à plena assunção de latas funções especificadoras da crã comunhão entre o homem e a terra islenha e, ademais, oficinalmente depurado na sua chã indumentária, no seu "vocabulário concreto".
A opção poética de sentido universalizante acima explicitado representa um dos signos maiores da nossa contemporaneidade literária e tornou-se por demais visível não só na poesia de inúmeros vates caboverdianos dos nossos dias pós-independência, como também na prosa de ficção cultivada por alguns ficcionistas caboverdianos pós-coloniais, incluindo G.
T. Didial, um dos vários nomes literários de João Manuel Varela.
Cremos não laborar em erro se afirmarmos que, a par dos diferentes nomes literários de João Manuel Varela e de alguns poetas e prosadores deles contemporâneos e das novíssimas gerações, Arménio Vieira integra o restrito clube dos escritores caboverdianos vivos na primeira década do presente milénio que mais têm contribuído para a consolidação de novos paradigmas na literatura caboverdiana contemporânea.
É o que comprovam o muito audível impacto e as muitas repercussões críticas que tiveram os seus dois romances O Eleito do Sol eNo Inferno, tanto no que se refere à ousada reformulação das temáticas e das abordagens estéticas herdadas do telurismo claridoso e nova-largadista, como também da surpreendente dissecação das interrogações e da sagacidade do ser humano colocado ante a omnipotência e a arbitrariedade do poder, o absurdo e os paradoxos carcerários das insularidades e o suposto esgotamento da criatividade do escritor saturado tanto da cultura literária ocidental como da quotidiana omnipresença do telurismo e dos seres deambulantes desse inferno que se situa entre o “suão e a chuva”.
É o que também comprova a escrita poética desse “irreverente e indomável espadachim da sorte e da morte, poeta de vento sem tempo” que, na feliz caracterização de Jorge Carlos Fonseca, foi e continua a ser Arménio Vieira.
Cultor assíduo da revisitação da cultura greco-latina, a partir sobretudo da sua recusa em participar na nojenta gastronomia poética que seria a escrita de ortopoemas, necessariamente transitivos na sua degradação utilitária e na sua sempre precarizante instrumentalização político-ideológica, Arménio Vieira representa em Cabo Verde a figura do poeta - parente do gato, porque, "o espírito de um gato é como o canto de um poeta - não atende nem escuta a ordem de ninguém". A imagem libertária do poeta e do seu ofício ressaltam não só dos poemas “um gato lá no alto” e “ser poeta”, mas de inúmeros outros poemas constantes sobretudo do caderno “poesia dois” do seu livro Poemas (ALAC, Lisboa, 1981). Não obstante a consciência de que Setembro dói e sangra, isto é, de que a humanidade persiste em sofrer e em ser vítima, por vezes passiva e autocompassiva, das agruras sociais e da voracidade de quem tem ganhado e lucrado com as suas miséria e submissão, as opções estéticas de Arménio Viera decorrem da descoberta de que "ser poeta a sério implica uma espécie de suicídio" e que "é pela metaforização do discurso que se salva.
A primeira poesia mais significativa dessa ruptura e tomada de consciência metacrítica (como a caracteriza José Vicente Lopes no estudo "Novas Estruturas Poéticas e Temáticas na Poesia Cabo-Verdiana", in "Ponto e Vírgula”,nos 16 e 17, de 1986) consta sobretudo
dos cadernos "A noite e a lira-1976", "A musa breve de Silvenius-1971/1978" e "Poesia Dois-1971/1979" do seu livro Poemas (ALAC, Lisboa, 1981).
A mesma poesia de ruptura e consciencialização metacrítica foi sendo retomada em poemas dispersos, dados posteriormente à estampa, em especial nas revistas “Ponto&Vírgula”, “Sopinha do Alfabeto”, “Fragmentos” e “Artiletra”, e, depois, integrados na segunda edição aumentada do livro Poemas com o título “Poesia Três”.
É nos cadernos “poesia dois” e “poesia três” que a indagação da liberdade existencial se torna mais premente, quer face aos “deuses terrenos” e às suas propensões tirânicas, quer em torno dos caminhos do natural impulso do homem à liberdade. É nesses cadernos (os últimos na segunda edição alargada do livro, abrangendo “poesia dois” o período de 1971 a 1978 e “poesia três” o período de 1982 a 1998 a sublinhar a intemporalidade da busca da liberdade e a sua libertação de conjunturas político-sociais, para o efeito irrelevantes) que é mais evidente o despojamento do poeta de eventuais e limitadoras gangas políticas e ideológicas.
Tal indagação começou a assumir contornos nítidos de ruptura estética e temática com o caderno “A noite e a lira-1976” (primeiro prémio dos “Jogos Florais 12 de Setembro de 1976”, cuja atribuição, aliás, foi assaz surprendente para a época revolucionária que então se vivia em Cabo Verde). Ressaltam nesse caderno os poemas “didáctica inconseguida”, “momento”, “touro onírico”, “canto final ou agonia de uma noite inconseguida”, entre outros de teor existencialista ou de transposição de temas da mitologia greco-latina pelo perturbante olhar de um homem da segunda metade do século XX, e que tinha sofrido na carne, na alma, na reclusão política e na lonjura da incorporação forçada no exército colonial de ocupação dos territórios dos povos africanos sublevados, as consequências da sua incondicional opção pela irreverência existencial e pela liberdade da sua pátria africana do meio do mar (como se diz parcialmente num poema de Ovídio Martins), finalmente festejada a Cinco de Julho de 1975.
Essa poesia de indagação existencial e metafísica segue-se à poesia socialmente comprometida e de nítida opção anticolonial, também amplamente cultivada pelos seus colegas do grupo “Seló” (em particular por Mário Fonseca e Oswaldo Osório, camaradas das lides literárias e políticas com os
quais constituiu um excelente trio de poetas combatentes da liberdade) e pelos seus companheiros da geração da Nova Largada, e constante sobretudo do caderno "Poesia Um" ou dispersa e anterior a 1971. Dessa última poesia, e da capacidade de ilustração desses sombrios tempos de todavia luminosa rebeldia anti-colonial, permanecem, lapidares e inesquecíveis, “Toti Cadabra”, “Isto é que fazem de nós…”,“nunca dobres a espinha”, “Lisboa-1971”, “Canta co alma sem ser magoado” (musicado por Pedro Rodrigues com arranjos de Paulino Vieira e popularizado pela majestosa voz do Bana).
Com “ A musa breve de Silvenius-1971/1978” envereda Arménio Vieira pela levedação das incongruências do quotidiano e da condição humana numa temporalidade histórica que é tanto colonial, como pós-colonial, tanto caboverdiana, como de qualquer lugar.
Perpassado de algum lirismo amoroso, como no poema “os amorosos”, o olhar inunda-se de sarcasmo e torna-se ferinamente corrosivo, a um tempo avassalador e penitente, e, por vezes, aridamente desesperante, como no poema “um dia em moscovo”. Deste modo, essa poesia (a constante de ”Poesia 1” e de “A musa breve de Silvenius”) ergue-se, mesmo se (ou porque) fazendo uso de uma linguagem chã, por vezes erosiva e fulminadora dos mitos greco-latinos, como em “fábula de Esopo” ou “tuto é finito”, outras vezes rente a um indisfarçável, contestado e detestado quotidiano, como em “homens-cães (e vice-versa)”, “os mortos que somos”, outras vezes onírica e satírica, como em “caviar, champanhe e fantasia”, de irónica homenagem ao plateau (parte alta e histórica) da sua cidade natal da Praia e à esplanada da sua praça grande.
A poesia de Arménio Vieira singulariza-se por também fugir ao usual cânone estético da poesia cabo-verdiana, quer pela forte presença da ironia e do sarcasmo, como meios estéticos de transgressão, quer pelo papel que nela desempenham a aliteração, a paródia, a linguagem coloquial, o desencanto metafísico e o jogo com o paradoxo e o absurdo, mesmo quando recorre a mitos greco-latinos, dessacralizando-os.
De interesse é também o parentesco linguístico, estético-formal e filosófico entre alguma poesia de interpretação e interpelação ontológicas de Arménio Vieira (por exemplo, "Canto do Crepúsculo" e "Homenagem a quem…") e a poesia de João Vário. Referimo-nos àquela poesia, como a constante dos poemas “Que bela casuarina”, “Também os deuses”, “Isaías, profeta de Deus”, “Destruição pelo fogo” ou “A vida e a morte de Jaime de Figueiredo”, em que a linguagem se eleva na imagética e no léxico da indagação da transitoriedade de tudo.
Igualmente digno de realce nalguns poemas de Arménio Vieira, em especial dos constantes do caderno “Poesia Dois”, é o enveredamento por um certo formalismo de teor experimenirreverente talista, como se pode comprovar nos poemas “Alfabeto e cotovia” e “Estrela.
Pedra. Consoante. E cotovia”. Tal experimentalismo contribui sobremaneira para a construção da plurifacética substância do caderno “Poesia Dois”.
Nos seus mais recentes livros de poesia, designadamente MITOgrafias (Ilhéu-Editora, Mindelo, 2006) e O Poema, A Viagem, O Sonho (Editorial Caminho, Lisboa, 2009) Arménio Vieira retoma algumas das linhas mestras da sua poesia.

A musa breve de Silvenius

É nesta óptica que, depois de feita a devida louvação aos seus mestres no primeiro e no segundo cadernos (designadamente no “Canto das Graças” e em “Dez Poemas Mais Um, para João Cabral (…)”, ela prossegue na senda corrosiva da dessacralização, quer das idiossincrasias mais tipicamente caboverdianas, designadamente das relacionadas com o infortúnio e a seca (como se pode ler no poema sem título “Quando a Chuva não chove…” ou nalgumas alusões à cabra, ao suão e à chuva ao longo do livro), quer ainda dos mitos da cultura ocidental e dos seus representantes mais icónicos, em cujas obras o autor erudita e literariamente se ancora, como se pode constatar no “Canto das Graças”, mas também literalmente se diverte e se inferniza, como se pode verificar nos poemas (e seus títulos por vezes sarcásticos tais como “Excentricidades gregas”, “Hegel era um Ilusionista de Feira”, etc.) do caderno três (“Mitografias”).
Destaque-se neste último caderno, o conjunto de poemas reunidos sob o título A musa breve de Silvenius que vai sendo longa, uma das suas partes mais incisivas no desvendamento das vertentes mais sombrias, aterradoras e infernais da história da humanidade, em particular da civilização cristã europeia, e dos seus meandros carniceiros, sacrificiais, inquisitoriais, jacobinos e totalitários infestados das humanas “Crueldades” desses “Homens Terríveis”, como Atila, Ivan, Hitler, Estaline, os homens da Gestapo, isto é, os tais “flagelos de Deus”, esse Deus que, sendo também “o verbo”, é o “urdidor mor de metáforas”, esse Deus que, querendo ser “metáfora de si mesmo” “ na cruz (...), partido em dois, sucumbiu”.
De sublinhar no seu livro mais recente (O Poema, A Viagem, O Sonho) a opção de Arménio Vieira pela quase total rasura de qualquer referencialidade explícita à realidade caboverdiana, em contraponto a uma exaustiva e quase extenuante viagem à cultura literária ocidental, viagem essa aparentada com aqueloutra empreendida no romance No Inferno, também ela alicerçada numa erudição avassaladora, na desmesurada fantasia bem como nas potencialidades imprevisíveis de um imaginário fundado na constante reinvenção existencial do homem no seu confronto com o absurdo, quer o de suposta fonte divina, quer o de terrena criação civilizacional.
Livro de meditação, por vezes jocosa, sempre desassombrada, a mais das vezes surpreendente, sobre o Destino e o que ele (nome outro da Divindade, diz o vate) “oferta ao Tempo”, isto é “ à parte de si que já não ama”, os textos que perfazem O Poema, a Viagem, o Sonho têm como matéria primordial os labirintos nos quais se vem enredando a criatura humana na perscrutação do seu destino, do qual, aliás, procura libertar-se, desvendando-lhe os signos ou prosseguindo a sina que nele vem selada e lhe marca os passos todos, sejam os amorosos, os trágicos, os jubilosos, os inqualificáveis. Nessa meditação, a constância das referências greco-latinas, judaico-cristãs e outras fundamente ancoradas na cultura ocidental e nas suas expressões periféricas, como é o caso da afro-latinidade (ou crioulidade) caboverdianas, e delas marcantes, parece querer primacialmente significar a permanência e a imutabilidade de uma condição humana, sempre indagada, sempre perplexa perante si própria e perante a aparente insolubilidade das questões que o ser humano se vêm pondo ao longo dos tempos. Nesta óptica, os textos de O Poema (…) mais não representariam que as indagações de uma qualquer criatura humana nossa contemporânea, ciente de si própria e da teia (histórica, mítica e de outro teor) que a envolve, isto é, de uma criatura que, versada (neste caso, excepcionalmente versada) no saber erudito de matriz ocidental e vendose ao espelho, seu e da humanidade do seu semelhante, nele vê perfilar-se a cultura que consigo carrega, enquanto fardo, paraíso ou inferno, e a canga da civilização de que só se pode desenvencilhar, digerindo com sofreguidão as suas frutas, amargas e saborosas, mediante a viagem que se enceta pelo sonho ou pelo pesadelo, desde que seja uma via que seja aberta pela poesia e a ela conduza.

José Luís Hopffer Almada

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