AZGO Na arte não existe fronteira

Envie este artigo por email

Tudo começou quando poética e artisticamente Maputo foi chamada “cidade das acácias”. A partir daí estava vaticinado que este lugar se tornasse a capital   das maiores criações e o espaço do maior “upgrade” para o “modus vivendi” artístico. Agora, simplesmente, manda a natureza que Maio seja para dar corpus à alegria do espírito através do maior festival de música do mundo em Moçambique: AZGO.

AZGO Na arte não existe fronteira
AZGO Na arte não existe fronteira Fotografia: Bernícia Cotela

O mês de Maio é o de mudança para os moçambicanos. É o cacimbo, num país em que as temperaturas atingem 45 graus célsius. Dá-se lugar às fogueiras e por conseguinte, às histórias à volta da lareira pelas pessoas mais sabidas, as nossas bibliotecas vivas, os nossos avós. E as variadas lendas dando várias faces aos nossos heróis e fazendo de nós o exemplo futuro dessas glórias, sempre são acompanhadas de sons e vozes, perfazendo uma mensagem rítmica. Na nossa tradição, não se contam histórias sem cantar.
E as vozes já ensaiadas precisam de um acto apropriado. Deve ser por isso que foi criado o que se decidiu nomear Festival Internacional de Música, AZGO, que desde 2011, se tornou o epicentro da magia musical. Desde esse tempo, o evento quis referenciar-se como o único que reúne os conceitos de diversidade, criatividade, o “desconhecido” e atemporal quando se fala de música. Uma música que não encontra conceitos nas academias. A música espiritual e espirituosa. A nossa música, que vem da alma e dos mais longínquos lugares das nossas mentes.
O Festival Internacional AZGO leva anualmente o mundo para esta parcela de terra chamada Moçambique que, de toda a população do planeta, possui pouco mais de vinte milhões de habitantes. É a música do mundo, para um lugar no mundo. Em 2014, o cardápio foi mais caprichado, o que vale ao festival o título de evento musical mais completo do país com todas as fracções rítmicas envolvidas na sua rica programação – cerca de 20 horas “líquidas” de actuações – desde apresentações ao vivo aos contestados, mesmo amados, playbacks da música jovem moçambicana. Surpreendeu o facto de Mr. Kuca, famoso músico moçambicano destes tempos, ter feito uma perfeita mistura dos sons programados às congas e baterias, uma ideia que deu certo. Quase que o músico provou que era possível cantar o Pandza, tão hostilizado estilo musical, por algumas alas, com uma banda. Foi um encerramento ao parir da luz do dia, de forma mais surpreendentemente agradável. Fica o registo inovador.
Mas porque o fim tem precedentes, no mesmo sábado, último dia do AZGO, cantou pela primeira vez em Moçambique a cantora cabo-verdiana Mayra Andrade que efusivamente foi aplaudida, mostrando as potencialidades das ilhas que já nos foram mostradas nas edições anteriores do festival pelos cantores Tito Paris e Sara Tavares.
Mas o melhor foi antes, com o agrupamento Fuel Fandango, espanhol, a misturar o flamenco e a música electrónica. Era para ser um ritmo estranho para os maputenses, mas as fronteiras não resistiram. Logo à primeira música, caíram e foram esquecidas em definitivo. Na segunda música do grupo já havia gritos da plateia do nome “Fuel Fandango” para uma certa motivação desta que tem um grande poder de interacção com os seus consumidores “desconhecidos”. A beleza e a profissional ginga da “Nita” – como carinhosamente se chama a intérprete Cristina Manjon – foram decisivos para o encantamento. Uma actuação, diga-se, jamais vista no “país da marrabenta”.
Os Fandango entraram em cena depois da apresentação, também inédita, do professor Tlale Makhene, não muito conhecido, senão mesmo desconhecido entre os moçambicanos. Só o AZGO sabe onde achou este satírico percussionista sul-africano. A sua performance supera o poder dos mundanos, Tlale só pode tocar com ajuda dos deuses. A sua música é cheia de sombras, vozes “incompreensíveis”, movimentos, meditações. Tlale toca, canta e dança ao mesmo tempo que age como dirigente da sua orquestra que se destaca neste evento por contemplar o bem emergido saxofonista Timóteo Cuche.
Se a integração regional na SADC e lusófona dependesse da música apenas, o trabalho já estava feito pela organização do Festival AZGO, que ainda trouxe do Zimbabué, a banda Mokoomba que encerrou os espectáculos do primeiro dia do evento, 23 de Maio.
Foi nesse dia inaugural que o moçambicano proclamado “moçambicaníssimo” pelo apresentador do espectáculo, o locutor Hélder Leonel, entrou em cena para dar a sua voz de ouro à “terra mãe”. Radicado na Suécia, de onde já nos chegaram os dois discos da sua carreira, Deodato Siquir não se fez rogado perante o título atribuído. Sentou-se à sua bateria e empreendeu a voz enquanto tocava. Mesmo assim o público vibrava como se o músico estivesse em requintados paços de dança, que aliás, não tardaram a chegar quando notou que os “festivaleiros” cantavam consigo.
“É a diversidade e a música de qualidade que queremos dar ao público de Maputo e não só” – disse Paulo Chibanga momentos antes dos concertos. E foi tudo como previsto. O mundo esteve em Moçambique e Moçambique acolheu-o dando de presente o melhor de si. Festival AZGO, uma certeza necessária de fortalecer a ideia de quem já disse que a fronteira só existe no mapa, na cultura não existe.

Comentários

Newsletter


Colabore com o Jornal Cultura - Envie-nos os artigos da sua autoria.

Colaboradores Ver todos