Boureima Nabaloum o Picasso africano

Envie este artigo por email

Não é apenas na pintura que estão expressas e cultivadas as suas formas bivalentes de
tradicionalismo e modernidades.

Boureima Nabaloum

FLORA PEREIRA DA SILVA
Afreaka: www.afreaka.com.br

A arte africana foi uma das principais fontes de inspiração de Pablo Picasso. Encantado pelas formas sumptuosas das esculturas e pinturas tradicionais do continente, o artista encontrou alento para o desenvolvimento do protocubismo, que mais tarde daria lugar ao cubismo. Um século depois, em Burkina Faso, em um processo de retro-alimentação cultural, um jovem apaixonado pelas artes plásticas começou a desenvolver em seus quadros formas e traços enérgicos e expressivos, que lembravam a força do estilo do artista espanhol. Boureima Nabaloum não tinha 15 anos quando ganhou o apelido de Picasso. Duas vidas separadas pelo tempo, espaço e composição social, que encontraram na natureza da estética africana os frutos de suas obras.

No entanto, não é apenas na pintura que estão expressas e cultivadas as suas formas bivalentes de tradicionalismo e modernidades. Nabaloum Boureima, o Picasso, se consagra na Nona Arte, no mundo da História em Quadrinhos. Os destaques da sua produção encontram a originalidade representada no realismo cómico, traços corpulentos e roteiros complexos elaborados com êxito pelo quadrinista burkinabe. Motivado pela paixão de trabalhar com as mãos e pela educação através da arte, Boureima focaliza os seus temas em sujeitos históricos embasados na tradição africana. Com declinação manga, cenários detalhados e personagens de combate, os diálogos educativos ganham força no desenvolver da leitura. Por fim, desenhos coloridos se destacam no preto e branco predominante das obras produzidas em papel de jornal.
Nascido na cidade de Bobo-Dioulasso, em 1985, realizou os seus estudos em Yako, no norte de Burkina Faso e já no colegial se marcou como uma representação activa no mundo artístico do país. Ilustrador, pintor, caricaturista, Nabaloum é quadrinista fixo do diário L’essentiel du Faso e do jornal de sátiras The Étaloon, com obras publicadas nos livros-coletâneas ‘Cem anos de Senghor’ (Atelier du Sya, 2006), ‘La Bande dessinée conte l’Afrique’ (Dalimen Éditions, 2009), ‘Africa comics’ (Le citoyen, 2010) e com participação em vários festivais nacionais e internacionais na Argélia, Mali e França. Mas foi com o seu primeiro livro a solo ‘O despertar das máscaras albinas’, que o artista se consagrou como um dos melhores quadrinistas do continente. Com a obra, o artista levou em 2013 o Prémio Bronze de Manga das Embaixadas do Japão, competição internacional que contava com a participação de 245 trabalhos de 38 países. O prémio que foi criado e estabelecido pelas autoridades governamentais do Japão, a fim de promover a cultura popular do País do Sol Nascente, encontrou na obra de Picasso uma distinção artística única, o qualificando como um dos projectos mais elaborados de todas as seis edições existentes do prémio. “Conhecer a cultura do outro contribui para a compreensão e tolerância mútua entre os povos. Apesar da distância que separa o Japão e o Burkina Faso, esta é uma obra que enriquece mutuamente a cultura dos dois países”, afirmou o embaixador japonês em Burkina Faso, Masato Futaishi. Enquanto o Ministro da Cultura e do Turismo de Burkina, Baba Hama, declarou que Boureima, com sua obra-prima, tornou-se, ao ultrapassar as fronteiras nacionais, um embaixador mundial da cultura e da arte burkinabe.
O livro ‘O despertar das máscaras albinas’ descreve dez diferentes rituais de iniciação, um costume africano consagrado que marca a passagem da vida infantil para a vida adulta. A iniciação é o momento em que o cidadão aprende os valores da sociedade, é uma escola cultural e tradicional onde são transmitidos conhecimentos milenares de cada grupo social. “A iniciação é um costume que está desaparecendo na África. O livro foi uma maneira que encontrei de não deixar a história morrer e ao mesmo tempo educar sobre os valores do costume”, explica Picasso, que é fascinado pelo poder educativo da arte. Com esse objectivo, ele desenhou uma história que traça as aventuras de três jovens de uma aldeia, que determinados a proteger uma máscara sagrada, passam por várias fases de cada um dos dez rituais. Ao longo da narração, um cenário lúdico educativo vai tomando forma e se completam nas duas dezenas de 20 páginas ilustradas produzidas com prestígio pelo artista.
Boureima Nabaloum é também fundador e presidente da associação “Centre Atelier Racine CAR”, criada em 2006 com objectivo de reunir os desenhistas dispersos no país para fortalecer a produção da nona arte. Preocupado com o futuro da arte, Nabaloum fala sobre o que motivou a criação do centro: “Queríamos juntar essa geração de artistas que possui o mesmo dinamismo e incentivar os jovens da área sobre os efeitos sociais positivos que a arte em quadrinhos pode trazer”. Como fruto da iniciativa, Burkina Faso ganhou em 2014 o primeiro festival da nona arte: o FEBDO, Festival de Desenho em Quadrinhos de Ouagadougou.
Com mesas redondas, palestras, reuniões de artistas, oficinas de escrita e de introdução aos quadrinhos, durante três dias centenas de pessoas e talentos se reuniram com a ambição de melhorar a produção nacional, desenvolver novas habilidades e tornar visível a grande riqueza do país na área. Com prémios para novos criadores e sob o tema “Descobrindo talentos”, o festival veio para afrontar a dificuldade de publicação e diagnosticar e colocar em questão o nível de atenção que a arte merece no país. ”O desenho não é escrito apenas para criança, é uma arte de pleno direito, uma arte que exige talento, e em Burkina talento não falta”, declarou o cartoonista Damien Glez, o patrocinador desta primeira edição, para não deixar dúvidas sobre o promissor futuro da História em Quadrinhos em Burkina Faso.

Comentários

Newsletter


Colabore com o Jornal Cultura - Envie-nos os artigos da sua autoria.

Colaboradores Ver todos