Breves reflexões sobre a literatura caboverdiana

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(Ressonâncias da Geração da "Claridade" à revista "Fragmentos")

Breves reflexões sobre a literatura caboverdiana
Breves reflexões sobre a literatura caboverdiana

A literatura caboverdiana conhece um marco fundamental em 1936, com o surgimento da revista “Claridade”. Os seus principais animadores são Manuel Lopes, Baltasar Lopes, Jorge Barbosa, para além de Jaime de Figueiredo, que se demarcou do grupo, acusando os seus coetâneos de “proletários”. Como que em compensação, algum tempo depois juntar-se-ia ao grupo o novelista e ensaísta António Aurélio Gonçalves, formado em ciências histórico-filosdíficas pela Faculdade de letras da Universidade Lisboa e falecido em 1984, vítima de atropelamento na Praia.
Um ano antes do surgimento da referida revista que marca a emergência do modernismo nas letras daquele país irmão, o poeta Jorge Barbosa havia publicado o seu livro de poemas intitulado “Arquipélago”.
A “Claridade” emerge num contexto histórico concreto, quando os seus integrantes decidem olhar para os problemas do homem caboverdiano, “os nossos problemas”, no dizer do ensaísta, poeta e romancista Baltazar Lopes. Os historiadores literários documentam que, os poetas em causa não estão alheios às crises cíclicas que os cercam, aliás núcleo temático constitui o “leit motiv” dos seus poemas, contos, noveletas e romances. Os claridosos sofrem como a gente humilde. Literariamente, sofrem a influência da “Presença”, mas, sobretudo, reencontram-se no “alumbramento” da criação literária dos nordestinos brasileiros, cujos problemas são similares aos seus. Os poetas atacam o drama pungente do evasionismo, do anti-evasionismo, a insularidade, a estiagem e, consequentemente, a sede e a fome. Eles sofrem como a
gente humilde das ilhas, vergados ao peso da mais vil miséria.
O sofrimento era tanto, que Juvenal Cabral, o pai de Amílcar Cabral o futuro líder do PAIGC e arauto da causa da CONCP, não se coíbe de escrever ao governador da colónia de Cabo-Verde, em termos tão lancinantes, quanto vigorosos, quanto a urgência do socorro que se grita, a todos os pulmões, entre os ilhéus, obriga: (…)
A crise não cessa. Antes pelo contrário aprofunda-se ano após ano, como uma espada pendente sobre a cabeça dos caboverdianos.
Em 1942 vive-se uma terrível estiagem, saldando-se numa tragédia de cerca de 150 mil mortos, devido à fome que se abateu sobre as ilhas, tal como já ocorrera no princípio do séc. XX, resultante de uma má política colonial, que não atendera nem previra a gestão do abrandamento do impacto exercido por tais catástrofes sobre as populações locais cada vez mais vulneráveis, à espera que uma mão caridosa lhe seja estendida, vivendo dilema “de querer-ficar e ter de partir”(e vice versa, “querer-partir e ter de ficar”, conforme cantavam os poetas claridosos).
Segundo um membro dessa geração literária, Manuel Lopes, autor do clássico “Flagelados do Vento Leste”, o chamado “evasionismo caboverdiano é um imperativo económico, mas também uma curiosidade cultural. Cada homem procura ser um pouco o que os outros são. A sua riqueza interior depende dessa colheita. Não é a fuga a qualquer luta. É uma luta…”
O cenário de completa indigência e desolação é-nos fornecido no referido livro deste autor, onde em razão da seca que varria de sede, fome e morte o arquipélago, dá-nos conta do drama evasionista (ou anti-evasinista?) do homem crioulo nascido no arquipélago. O protagonista José da Cruz, o último a abandonar o seu lugar de origem devido à seca inclemente, assistia impávido, nervoso e quiçá revoltado, à morte da sua criação de animais, que cuidara durante longos anos com muita dedicação e carinho, bem como a partida dos seus vizinhos. Tal circunstância divide o seu grau de inteligibilidade com o meio, entre o dilema de querer-ficar e ter-de-partir, para escapar ao macabro flagelo. A opção pela largada é-lhe impelida pela tragédia da estiagem e à instigação da esposa e de um vizinho, enquanto o seu filho Leandro há muito havia batido em retirada. O filho achava-se perdido distante entre os rochedos, atacando os transeuntes com um punhal em riste – ironia da história –, despojando-os, assim, dos seus parcos haveres que salvaram na fuga da crise. M. Lopes analisa e pinça o horroroso drama com profunda habilidade criativa, pintando-o com fina sensibilidade plástica e apurado tratamento humano.
A temática dos claridosos é recorrente em todas gerações que atravessas as letras caboverdianas, desde os meados dos anos 40 até durante toda a segunda metade do século XX. Sente-se, a todo tempo, sons e ressonâncias da criação literária caboverdiana. Os seus sons e sentidos ecoam desde a “Certeza”(1944), passando pela geração do “Suplemento Cultural” ou da “Seló”, apesar de terem passado ao largo dos reais problemas do arquipélago. Importa notar que, as mesmas ressonâncias são notáveis ainda na geração mais nova reunida, basicamente, em torno da revista “Fragmentos”, sem prejuízo doutras tertúlias da nova vaga.
De passagem podemos notar a intertextualidade entre o “Poema Bom dia António Nunes”, de Corsino Fortes e o célebre “Poema de Amanhã”, de António Nunes, que resulta numa autêntica e propositada réplica. A mesma influência será válida quanto detectamos marcas da poética de Jorge Barbosa nos novos poetas. Basta notar que, o texto barbosiano dialoga com os textos de todas gerações literárias que são posteriores à sua, ainda tacitamente, num exercício de intertextualidade que é reter lição.
É assim que, os novos poetas caboverdianos, herdeiros da tradição literária e cultural da “Claridade” e das gerações intermédias têm assumido o desafio da reinterpretação e reinvenção de temáticas que perpassam a literatura em questão, tais como a estiagem, o evasionismo e o anti-evasionismo, mas, sobretudo, o desafio maior que é o da inovação, sugerindo novas propostas e necessárias rupturas que engendram a continuidade do seu “processus” literário, iniciado com os antecessores Eugénio Tavares, Januário Leite e José Lopes, o primeiro poeta a sonhar com a independência de Cabo-Verde, cuja geração emergiu nos finais do séc. XIX e princípios do séc. XX, lançando as balizas da autonomia literária de Cabo Verde – que tem no seminário e no Porto Grande de São Nicolau duas referências sociológicas de relevo no seu contacto com mundo e estimulantes de peso para afirmação das suas elites simbólicas, tal como a imprensa, começando pelo Jornal de Cabo Verde e demais títulos surgidos a posterior.
Na verdade, é, fundamentalmente, através da imprensa, nomeadamente, revistas e jornais, tais como “Raízes”, “Ponto e Vírgula” e “Fragmentos”, que a produção literária da nova vaga surgido logo depois da independência vem a público, com destaque para o suplemento cultural “Voz di letra”, do jornal “Voz di povo”, sob coordenação do conhecido poeta Osvaldo Osório( da geração “Selô”(princípios dos anos 60), tal como o prémio Camões Arménio Ferreira) e Ondina Ferreira. A produção poética da nova geração vem basicamente conhecer letra de forma em conjunto, através da antologia “Mirabilis veias ao sol”. Esta antologia panorâmica, com o subtítulo “Novíssimos poetas de Cabo Verde” não só condensa a crise existencial que sacudia o arquipélago, na esteira dos precursores já referidos, como as angústias e frustrações, exaltando também sonhos, esperanças, mas sobretudo certezas dos seus integrantes, dando luz fecunda à expressão artística e literária duma vivência colectiva, reflectida também na música na música de um B.Leza, Ildo Lobo, Luís Morais, Cesária Évora, a famosa diva dos pés descalços e Bana, este monstro sagrado da música africana. De resto, figuras de proa que marcaram uma época na arte (musical) do arquipélago, reafirmando as peculiaridades da caboverdianidade, - cuja literatura é, igualmente, um dos seus cavalos de batalha, tanto no passado, como no presente e, seguramente, no futuro.

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