Cem anos de Jorge Amado

Envie este artigo por email

A poesia da Bahia: lirismo escapulido entre o cidadão e o escritor

MATILDE:

Jogávamos jogos de prenda.
Andávamos de carro-boi.
Morávamos em casa mal-assombrada
Conversávamos com moços e mágicos.
Achavas a Bahia imensa e misteriosa.
A poesia deste livro vem de ti.

(Dedicatória de Jorge Amado in `Capitães da Areia')

O relativismo dos dias é, na vibrante visão existencial do seu efeito, porta que nos traz à vida e que nos devolve à condição do antes dela. Submersos nesta teia de ideias, a refutação de dias como mera passagem de tempo é obrigatória e a noção deste é preenchida como moradia de morte e de vida. No túnel dos dias mora o arco-íris da passagem estreita, onde a circulação é constante e natural.

Tal como muitos tomam o caminho da partida, já cientes do que ela é, outros começam a sua jornada inocentes e com muito para apreender dela.

Neste única oportunidade palpável até agora, tudo à volta leva-nos à procura de caminhos que nos tornem parte viva entre os nossos e assim nos devolvam à vida substancial por matérias e armações de ideias que selam o génio que fomos como vivente.
O escritor aqui em causa é, pelo seu génio, um exemplo vivo da nossa férrea luta contra o rumor do vazio, da nossa sede de evasão e procura de formas escapatórias da circunscrição do impalpável, da nossa fome de sermos matéria indiferente às estações do tempo e/ou parte dela, da insubmissão ao nosso jeito e possibilidades contra a morte absoluta.

Foi num dia de cacimbo como este, 6 de Agosto de 2001, em Salvador, Brasil, que a nada preconceituosa e desafetada congénita promessa de morte física poisou subtilmente a sua mão adrástea sobre o templo que em vida ficou mundialmente conhecido por Jorge Amado e, decididamente, tomou como suas as réstias do homem de que tanto é viciada e que, decerto, lambuza-se a garfo, faca e palito, como só ela pode, com as areias do barro com que foi feito o homem.

Para nós, os famintos de ideais, fica o legado do melhor dele: a essência, a cólera da luta interior, a sua ideia de si e de nós no seu tempo.

Jorge Leal Amado de Faria, vogal sonante do corpus contemporâneo da literatura brasileira, patrono número 23 da Academia Brasileira de Letras, Prémio Camões de 1994, sobejamente adaptado pela produção novelesca, cinemática e teatral do seu país, nasceu Itabuna, parte sul da Bahia, em 10 de Agosto de 1912. Escritor altamente produtivo, legou-nos O País do Carnaval (1930), Cacau (1933), Suor (1934), Jubiabá (1935), Mar Morto (1936), Capitães da Areia (1937), A Estrada do Mar (1938), ABC de Castro Alves (1941), O Cavaleiro da Esperança (1942), Terras do sem-fim (1943), São Jorge dos Ilhéus (1944), Bahia de Todos os Santos (1945), Seara Vermelha (1946), O Amor do Soldado (1947), O Mundo da Paz (1951), Os Subterrâneos da Liberdade (1954), Gabriela, Cravo e Canela (1958), A Morte e a Morte de Quincas Berro d´Áagua (1961), Os Velhos Marinheiros ou o Capitão de Longo Curso (1961), Os Pastores da Noite (1964), O Compadre de Ogum (1964), Dona Flor e Seus Dois Maridos (1966), Tenda dos Milagres (1969), Teresa Batista Cansada de Guerra (1972), O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá (1976), Tieta do Agreste (1977), Farda, fardão, camisola de dormir (1979), Do Recente Milagre dos Pássaros, O Menino Grapiúna (1982) A Bola e o Goleiro (1984), Tocaia Grande (1984), O Sumiço da Santa (1988), Navegações de Sabotagem (1992), A Descoberta da América pelos Turcos (1994).
Antagonicamente tido como auge e decadência da eurística amadiana, o utilitarismo impregnado por Jorge Amado às suas obras faz o espaço maior de concentração da função estética da obra do autor brasileiro.

A sombra das escolhas amadianas foi, e com razão, sempre posta à luz de fatores extrínsecos à literatura.

Com Jorge Amado, a ambivalência entre razão e coração ou dionisíaco e apolíneo é uma premissa centrifuga que ganha homogeneidade no seu sobreposto utilitarismo.

Entretanto, esta posição globalmente preceituada como a que mais identifica o escritor é trazida numa arquitetura do romance exacerbado de lirismo, o que pode ser entendido como uma impossível fuga aos deleites da arte pela arte (criando possibilidades para uma visão menos reducionista da obra amadiana) que deu lugar a um desproporcional sincretismo muito bem interpretado pela pretensa crítica literária ao colocar na linha da frente da obra do autor o peso da necessidade de valor externo.

Pelo artisticismo engajado, a classificação de difícil digestão de que Jorge Amado é um autor cuja obra foi vítima dos ideais do cidadão não se afigura perdulária nem tão pouco a desconfiança de que as fissuras da obra amadiana provêm da sua contextualmente percebível fixação pelo utilitarismo pode ser entendida como um desvio de esclarecimento injusto.

O entendimento externo da fase de criação ou meandros indefiníveis da mesma que levaram o escritor a cessar a convicção e que permitiu a análise binária da obra amadiana pode, determinantemente, denunciar no homem em sociedade não apenas o conflito interior entre o cidadão e o escritor, mas também assentar como exemplo ontológico de uma necessidade posterior muito mais artística.

Apesar das limitações do realismo socialista e da afirmação de que Jorge Amado é mais literariamente rico na sua segunda fase, da sentimentalidade prosaica como trazia a Bahia já anunciava na sua obra, embora tenuemente, um lirismo que se escapava dos limites impostos à sua criação.

Com os personagens alicerçados na dinâmica do realismo socialista, a obra amadiana não deixou de ser, apesar de colorida, uma mensagem de humanismo, uma ferramenta contra o juízo da pele, uma aceitação e aproveitamento do pluralismo cultural brasileiro e, sobretudo a partir do círculo bahiano, um quadro franco das patologias da paisagem brasileira com a presença imperativa do seu mar.

Comentários

Newsletter


Colabore com o Jornal Cultura - Envie-nos os artigos da sua autoria.

Colaboradores Ver todos