“Céu Jorge”

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Intérprete, actor, cantor, compositor, musicalmente feliz dentro da MPB, Seu Jorge - o menino negro nascido no Rio de Janeiro, na década de 70 – é Grammy Latino de Melhor Álbum de Música Popular Brasileira e Melhor Álbum de Pop Contemporâneo Brasileiro. Alto, de corte de cabelo à moda dos anos oitenta, terno preto, óculos escuros, guitarra em punho e todo o Brasil na voz e no coração, Seu Jorge se movimenta em palco. A voz meio rouca, profunda e tocante, de ar tão alegre quanto exigente.

Fotografia: Rita Soares

É o firme e varonil guerreiro/cidadão, o “starman” para a sua “lady stardust”, que por ela vence todas as barreiras das cidades modernas. O cantor que congrega todo o Brasil: o Brasil indiferente e elitista das novelas e talk shows de final de tarde, um pouco satirizado com a canção “Burguesinha”, e o Brasil das sangrentas e invisíveis favelas de infinitos problemas, alcançado na canção “Problema social”; e é certamente por isso que o Jorge é o céu.

E melhor: o “Céu” Jorge, aquele que alberga todo o Brasil. Mas mais do que isso, revela na sua perspicaz análise da mista sociedade brasileira, apropriada para rasgos realistas – também os ideais que nortearam a negritude, ainda actuais; confirmado no show com o militante recital da canção “Negro drama”, do grupo raper brasileiro Racionais MCs.

Certo de que era a esperada do público, “Alma de guerreiro”, a canção que brilhou na trilha sonora da telenovela Salve Jorge, foi a primeira. O Show começara em alta. Os gritos não paravam. Sucesso à primeira. A noite de 18 de Outubro começara na história.

Entre o rock, samba e pop, “Mina do condomínio”, “Chega no suingue”, “Bem querer” foram as seguintes. Voltou com a voz mais rouca e melhor colocada, justificando o ambiente informal e intimista que caracteriza os seus shows, deixando à vista que não é um cantor de formalidades, mas de talento, e descomplexado. Trouxe “Voz da Massa” e “Quem não quer Sou eu”.

Na segunda parte do show, já na primeira hora do dia 19, apareceu com o violão, de jeans, ténis, casaco e chapéu, a armadura diária do cavaleiro andante de 2000, morador de “São Gonça”. Cantou os sucessos “Problema Social”, “Pretinha”, “Amiga da minha mulher”, “Doida” e “Tinha razão”. O gótico “Chatterton”, “Menina de peitão”, a imagem jocosa da menina brasileira devota seguidora de arriscados padrões de beleza, paralelo a Augusto Cury em “Ditadura da beleza”-, foram também cantados.

A balada romântica “Carolina” e a crítica “Burguesinha”, sucesso que o público pediu aos gritos, fecharam o show com chave de ouro, já bem dentro da madrugada, no pátio do Centro de Convenções de Talatona, em Luanda.

Anfitriões

Ao vivo, quase ninguém pede aos gritos de euforia e folia uma música em kimbundu. Quase ninguém a exige também. São só os músicos que a fazem. A abrir o show de Seu Jorge, os anfitriões Nelo de Carvalho e Coreon Dú viveram as consequências deste nosso “descuidado”.

Duas propostas estéticas de cunho angolano, uma a reencarnar as pegadas iniciais da música moderna angolana, Nelo de Carvalho; outra a estender electronicamente a sua voz e criação como pontes para sons do futuro, Coréon Dú.

De Nelo, “Nostologia” e “Zangue”, o segundo dedicado à Ilha de Luanda, vieram dar o gosto angolano. Colaborando neste propósito, Coreon Dú – muito bem acompanhado por Dalú Róger, grande referência no ngoma – trouxe “Lemba”, “Set me Free” e “Oportunidade perdida”.

Outras

Além da boa música, o festival ficou marcado por falhas da organização. Era um corre para lá e para cá. Eram as habituais separações de classe, com as cada vez mais recentes designações vip, aquela que quase não vibra e apenas assiste calada. Os habituais atrasos, que foi o ponto mais desgastante com os sucessivos interregnos: esperar cerca de uma hora pelo Seu Jorge, sem saber porquê e o que fazer.

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