Cidade Velha Colectiva de pintura assinala Dia Internacional de Monumentos e Sítios

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É uma importante mostra colectiva que reúne a partir de 12 e até ao fim do mês muito do melhor das artes plásticas cabo-verdianas no Convento de S. Francisco, Cidade Velha, para assinalar o Dia Internacional dos Monumentos e Sítios.



Conferência de Berlim( dividiram o bolo em pedaços) Acrílico sobre tela 200 cm x 150cm

 Cinco nomes significantes (Manuel Figueira, Tchalé Figueira, José Maria Barreto, Alex Silva e Nelson Lobo) expõem na magnífica sala do único Património da Humanidade existente em Cabo Verde, pondo em evidência que a pintura daquele ombreia com a melhor dos melhores. Faltarão neste mostruário alguns dos nomes sonantes que, por exemplo, se mostram no enorme mural da Assembleia Nacional (Parlamento), na cidade da Praia, ou no mural exposto no Mercado do Peixe, em Mindelo, S. Vicente. Mas o que se revela demonstra que, embora dela quase não se fale, a arte pictórica de Cabo Verde está longe de ser um parente pobre na sua surpreendente cultura.
“Identidades: âncoras de passagem” é o nome que esta colectiva assume. Dois dos nomes nela patentes – os irmãos Figueira – são referências da arte cabo-verdiana. Manuel Figueira – que recebe influência do realismo e surrealismo figurativo – ensinou em Portugal na Escola António Arroio, depois de ter estudado na Escola Superior de Belas Artes e antes de voltar para S. Vicente, em 1975, aquando da independência de Cabo Verde. Casado com a pintora portuguesa Luísa Queirós, foi empurrado para a pintura por Abílio Duarte e foi companheiro de juventude, em Lisboa, do grande Mário Dionísio (autor de “A paleta e o mundo”).
Próximo do movimento independentista, andou na Casa de Estudantes do Império, em Lisboa, onde tiveram assento Amílcar Cabral, Mário Pinto de Andrade e Marcelino dos Santos. Há cerca de dez anos uma portentosa retrospectiva apresentou-o em Lisboa (na Galeria Perve) onde os críticos se renderam à sua arte até então ignorada. De regresso ao Mindelo. Manuel Figueira foi o primeiro director do Centro Nacional de Artesanato, esteve ligado ao Centro Resistência e fundou a Galeria de Arte Amarelo + Azul = Verde, talvez a primeira galeria de Cabo Verde.  
Por influência da família – o tio era o escritor Manuel Bonaparte Figueira, que andou nas órbitas do Movimento Claridade – Manuel Figueira por sua vez animou Tchalé (Carlos Alberto) que, espírito rebelde, percorreu mundo em trabalho a bordo de um navio. Escritor, poeta e pintor,  tem uma surpreendente paleta onde o neo-expressionismo se cruza com um invulgar minimalismo que tem impressionado importantes galerias da Europa. A sua pintura (que por vezes se esconde na arte povvera)pede meças ao melhor de Bacon e, tantas vezes, recorda-nos Modigliani.
Tchalé viveu na Suíça e bebeu na Europa do Leste e do Norte (Polónia e Alemanha) muito da sua maneira, pintalgada pelo imaginário temperado em África. Mas o seu discurso há muto que se universalizou. Será profundamente europeizante. A verdade é que a sua arte acabou por se autonomizar, tornando-se num caso singular na pintura dos nossos dias. São famosos os seus “Monstros” que retratam o non-sense e a ausência de humanismo de personalidades que foram estigma da humanidade – como Salazar e Hitler.
Ambos, os irmãos Figueira, arrasaram a tese de Gilberto Freire, segundo o qual Cabo Verde apenas valia pela sua música, fazendo tábua-rasa da sua literatura e da sua pintura. Com efeito, nada mais falso.

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