Crise de identidade

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A propósito da introdução das línguas maternas angolanas no sistema de ensino e a democratização da cultura.

Vem de molde assinalar que muito do insucesso escolar que se regista na aprendizagem da língua portuguesa nos dias que correm (e podemos alargar mais a nossa perspetiva analítica a outras disciplinas), bem como na transmissão de outras matérias didáticas tem a ver a com a crise de identidade que enfrenta a criança que abandona a família, o seu primeiro mundo, e encara, em termos de mobilidade social, um novo mundo a escola, entrando em conflito de personalidade, pois a sua língua materna aí não tem espaço, para dar livre curso às suas potencialidades cognitivas e lúdicas, apreendidas no seio do seu meio de origem social, que no caso da aldeia encontra expressão cultural na dança, tradição oral e cânticos tradicionais, jogos dramáticos e lúdicos, repositório transmitido de geração em geração, no jango ou no dique, por altura em que se juntam para acarretar agua, ou ainda nas caçadas ou mais ainda no retiro na fase de circuncisão a sangue frio, o que não deixa(va) de ser horrendo, relevando uma certa contingência bárbara, que de tão retrógrada merece ser abandonada a favor da anestesia prévia.

Nestes termos, todo este património cultural a criança não poderá partilhar ou intercambiar com os colegas que só falam português, as mais das vezes, por bloqueamentos socioculturais, linguísticos e psicológicos terríveis, onde sobreleva a língua diversa da falada na escola, num meio estranho: seja urbano, semiurbano e mesmo semirrural.

Assim sendo, o conflito sociocultural vivido pela criança em crise de identidade com uma aprendizagem numa linga segunda, é agravado, bem como os seus colegas perdem uma rica oportunidade para tomarem contacto, pelo menos potencialmente, com o imaginário oral daquele falante de língua maternal de origem africana, veiculando a sua experiência na ruralidade na língua do seu meio de origem - aldeia -, que a instituição escolar, "in limini", não reconhece como canal de comunicação padronizado, pelo menos do ponto de vista da metodologia didática que visa, entre outros objetivos pedagógicos, afastar o ruído na comunicação entre o professor e o aluno (e já agora também entre os colegas).

Haja em vista assinalar que a criança que não tem o português como língua materna e dada que a sua não é lecionada na escola, parte numa situação de desigualdade social, a priori, com os condiscípulos, o que requer que seja alterado este "círculo vicioso", criando-se um "círculo virtuoso" que abrande o peso e o impacto da pesada herança do assimilacionismo colonial e valorize as línguas maternas angolanas no sistema escolar.

Já que a exclusão desse sistema linguístico de matriz africana no ensino, como sugeria o poeta da Sagrada Esperança", "não resolve os nossos problemas", pelo que havia que ponderar desde já a sua inclusão(2). Os passos dados neste sentido pelo MED colhem a todos os títulos, ainda que serôdios. Antes tarde do que nunca - lá reza o provérbio portuguêsEstratégias de trabalho

As balizas de uma tal estratégia de trabalho há muito foram ensaiadas e lançadas, como a aprovação da grafia de pelo menos 6 línguas nacionais, em 1976. A experiência-piloto em ordem à sua adoção no sistema de ensino poderia ser articulada para já com a elaboração de manuais e demais material didático.

Resumidamente, se é certo que as demais línguas, além das seis que já têm grafia oficial, poderiam aguardar por melhor oportunidade, dada que uma empreitada de tal envergadura carece de investimentos vultuosos que não se esgotam na ocupação de pesquisadores para fixação da sua padronização, mas implicam também a formação de professores que vão lecionar as e nas línguas em causa, antecedida, sobretudo, de uma prévia formação de formadores de e em línguas nacionais.

As experiências neste domínio existem ao nível por exemplo das igrejas desde longa data (com realce para a protestante perseguida e acusada de desportugalização dos nativos no passado pelas autoridades coloniais, devido ao magistério exercido pelas missões nas línguas locais, a par da tradução da bíblia nas línguas maternas angolanas), bem como, mais recentemente, ao nível, por exemplo, do CEFOJOR, que ministra cursos em várias línguas nacionais, e o da Alliance Française que ministra cursos em kimbundu; lições que poderiam apreendidas e adaptadas, com a devida actualização metodológica e modernização pedagógica, em "tour horizon", sem desprimor pela experiências africanas e não só no domínio, pelos Ministérios da Educação e Cultura, bem como da Comunicação Social, para levar a bom porto uma tal política educacional, cultural e linguística, que coloque as nossas distintas línguas maternas angolanas na crista da onda do acesso ao saber científico e do desenvolvimento, vencendo-se, assim, decididamente a batalha conta o analfabetismo, cujas bases foram lançadas desde os primórdios da nossa independência e ensaiadas ainda no maquis debaixo das árvores e os alunos sentados nas pedras, ainda que este conhecimento rudimentar fosse transmitido entre os maquisards na língua do colonizador, que de dominante passou a dominada, na configuração mental de uma franja significativa dos antigos colonizados, que a têm como língua materna e mesmo segunda, compaginando o ambiente de diglossia no país, em que a língua neolatina convive com as de raiz bantu em Angola e, quiçá, nos distintos PALOP, com as especificidades que se conhecem, em virtude dos contextos locais, onde existem dois crioulos, como em Cabo-Verde e Guiné-Bissau, por exemplo) e demais línguas africanas.

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