Cuba, Poética Universal no Terceiro Milénio

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Seria absurdo falar de quem somos, no momento presente, sem dizer de onde viemos.


Cuba, Poética Universal no Terceiro Milénio
Havana velha

No caso da literatura cubana, que nas suas origens foi um mero referente de crónicas e epístolas coloniais, quando a nossa identidade nacional não era mais que uma miragem no tempo, esta foi marcada por rastos evolutivos claramente definíveis, amplamente estudados e catalogados nacional e internacionalmente.
Infelizmente, muito pouco herdamos dos habitantes nativos da maior das Antilhas, varridos em muito pouco tempo pelo impacto colonial. Apenas alguns mitos, junto a términos e topónimos incorporados na fala local, foi o único que sobreviveu à barbárie ocidental. A partir desse momento, a literatura gerada em Cuba, insuficientemente manifesta até finais do século XVIII e começos do XIX, foi resultado da imposição cultural, a exploração esclavista, a discriminação racial e de classes, tanto quanto da dependência políticoeconómica; rasgos que definiram, por contraposição, o nascimento de uma idiossincrasia crioula, precursora de matizes que modelariam a nossa cultura. De modo que o século XIX viu surgir a pensadores e escritores que já expressavam, de maneiras muito dissimiles, às vezes contrapostas, os inequívocos sintomas de uma independência de pensamento à margem dos mandatos coloniais. Naquele tempo, com poetas como Heredia, A. Avellaneda, Nápoles Fajardo e Milanés, a poesia crioula abriu espaços para os intelectuais do século XX, assinada por um profundo sentido patriótico e de pertença nacional. Sem lugar para conjecturas foi José Martí quem fez cristalizar, no último terço decimonónico, os mais elaborados projectos de construção nacional; alternando a sua actividade literária, dentro da que lhe atribui a fundação do Modernismo literário, com a de organizador da última luta independentista.
Entrada o século XX, Cuba gozou de uma multicolorida diversidade de expressões culturais, dentro das quais a literatura e com ela a poesia alcançariam a sua maturidade e definição. Curiosamente, nas suas orígens, a poesia e a música cubanas criaram pontes de intercâmbio nos estratos populares e clássicos, que perfilaram os seus matizes mais reconhecíveis em termos nacionalistas; ou seja, a décima camponesa e a poesia escrita derivada deste género; e os ritmos e cantos de procedência africana, como detonantes da poesia Negra. Existe, entretanto, outro género, possivelmente mais urbano, que, em sua mestiçagem, conseguiu fundir elementos de várias procedências: a Trova tradicional. Um aspecto substancial na cultura cubana de todos os tempos está determinado pelo carácter cosmopolita da sua condição insular, na encruzilhada das Américas, e delas com a Europa; de maneira que a intelectualidade cubana sempre esteve a par dos últimos acontecimentos culturais do mundo. No centro deste substancioso panorama, que em nenhum momento desconheceu as diferenças, manifestaram-se tanto a poesia intimista como a política.
A poesia gerada depois da Revolução socialista de 1959, evidenciou e expressou as mudanças estruturais na ordem sociopolítica, abrindo novos espaços a temas antes desconhecidos. Por tratar-se de uma transformação radical e sustentada, muitos poetas e outros intelectuais abandonaram o país, basicamente por diferenças ideológicas com o sistema, desenvolvendo a sua obra no exílio. A complexidade de um fenómeno histórico de tal magnitude, não permite breves explicações para o seu alcance, mas a Revolução, indiscutivelmente, com amplas campanhas de alfabetização e escolarização maciças, permitiu que um maior número de pessoas se expressassem artisticamente; considerando, além disso, a existência de numerosas Oficinas Literárias em quase todas as Casas de Cultura do país. Daí que várias gerações de poetas se revelaram desde aquele tempo, experimentando e renovando a poesia lírica nacional, em sintonia com os tempos que lhes dá a loucura de viver; tal como aconteceu com a quebra de onda poética dos anos 80, sendo a destacar Alex Pausides, WaldoLeyva, Vladimir Zamora, BasiliaPapastamátiu, MarilynBobes e DelfínPrats, que, com sólido ofício literário, oxigenaram o a poesia cubana revolucionária.
Alguns críticos e diletantes chamaram “Geração 00” àqueles poetas que começaram a desenvolver a sua actividade criativa nas últimas décadas do século XX e começos do presente. Convalescente de uma crise económica na década de 90, resultado do desabamento do Campo Socialista, os roteiros do processo social que começou em 1959 tomaram caminhos nos quais são visíveis a preservação das suas conquistas sociais mais apreciadas: a educação e a saúde pública. Não obstante, o horizonte económico do mundo em que inexoravelmente devemos nos inundar, vem apontando lentas transformações socioeconómicas, que são acompanhadas pelo arguto olhar dos jovens intelectuais.
Chamemo-la do modo como a queiramos chamar, é certo que existe uma mudança notável na expressão poética das últimas fornadas de escritores. Resultado de uma distensão na autocensura, tanto ou mais que a oficial, os temas críticos da realidade cubana contemporânea são tratados com menos contratempos que em décadas passadas, além da proliferação de novíssimos cultores do género, portadores de linguagens e estruturas mais diversas que a de todos os seus antecessores. É tão generoso o número deles, que a abarrotada indústria editorial cubana não chega para cobrir as demandas mais recentes. Existe um grupo de escritores que serviu de ponte para a recente corrida poética, como Roberto Macieira, OmarPérez, Caridade Atencio e Rito RamónAroche, que participam activamente da vida cultural do país, e como agentes propagadores e transmissores de experiências e gestão literárias.
Assim, em alguns casos, e com o seu acompanhamento, saltam à luz pública poetas como ZurelysLópez, Daniel Díaz Mantilha, YanelisEncinosa, Rafael Grilo, KarelLeyva, Amaury Pacheco, Luís Eligio e RacsoMorejón, entre muitos outros que ocupariam estas linhas, e que conta com, ao menos, um ou mais de um título publicado. Uma diferença contrastante com o recente passado, entre os poetas que actualmente fazem a sua incursão na poesia, corresponde ao manejo de técnicas digitais; jovens literatos que desenvolveram parte do seu sistema de intercâmbio cultural a partir dos benefícios da internet, apesar da dificultosa acessibilidade a este novo meio em Cuba. Os temas frequentes da novel poesia cubana, logicamente menos comprometida com os paradigmas de há 57 anos, versam sobre a complexa realidade socioeconómica que aproximam a nação para novas dinâmicas de intercâmbio com o mundo, e suas repercussões nas fibras sociais e individuais mais íntimas, e vice-versa. Do mesmo modo, a linguagem poética criou novas alianças com quase todas as manifestações artísticas, dando lugar a fenómenos como a Poesia visual, ou o Vídeo-poema. Muitas destas inovações convertem a seus criadores em experimentadores interactivos, fazendo aplicações da performance das Artes Visuais, tanto como das Cénicas. Não é difícil constatar que o espectro discursivo se abriu ostensivelmente, alcançando uma interdisciplinaridade pouco conhecida uma ou duas décadas atrás, derrubando o cliché do Poeta com traje e gestos de “Poeta”, pinçando o mesmo na métrica tradicional, como na livre; fazendo-se mais explícita, ou hermética, segundo a tendência ou preferência, mas sempre com um palpite e variabilidade aos que têm dificuldade de lhe seguir a pista a nível institucional.
Rico é o contexto poético da Cuba actual, expressão e evolução de um processo que parece não terminar, em um lugar do mundo que aposta pela renovação, sem Bandeira cubana perder as suas essências humanistas.

AMILKAR FERIA FLORES

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