De cinza na retina

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Sinto que a minha lide está no fim. Não ganhei bastante para tamanho desembolso. Com a cinza na retina já ombreio com a névoa.

Sinto que a minha lide está no fim. Não ganhei bastante para tamanho desembolso. Com a cinza na retina já ombreio com a névoa. Bem, ainda respiro e tenho ensejo de reportagem. Aqui no Paços do concelho de Sam Fecundo onde me encontro, estou sentado, ao lado de outras pessoas do meio artístico-cultural e não só,para assistir ao lançamento de mais uma cria do meuprezadoconterrâneo, Fragoso Esteio. Está a ser um dia de bonita e concorrida romaria a este lugar, com uma enchente plurale proveniente de todos os recantos da ilha. Neste seu mais recente livro«Antologia de Figuras de Preito», faz o Vateuma vibrante alocução acerca do hino dos grilos. E,na sequência, fala detidamente da então concórdiareinante no seio dacomunidade, graças à exímia serenatacom que esses bichos presenteavam a povoação. «Os grilos» - está ele novamentea dizer -, «eram para mim uma orquestra de sublime estirpe. Propiciando-me acesso a uma diletae desejada imaginação, cobrindotodo meu mundo onírico de rica fantasia». E remata «eles afogavam meusmedos de criança em seus ledos acordes de perene adoração».
Num outro poema,exalta o excelsomonte sobranceiro da baía e chama-lhe «pavão de infância». Para, no passo seguinte,pintaro Poço de Azedinha e Fonte-a-Velha, Achada de Ramboia e Passa Sabe, Achada de Pobreza e Piso Térreo, aÁrvore de Páscoaem frente à Praça, mandada vivificar por um suíço religioso aqui escalado. Depois, disserta sobre os ramos de oliveira e das amêndoas de ocasião.Sempôr de lado as guloseimas duma antiga vendedeira do mercado da Enseada. Evocacom saudade e requintado pormenor, com redobrada minúcia até, as aventuras do tempo da catequese, o roteiro da oficinaelemental e sua experiência inaugural no manejo das palavras.O tipo escreve fulgurosamentebem em língua lusa, mas a palestrar prefere sempre a de ático timbre nacional. Eu chego aqui empurrado por um cobalto de duas patas. Estou a ser o centro de todas as atenções. Não que seja paparicado ou que a minha presença inspire grande carinho e admiração, mas tão só pelo enorme pesar que as pessoas têm da minha situação. Sinto que alguns olham para mim com cara triste e solidária, como se estivessem a captar os últimos instantes de um pôr do sol.
Da minha parte, eu que estou na bancada de convidados, ao lado de uma janela, empenho-me em cheio paragravar a imagem da sala e sua bela composição no arquivo da minha mente.A ideia éreproduzi-la,intotum,numa tela. E através dela dar a nova da ingentevida cultural do povo da minha terra ao nobre titular do dom de ubiquidade.Quando passar para o lado de lá da linha,tentarei recriaro cenário que aqui tenho.Numa exposição oferecida aos meus coevos exilados farei a partilha.Porém, de momento,estou a magicar na dolorosa realidade de não mais voltar a pisar a âncora de antanho, dando largas passadas na orla de suapraia e fora dela. O que mais me inquieta e tira sono é o facto de saber que já não possopenetrar Ribeira de Candura adentro e percorrer a sua extensa via verde, nemtrepar Cutelo de Sol na Fronte, Alto de Lacão e Milho Pula, frondosaAchada Equestre, Monte de Limeira e Cume Hircino. A não ser em voonoturnoe silencioso, mas tudo dependendose compatível com bel talantedodono de meu ser remanescente.Contudo, importa esclarecer: eu não sofro de maleita nenhuma. Estou apenas é cansado e quiçá manco de esperança, azafamado e a penejar o tempo todo, nesta achada de peleja e sob peso deste andrajo, seguindo o vaticínio dum crioulo, no encalço do seutalento d’ouro e do seuquilate de diamantes «padjobi, padjobi, padjobi», como majestosamentecanta um aguerrido trovador.
*Nas vestes de Donato de Advento


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