Dino Santiago: foi-se a voz da tradição

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Sempre dado como raper, Dino foi traçando a sua carreira de músico. Foi neste circuito que o cabo-verdiano trocou experiências com vozes afirmadas do hip-hop lusófono. Pelo trajecto e disciplina, tudo dizia que seria raper. Como muitas mentalidades das últimas duas décadas, o rap foi o seu contacto prematuro com a arte. Mas enganado esteve quem julgou que o jovem de cabo-verde permaneceria aí, feliz nas batidas que a máquina pop americana reduziu a jogos de camara, beat e manequins esbeltas.

Era apenas rap e não o homem. Porque foram as viagens a Cabo-verde, onde aí mantinha contacto com os mais velhos possuidores de profundas estórias e sábias parábolas da tradição das ilhas, que despertaram nele a música, e a música “resgatou” nele o homem preocupado com a África e seus valores inerentes: “foi a voz da tradição”, diz Dino, justificado a metamorfose que o levou a mudar radicalmente do rap ao batuku, funaná, koladera, morna; estilos que traz no cd EVA, editado este ano.

Das dez faixas do álbum, seis são cantadas em crioulo, mas “de Santigo”, como Dino prefere que seja identificado, num misto de gosto e orgulho. Traz sempre nas suas respostas uma pequena alusão à língua de Cabo-verde e à Ilha de Santiago, aquele local que então podia não significar tanto para o jovem que se revia em muitas coisas das metrópoles da diáspora, onde sempre viveu. Tocado, hoje Dino defende ser preciso encontrar caminhos que nos levam até aos ancestrais, aos dialectos, e espera
que eles não se percam no tempo.

Na Ilha de Luanda

Miami Beach (Ilha de Luanda, num crioulo harmónico, Dino tirou do EVA o “Nós Tradison”, primeira faixa deste álbum, um lento funaná, já tocado com elegância distinta na companhia de Sara Tavares. E Dino justifica: Foi preciso toca-lo em um funaná mais lento, um pouco à maneira do Bulimundo (conjunto musical cabo-verdiano surgido na década de 80, muito ovacionado por fazer ressurgir o estilo à escala lusófona), e também porque assim a mensagem chega a ser melhor compreendida”. Depois foi “Mont: graciosa”, um hino à chuva.

Sustentada com uma parábola de tempo de seca em Cabo-verde, quando um homem se vê como insignificante diante das grandes forças da natureza, “Djonsinho Cabral” foi das músicas mais aplaudidas. Embora em crioulo, o diálogo intercultural entre povos de grandes laços foi consumado com “Pensa na Oji”, música em que participa Paulo Flores.

Desta, Dino conta: “Fazer o “Pensa na Oji” com Paulo Flores e ele dizer que queria cantar em crioulo foi uma grande bênção para alguém que quer se encontrar. Eu cresci ouvindo Paulo Flores, cheio daquele seu jeito devoto de carregar a cultura angolana”. Mas foram Nelo de Carvalho e Nsoki, artistas convidados, que acompanharam o cantor nesta
proposta, fechando o encontro com uma interpretação conjunta da música de Cesária
Évora, “Petit Pays”.

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