Eduardo White: " Vou mostrar-vos de outra maneira toda a substância desta mania

Envie este artigo por email

Morreu na madrugada de domingo, dia 24 de Agosto, no Hospital Central de Maputo, o poeta moçambicano Eduardo White, um dos nomes mais significativos da actual literatura moçambicana e autor de uma extensa bibliografia, inaugurada há 30 anos com Amar sobre o Índico (1984).

Eduardo White:
White por Bruno Mikahil

Eduardo Luís de Menezes Costley- White nasceu a 21 de Novembro de 1963 em Quelimane, de mãe portuguesa e pai inglês. É um dos poetas ligados à fundação da revista bimestral Charrua,da Associação de Escritores Moçambicanos (AEMO), que em meados dos anos 80 contribuiu para renovar a literatura do país.
Em 2001, foi considerado a figura literária do ano em Moçambique, e três anos depois recebeu o Prémio José Craveirinha, atribuído ao seu livro O Manual das Mãos. Em 1992, já recebera o Prémio Nacional de Poesia por Poemas da Ciência de Voar e da Engenharia de Ser Ave. Ainda no ano passado, recebeu o Prémio Literário Glória de Sant'Anna com o livroO Poeta Diarista e os Ascetas Desiluminados.
Além de poesia, publicou também novelas e outros textos em prosa. Entre os seus livros mais recentes incluem-se O Homem a Sombra e a Flor e Algumas Cartas do Interior (2004), Até Amanhã Coração (2007), Dos Limões Amarelos do Falo às Laranjas Vermelhas da Vulva (2009), Nudos (2011), antologia da sua obra poética, O Libreto da Miséria (2012), A Mecânica Lunar e A Escrita Desassossegada (2012), O Poeta Diarista e os Ascetas Desiluminados (2012), e Bom Dia, Dia (2014).

OBRA POÉTICA
Numa preocupação com as origens, Eduardo White tenta na sua poesia reflectir sobre a sua história e sobre Moçambique, numa tentativa de apagar as marcas da guerra e de dignificar a vida humana. Para isso, escreve através de um amor diversificado que pode ser pela amada, pela terra ou mesmo pela própria poesia, sempre num tom de ternura, de onirismo, de musicalidade e, por vezes, de erotismo.
(“Eduardo White” in Infopédia. Porto:
Porto Editora, 2003-2008 <URL:
http://www.infopedia.pt/$eduardowhite>)
Moderníssimo, kafkiano, os seus textos apontam para uma leitura poética metalinguística, ou seja, em que os poemas, ao engendrarem a si
mesmos, contam, paralelamente, a história de seu povo (amores, sofrimentos, opressões, miséria, estigmas das guerras, etc.) e a história da própria linguagem literária. (Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante , 2005 com.br/2005/11/29/Pagina125.ht m> Empenhado em cantar o Amor, a fim de que a paz se consolidasse nos âmagos individual e nacional,White desenvolveu uma escrita poética que almejou erotizar uma terra acometida pelas degradantes consequências de sucessivas guerras. Exaltando a vida e tudo o que dela pulsasse, o poeta exibiu um eu-lírico marcadamente optimista, embora, muitas vezes, melancólico e indignado. […]
Os versos de Eduardo Whiteultrapassaram o raio de visão do senso comum.
Sem perder de vista os escombros, os cadáveres, os mutilados e a miséria, a poética do autor se propôs apontar caminhos e motivações para alcançar uma estabilização social.
Nesse sentido, aprendemos com White que Amor e Poesia não significam instituições alienadas ou alienantes, visto que a própria mensagem poética, em O país de mim, nos tenha advertido: “ao amor não ponhas vendas, nunca, nem sequer aos poemas” (WHITE, 1989, p. 20).
“Como explicar que um jovem escritor dê tanta importância ao tema lírico [do amor] num país tão marcado pela violência?” – questionou Michel Laban numa entrevista que integra o livro Moçambique: encontro com escritores.
White justificou a selecção do seu material poético, grifando o canto subjectivo como um discurso de resistência e persistência da memória: “Antes de mais nada gostaria de ressaltar que a temática que eu usei nos dois livros é acima de tudo uma temática de protesto e também de relembrança. A minha geração é uma geração de guerra: da guerra colonial [...] e agora e sempre a guerra com a Renamo. O que eu procurei é levar ao leitor uma relembrança do que afinal está em nós ainda vivo, do que a gente acredita como sendo possível, como sendo real, que é o amor.” (WHITE, in: LABAN, 1998, p.
1179 apud ALMEIDA, 2006 <www.letras.
ufrj.br/posverna/mestrado/AlmeidaCMC.
pdf>)

POEMAS

Não faz mal.
Voar é uma dádiva da poesia.
Um verso arde na brancura aérea do papel,
toma balanço,
não resiste.
Solta-se-lhe
o animal alado.
Voa sobre as casas,
sobre as ruas,
sobre os homens que passam,
procura um pássaro
para acasalar.
Sílaba a sílaba
o verso voa.
E se o procurarmos? Que não se desespere, pois nunca o iremos encontrar.
Algum sentimento o terá deixado pousar, partido com ele. Estará o verso connosco?
Provavelmente apenas a parte que nos coube. Aquietemo-nos. Amainemo-
nos esse desejo de o prendermos.
Não é justo um pássaro onde ele não pode voar.

Vou mostrar-vos de outra maneira toda a substância desta mania. Um pássaro
bebe nu na minha boca e em vão vai querer saber que álcool o comove com
tanta frescura. Primeiro pia, limpa as asas robusta ainda húmidas da saliva e depois
canta e ferve e sua, e num minuto já todo o corpo lhe estrebucha. Chama
por mim. São muito velozes e bruscas as suas tonturas e eu face a isso perguntovos
por que terá vindo nu um pássaro a beber à minha boca? Que esplendor ou
embriaguez ele procura? Que obscuros dons, que vocação, que loucura?
Vamos, entremos agora no mistério onde o poema nos vigia, rente ao murmúrio
para que a alegria não retina e podem ver ao fundo, ali, um estábulo onde
as palavras se abrigam, acolá, um bebedouro onde a memória bebe, os restos de
feno, dois tipos que trabalham em pleno escuro e já visível a farma, a terra em
uso. Estão aqui os instrumentos, os moldes da mania de que vos falei há bocado.
Voemos.
Voar não é senão essa ilusão,
fazê-la possível. Tê-la vivendo.
Voar é estender as mãos
a esse desejo que nos dói
como um punhal insurgente.

Ocorre-me agora
a pupila minúscula de uma criança.
A sua engenharia
desde o corpo na guerreira pequenez
ao dedo provador da boca.
Ocorre-me esta criança
este monge da franqueza em seu templo de inocência.
Amo-a. Vivo-a.
Voar é poder amar uma criança.
Sonhar-lhe o peso no colo, as mãos acariciantes
sobre a palma da alma.
Voar é tardar a boca
na rosa do rosto de uma criança.
Pronunciar-lhe a ternura,
a seda fresca e pura
da sua infância.
Voar é adormecer o homem
na mão sonhadora
de uma criança.
___________________________
Por exemplo, o fogo.
O fogo estabelece o seu trabalho,
a sua centígrada destreza para arder.
E não sei se notaste
que na digital matriz das suas febres
o fogo opõe-se,
insubmisso,
a morrer.
Arde como se definitivo
e quando assim sucede tende a crescer,
busca aquela leveza das altas labaredas,
a implícita tontura das fagulhas.
O fogo arde como se quisesse fugir do chão,
das suas cavernas metalúrgicas,
ascende ao impulso dos foguetões,
à infância astral, à casa solar.
O fogo entristece, por vezes.
Chora inflamável na sua fatalidade terrestre
a estranha e lenhosa prisão
que o prende e embrutece.
Quer voar,
quer a sua ancestral condição de estrela
mas na corrida espacial com que o fogo queima,
na perpétua evasão,
a gula intestina-o
à sua pressa.

POEMA DA PERGUNTAÇÃO

Não somos todos, os envergonhados, os verdadeiros culpados?
Não somos nós, os indignados, os verdadeiros carrascos?
O que antes e agora julgamos, não foi apenas uma pequena evidência? O que nós
prendemos não foi a mão obscura de uma consciência? E mesmo o que matamos, não
foi tão somente uma ínfima parte da verdade?
E procuramos grades? E procuramos muros altos e seguros? E procuramos homens
obtusos para que os possamos vigiar? E procuramos armas para os tornarmos intransponíveis?
De nada nos valerá, de nada nos adiantará. Não há ferro, nem betão, nem servilismo
nenhum que nos possam salvar da luz da verdade.
Uma mentira não tem sempre sede de liberdade? Uma mentira não é a cela da verdade?
E quantas vezes a pretendemos prender? E com quantas grades a desejamos ocultar?
E com quantas mãos a ameaçamos estrangular?
Não vale a pena. Desistamos. Em nenhum maciço de betão podemos esconder o que a
nossa consciência sabe. Em nenhuma anedota, em nenhum boato, em nenhuma suposição,
em nenhuma imparcialidade e em nenhum juiz e em nenhum desmentido nos jornais
e em nenhum país. Nem de nós, nem dos outros.

Comentários

Newsletter


Colabore com o Jornal Cultura - Envie-nos os artigos da sua autoria.

Colaboradores Ver todos