"Em África não há problemas, o que há é uma busca de soluções"

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Cacophonie é o último romance de Ken Bugul, editado em 2014. Esse romance de uma mulher que se enclausura pouco a pouco fisicamente, depois psicologicamente, numa "casa amarela" numa “cidade ocre” no “continente claro-escuro”, é a oportunidade para a romancista senegalesa voltar a alguns elementos chave do seu poemário. Africultures foi ao seu encontro.

"Em África não há problemas, o que há é uma busca de soluções"

"Para lá das certezas"

Através de Cacophonie, Ken Bugul pinta o retrato de uma mulher que progressivamente vai ficando enclausurada. Quando a interpelamos sobre o ponto de partida deste romance, durante o festival Nio Far, em Paris, em que ela intervém, Ken Bugul remete para a sua própria situação na escrita: "Eu começava a envelhecer, e sentia-me cada vez melhor, dizia para mim própria que não havia nada melhor do que envelhecer. Estava numa espécie de satisfação beata da minha vida. E pensei: "Isso chega-te? Pois a vida está apenas no começo. O ponto de partida era então uma reflexão sobre as conquistas, as certezas e as convicções."
Procurando o que ela designa por "um pretexto para escrever", a escritora senegalesa, de 67 anos, encontra no caminho da sua inspiração uma mulher idosa, Sali, viúva, que pensava que a família do seu marido a amava, e estava atormentada por uma profunda desilusão. "Esta mulher completamente à vontade e que se apercebeu de que não era verdade "acaba por se entregar a um verdadeiro monólogo interior para justificar uma "insuficiência existencial". "É tão fácil dizer: "Tive uma infância dolorosa, se tivesse sido criada pelos meus pais, se não tivesse sido criada por freiras católicas, etc." É fácil dizer isso", acrescenta a autora distanciando-se da sua personagem. "Eu não gosto quando não existe dinâmica. Gosto que as coisas estejam em movimento". A situação de Sali constitui assim o "pretexto" procurado para "pôr em causa os dados adquiridos, as certezas e as convicções". Para Ken Bugul, nascida Marietou Mbaye, e cujo pseudónimo literário significa "aquela que ninguém quer", "é preciso estarmos sempre na dúvida para criar a dinâmica de ir para além das certezas. Nunca devemos estar certos de nada pois é um limite no tempo e no espaço". A clausura é assim um ponto de partida do romance, mas também, no sentido próprio do termo, a partida necessária para um novo sopro, um novo motor criativo.
Esse princípio de escrita é assim um princípio de vida, de tal maneira que quando se trata de evocar a sua ligação a obras literárias anteriores, a autora de uma dezena de romances prefere pensar em termos dinâmicos de propulsão: "Nunca volto a olhar para o que fiz. Se tiveres essa tentação, avança e resiste. Quando eu avanço, não olho para trás. Como no conto de Senghor e Abdoulaye Sadji, Leuk, a lebre, quando o velho macaco acaba por descer da árvore e diz: "Nasci agora". “Deixa-me no lugar onde quero nascer".

"As identidades assassinas"

Compreende-se realmente que este encerramento não é uma situação sustentável para a personagem de Sali: "É por isso que no fim ela se despe, na água, e que fala do pano", explica a autora. Este último elemento funciona de facto, nas palavras da narradora, como um elemento de boa educação feminina à qual ela não teve acesso, mas no fundo isso importa pouco porque se livra disso, deita tudo fora como nas Identités meurtrières (Identidades Assassinas) de Amin Maalouf". Para lá da intriga e da situação própria do personagem, compreende-se assim que são os diferentes jugos identitários que devemos evitar. "Se nos fecharmos numa identidade, isso pode tornar-se violência", mas essa fuga salutar pode ser, como no ensaio de Maalouf editado em 1998, uma força viva e criadora, "uma dinâmica, a de continuar a viver, de ir para além dos dados adquiridos para nos propulsarmos numa nova vida", afirma Ken Bugul.
Mesmo se, como acontece com frequência nos romances de Ken Bugul, o material está impregnado da autenticidade das vivências e a casa amarela, na realidade, é inspirada em Saint Brieuc, onde ela tinha ido visitar uma amiga, esta última é comparada na ficção a outra figura da clausura mortífera, o supliciado de Kaffrine. O ambiente no qual evolui Sali mostra-se assim como altamente simbólico: “vi uma casa amarela rodeada de edifícios. Durante todo o tempo em que lá estive, não vi ninguém, nem portas, nem entradas, nem saídas. A minha amiga tinha-me contado que os seus habitantes tinham resistido mas que pouco a poucos os edifícios tinham fechado esse pequeno terreno com uma casa pintada de amarelo vivo no meio dos prédios.” Dois símbolos parecem então responder-se e entrar em tensão no romance. A “casa amarela”, por um lado, e, por outro lado, o “cântaro raíz”: “So waccé sa andd, so deme ci anddu jambur fekk fa borom mu jonkan ci" “ a expressão significa que “se desceres do teu cântaro, e fores para o cântaro do outro, vais encontrar o seu proprietário lá sentado”. O cântaro é por isso também plenamente simbólico, sugere que “é preciso construirmo-nos interiormente e não em relação a dados adquiridos ou aspirações sociais, ou mesmo em relação às origens. Eu sou africana, deveria reivindicá-lo? Eu sou mulher, tenho que ser feminista? O cântaro é uma construção do indivíduo em si mesmo para si mesmo”.
As reflexões sobre as identidades, esclerosantes e paralisantes, estão aliás na origem dos romances de Ken Bugul, que concebe, nomeadamente, a sua trilogia autobiográfica (Le Baobab Fou -1984, Cendres et braises-1994, Riwan ou le chemin de sable- 1999) como uma busca tripla de libertação identitária (em relação às suas origens e à condição de mulher, afim de descobrir, no fim do percurso a descoberta do ser humano enquanto indivíduo singular).
A língua de escrita carrega igualmente vestígios dessa necessidade de libertação. “Se eu nunca escrevi em wolof, é porque o vocabulário era limitado para as raparigas. Na minha educação, naquela época, eu não podia exprimir a cólera, ou dizer palavrões em wolof. Quando estou zangada, ainda hoje, exprimo-me em francês ou em inglês. É uma educação da altura, com um vocabulário limitado para a mulher, simplesmente por causa da hierarquia social da mulher. Havia sempre alguém para falar por nós. A tia paterna, por exemplo, tem um grande papel na estrutura familiar muito hierarquizada. E o “eu” tradicionalmente não existe, é o “nós”, a comunidade, que contam. O “eu” já é uma transgressão”.

“O continente claro-escuro”

Para além de certezas questionadas por Sali, é uma imagem contrastada do continente, e por isso bem longe dos julgamentos definitivos, mais uma vez, que Ken Bugul sugere com essa expressão. A imagem do continente africano abre-se, com efeito, em Cacophonie, sobre a imagem, impressionante, de uma rejeição, do jovem expulso e enviado à força para um país de onde tinha fugido. Também aí, a experiência não andava longe da génese do romance. “Enquanto eu reflectia sobre esse romance, estava no aeroporto. Ouvi esse jovem gritar: “Não quero voltar a África”. Essa pessoa partiu de África talvez por querer evadir-se dos muros. Eu já falava nisso em La folie et la mort. Muitos jovens partem, não por quererem, mas porque existe uma enorme pressão…Mas quando chegamos aqui, há outros muros. E então uma expulsão é uma humilhação e quando se volta é “la folie ou la mort” (a loucura ou a morte), pois se não formos “bem-sucedidos na imigração” depois de a família se ter desfeito das poupanças, das jóias, etc., colam-te essa imagem, essa violência, que eu incluí no trabalho do livro”.
No entanto, a visão do continente não poderia ser desencantada, pelo contrário: “Se África sobrevive apesar de todos esses “pesares” é graças ao poder da imaginação, porque utilizamos todos os dias a nossa imaginação para resolver os problemas do dia-a-dia. Desde que acordamos de manhã, perguntamo-nos o que podemos comer, a saúde, a comida para as crianças…; e procuramos logo soluções. Em África não há problemas, o que há é uma busca de soluções. É por isso que é dinâmico, enérgico, e eu adoro isso. Nos países desenvolvidos aborreço-me”. O claro-escuro não é por isso uma expressão escolhida por acaso, “porque, apesar desta obscuridade em África, há essa claridade, essa energia, esta luz. Apesar de todos os pesares, os conflitos, os deslocados, assim que alguém encontra um espaço, uma pequena fogueira, e que as crianças adormecem, sente-se esta serenidade nas pessoas, usufruindo dos momentos de descanso. Apenas aproveitando esses instantes de pausa. Apesar de todos os pesares é aí que temos que viver. É o berço mas também é o futuro. Eu amo África. Gosto muito de vir à Europa mas amo África.”
Para além do oximoro, o termo pictural de “claro-escuro” coloca-nos igualmente na pista da importância simbólica de certas metáforas inspiradoras, como o Haiti, no romance, que funciona como um espaço investido pelo imaginário: “O Haiti é África. É uma metáfora. Lá eu podia estar nua, caminhar na Cidade Sol. E todos os haitianos sabem que sou profundamente haitiana. Mas na realidade utilizo o Haiti, a sua História desde a escravatura, a sua resistência, como uma metáfora. São Africanos, é um país onde ainda se sente África. Não nos sentimos deslocados. É uma forma de resistência que lembra também toda a História da escravatura, do colonialismo e todas as desgraças que continuam a acontecer-lhes. No entanto, a criatividade está em todo o lado. É um país que eu continuo a utilizar como ligação a África. Mesmo lá, nos seus mitos e crenças, eles dizem que há um caminho nos abismos que leva a África. Essa mística lembra outros lugares nas Antilhas, nas Caraíbas, no Brasil… onde as religiões que vieram de África se mantiveram, mesmo existindo também outras influências, há sempre misticamente uma relação com as águas, com Mami Wata por exemplo, diz-se que esse caminho continua a existir. É por isso que no fim Sali mergulha no abismo. É sempre a dinâmica, a energia.”
O romance fecha-se sobre um real imaginário, onde a ficção retoma os seus direitos, onde a vida anda a par da morte e o sonho da realidade. Cacophonie, convidando-nos à intranquilidade, face às certezas estabelecidas com demasiada facilidade, força-nos à "prospectar no imaginário", como tão bem diz a sua autora. O imaginário como força criadora, para além de um poder transgressor e libertador seguro, seria assim esse apetite de vida, essa vontade de propulsão, que impedem o indivíduo de mergulhar nos sentimentos, os princípios ou as condições que o asfixiam.

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