Em busca do passado

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Wilfried N´sondé recebeu vários prémios com o seu romance sobre o embaixador do Reino do Congo, Nsaku Ne Vunda "Negrita". Já o seu irmão, o historiador Jean N´sondé, destaca-se na investigação sobre a cultura e línguas dos antigos reinos africanos. Tudo para mudar alguma coisa em Guadalupe, aliás, terra onde nasceu a escritora Maryse Condé, distinguida, em Outubro,  com o prémio alternativo ao Nobel da Literatura por "descrever os danos do colonialismo e o caos do pós-colonialismo".

Jean de Dieu N´sondé nasceu na República do Congo, em Brazzaville, nos agitados anos de 1960. Descendentes de comerciantes de escravos, a história sempre o perseguiu. O antigo Reino do Congo fascina-o. Doutorado em História pré-colonial, Jean N´sondé vive hoje em Guadalupe, ilha onde dá aulas no ensino secundário e se dedica à pesquisa.
Quando esteve em Luanda, a convite das Embaixadas da França e da Alemanha, para uma um série de conferências, o historiador não escondeu o seu desagrado em relação ao abandono das línguas nacionais. "Cresci fora do Congo, mas aprendi as línguas africanas", diz. Com domínio de Kikongo e Kimbundu, Jean de Dieu N´sondé lembra que foi na Europa em que aperfeiçoou o domínio das referidas línguas, enquanto isso, lembra com tristeza que muitos jovens que deixou no Congo e em Guadalupe não dominam nenhuma língua africana. "Temos uma geração que precisa cada vez mais de referências", garante. "Os indianos assumem a nacionalidade do lugar em que estão, mas não se esquecem da sua língua e dos seus modos".
Com os livros "Falemos Kikongo" e “Falemos Kimbundu”, o historiador Simão Souindoula, aquando do lançamento desta última obra em 2012, revelou que Jean N´sondé "completa com este livro as suas sólidas análises sobre a evolução religiosa, linguística e civilizacional do imenso conjunto federal Kongo e dos seus territórios aliados".
Mas este antigo estudante da rigorosa Escola Histórica de Brazzaville não é o único da família a dedicar-se à pesquisa da história do antigo Reino do Congo. O seu irmão, nascido em 1968, o escritor Wilfried N´sondé, também tem o mesmo fascínio. O rapaz Wilfried que chega à França em 1973, torna-se músico anos depois em Berlim, chega a tempo de ver o Muro a desmoronar-se e chega à idade adulta a viver no Canadá como escritor reconhecido e premiado. O seu último romance, "Un océan, deux mers, trois continents", ainda sem tradução em português, é uma narrativa histórico-ficcional onde Wilfried N’Sondé, desenterrando um herói desconhecido na história da humanidade, mas real, constrói um romance de aventura narrando a história de Nsaku Ne Vunda - Dom António Manuel, nome pelo qual foi ordenado padre. Wilfried conta que, quando descobriu o destino incrível de Dom António Manuel, sentiu-se atraído pela história, e aconselhado pelo irmão, historiador, resolveu escrever o livro. “O meu irmão soube que eu tinha o personagem principal da história e incentivou-me a escrever”, disse.
Dom António Manuel Nsaku Ne Vunda, padre fiel, e muito apegado à fé católica, jovem, forte e corajoso, instruído por missionários portugueses, é enviado pelo seu monarca, Rei do Kongo, Álvaro II, como primeiro Embaixador Africano no Vaticano e defender os Direitos da Pessoa Humana, denunciando o tráfico de escravos. "Negrita" chegou a Roma depois duma viagem muito longa e extremamente difícil que o levou a adoecer seriamente e a morrer pouco tempo depois. Mas fora muito bem recebido pelo Papa Paulo V, que mandou depois tumulá-lo na importante Basílica papal de Santa Maria Maior, no centro de Roma.
A obra de Wilfried N’Sondé, que já foi apresentando em Luanda, em Março último, está a merecer boas críticas e prémios em França, além de uma excelente divulgação da vida de Nsaku Ne Vunda. "Un océan, deux mers, trois continents" mereceu este ano o Prémio do Leitor "L'Express / BFMTV" e, durante atribuição do galardão, conta-se que "os jurados falaram com brilho nos olhos" e como "se tivessem acabado de fazer uma longa viagem com um ser excepcional". Só em França, Wilfried N’Sondé já recebeu quatro prémios pela história de Nsaku Ne Vunda. "Os episódios da sua vida são uma sucessão de eventos extraordinários, muitas vezes desconcertante", diz. "Eu estava ansioso para escrever, para relatar os perigos que ele havia encontrado desde a sua aldeia natal do Kongo até ao Vaticano. Imaginei-o como um homem simples, armado com o seu amor pelos seus irmãos e irmãs. Um herói que conseguiria escapar do poder dos poderosos do seu tempo e triunfar nos seus ideais!".
Casado e pai de três filhos, o historiador Jean N´sondé conta que lhe deu prazer ajudar o irmão, já que são histórias dramatizadas de Wilfried que fazem renascer o orgulho dos africanos de Guadalupe, e essa é uma boa herança para os seus filhos. Numa das conferências no Centro Cultural Brasil Angola (CCBA), em Luanda, Jean N´sondé emocionou-se ao revelar à plateia que, em Guadalupe, ainda há pessoas que não querem ouvir falar da escravatura por sentirem dor e vergonha desse passado. "Nota-se a dor ainda viva nas pessoas quando se fala do assunto".
Mas os assuntos que fazem ressurgir o trágico passado de dor fazem parte do trabalho de Maryse Condé, a escritora guadalupense que, nascida em 1937, é hoje uma reconhecida feminista e activista, difusora da história e cultura africanas nas Caraíbas.
Maryse Condé, que em várias obras descreveu como o colonialismo mudou o mundo e como os que são afectados retomam a sua herança, foi distinguida, em Outubro, com o prémio alternativo ao Nobel da Literatura. O Prémio de Literatura da Nova Academia foi criado como protesto contra o cancelamento do Prémio Nobel daLiteratura e tinha outros três finalistas, o japonês Haruki Murakami, a vietnamita Kim Thúy e o inglês Neil Gaiman."Nas suas obras, com uma linguagem precisa", Maryse Condé "descreve os danos do colonialismo e o caos do pós-colonialismo", afirmou a Nova Academia, no anúncio realizado na Biblioteca Pública de Estocolmo.
A viver nos Estados Unidos e considerada uma das autoras mais destacadas das Caraíbas, Maryse Condé, que não está traduzida em português, escreve romances desde os 11 anos, tendo publicado mais de duas dezenas de livros, tais como Hérémakhonon, de 1976, os dois volumes de Ségou, de 1984 e 1985, ou Desirada, de 1997. Também se dedicou à escrita de peças de teatro, livros para crianças e ensaios. Depois de se graduar na escola secundária local, Maryse foi enviada ao Lycée Fénelon e à Sorbonne em Paris, onde obteve um doutoramento em Literatura Comparada. Em 1985 Condé obteve uma bolsa Fulbright para ensinar nos Estados Unidos, como professora na Universidade de Columbia, em Nova York, eretira-se em 2004. Anteriormente ensinou na Universidade de Califórnia, Berkeley, UCLA, a Sorbonne, Universidade de Virginia e a Universidade de Nanterre. Entre as suas obras mais conhecidas, podemos destacar Segu (1984-1985), que aborda o Império de Bambara no Mali do século XIX, a memória e o cruzamento destes povos, dos seus deuses ancestrais. Na novela, Dusika Taoré, um chefe africano, não poderá evitar que as famílias se desintegrem no reino de Bambara e experimentem a escravatura, a conversão a uma nova religião e o colonialismo. Tudo isso desde um ponto de vista político e questionador da diáspora.

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