Estação mágica em Paris

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Quando comecei esta rúbrica, queria evitar que os meus artigos fizessem da cidade de Paris um mito citadino.

No entanto, o encanto inerente à capital francesa ultrapassa-me. É o pilar da sua identidade. Efectivamente, ao percorrer esta cidade parece que nos transformamos num personagem mundano que evolui num cenário de cartão postal. Até agora, tinha preferido mostrar África a partir de Paris. E é verdade que se passa sempre algo relacionado com o continente. A diáspora africana faz parte da paisagem humana parisiense e a sede de curiosidade pode explicar todas essas manifestações africanistas. Proponho-vos, portanto, uma narrativa caricatural de uma cidade adulada todos os anos por milhões de turistas por ser uma capital do mundo inteiro.

Paris é moda
Por ocasião da semana parisiense do prêt-à-porter, os criadores indonésios ocuparam um showroom inteiro no Hotel Meurice. O prestigioso palácio acolheu, em pleno coração da cidade, o Vendôme Luxury. Se Tex Saverio se impõe como o chefe de fila da nova geração de designers indonésios, nota-se igualmente o trabalho de Toton, Vinora, Yosafat Dwi Kurniawan, jovens marcas presentes para mostrar as suas criações aos compradores internacionais. A embaixada da República da Indonésia ofereceu aos seus convidados uma recepção refinada para promover a Jakarta Fashion Week. A efervescência da cidade-luz é uma estupenda rampa de lançamento para esse evento.

Os estilistas portugueses mostram também em Paris as suas propostas de Outono-Inverno 2014/15. Optam pelos mais fabulosos locais parisienses, como o Lido, onde Fátima Lopes apresentou a sua colecção Outono-Inverno 2014. Luis Buchinho preferiu sublinhar toda a contemporaneidade das colecções no recinto do IRCAM.

Paris é arte e cultura
Paris tem groove. A Cidade da música apresenta a exposição interactiva Great Black Music (de 11 de Março a 24 de Agosto de 2014) que reflecte a riqueza e a diversidade da música negra. James Brown, Célia Cruz, Duke Ellington, Miriam Makeba, Franco, Gilberto Gil, todos os talentos estão reunidos nesta antologia da música negra. África, América, Caraíbas, a vitalidade musical é inseparável da negritude. Essas músicas triunfam e impõem-se, até formar um património comum, transcultural e transnacional. Dacar, São Dinis (Reunião) e Joanesburgo já dançaram ao ritmo dos 110 álbuns lendários propostos por esta exposição itinerante. O catálogo da exposição agrupa contributos de investigadores e conferencistas que analisam essas músicas e o seu impacto na cultura popular, e outras abordagens científicas. O hip hop entrou aliás no Instituto do Mundo Árabe e recebe o rapper Tunisiano. O eminente especialista em música do mundo árabe e crítico musical, Rabah Mezouane, encontra, por ocasião de um generoso intercâmbio intelectual, o músico de origem tunisina que apresenta o seu novo álbum e reivindica uma fibra contestatária. Os ícones das músicas negras influenciam jovens vindos dos quatro cantos do continente e do resto do mundo. A universalidade está contida no mundo negro. A africanidade está em alta.

Paris celebra a força da mulher intelectual
A petulante camaronesa Calixthe Beyala publica a sua última obra intitulada Le Christ selon l'Afrique [Cristo segundo África]. Esta mulher de letras e de causas oferece-nos uma reflexão sobre o mundo africano contemporâneo. A romancista examina as derivadas africanas através de uma rua de Douala. Uma galeria de personagens «ubuescas» e o messianismo evangélico sem freio formam um cocktail explosivo nas palavras da escritora. Beyala confirma o seu talento e a sua paixão prosseguindo uma obra literária traduzida e estudada em vários países.

Outra figura feminina distingue-se na cidade preferida dos artistas e dos escritores. Nancy Cunard, coleccionadora de arte africana, editora, escritora, musa, mulher na vanguarda dos combates políticos, sai do esquecimento. Esta pioneira e musa dos anos 20 é o tema de uma retrospectiva (de 11 de Março a 18 de Maio de 2014) no museu do Quai Branly. Esta intelectual comprometida de origem britânica publicou em 1934 Negro Anthology [Antologia Negra], um livro de mais de 800 páginas que agrupa contributos de variados autores negros da época. Grandes nomes africanos e afro-americanos estavam agrupados nesse livro de que se perdeu a imensa maioria dos exemplares. A exposição é uma ocasião única de ficarmos a conhecer a autora através das fotografias e dos documentos reunidos.

A riqueza de Paris não cabe na descrição dos meus últimos quatro dias. Há tantas cidades de Paris como parisienses e turistas Dou por findo o meu parêntesis encantado para vos deixar sonhar. Deixo-vos de alma alegre com a perspectiva de ir tomar um copo ao Café de la Paix e de passar horas felizes a passear sob a grandiosa superfície envidraçada realizada por Gustave Eiffel. A Primavera faz a aparição mais tonitruante de sempre com os seus primeiros raios cuja luz resplandecente estria de mil fogos o lendário cinza parisiense.

Exposições :
Great Black Music, Cité de la Musique, 221 Avenida Jean Jaurès, 75019 Paris. "L'Atlantique Noir" de Nancy Cunard, Museu do Quai Branly, 37 Rua do Quai Branly, 75007 Paris. Livro e álbum : Emmanuel Parent (dir., obra colectiva), Great Black Music, Actes Sud-Cité de la Musique, Paris, 2014. Calixthe Beyala, Le Christ selon l'Afrique, Paris, Albin Michel, 2014. Tunisiano Marqué à vie.

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