Francês tem obra marcada pelo resgate da memória: Patrick Modiano é o Nobel de Literatura 2014

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O Prêmio Nobel de Literatura de 2014 foi atribuído ao francês Patrick Modiano, 69, de acordo com a Academia Sueca, "pela sua habilidade de trabalhar com a memória e de resgatar o período sombrio da Segunda Guerra Mundial", em que são ambientados muitos dos seus livros.

Patrick Modiano  é o Nobel de Literatura 2014
Francês tem obra marcada pelo resgate da memória

A Academia Sueca reiterou que Patrick Modiano, pela arte da memória, “evocou os destinos humanos mais incompreensíveis e descortinou ao mundo a vida durante a ocupação" nazi. No ano passado o Nobel foi atribuído à escritora Alice Munro, do Canadá.
Filho de um judeu de Alexandria e de uma comediante belga que se conheceram durante a ocupação nazista na França (1940-44), décimo quinto francês a conquistar o Prémio Nobel de Literatura, o escritor vai receber 8 milhões de coroas suecas.
Avesso a entrevistas, com o argumento de que a sua obra já diz tudo, Modiano afirmou uma vez que a sua memória teve início antes do seu nascimento, em referência à relação dos seus pais, amantes clandestinos num território ocupado. Além da perda do pai, facto com o qual teve de lidar muito cedo, o escritor também perdeu um irmão, na adolescência. Modiano é autor de romances que abordam temas como a culpa, a memória e o sofrimento de um país sob a ocupação nazista.
Autor de livros como “Dora Bruder”, “Vila Triste”, “Meninos Valentes”, “Ronda da Noite” e “Do Mais Longe do Esquecimento”, Modiano é considerado um dos autores mais importantes da atualidade em França. Em 1978 venceu o Goncourt, principal prémio literário do país, com o livro “Rue des Boutiques Obscures”. Vive em Paris e faz da cidade cenário recorrente dos seus textos.
“Modiano tem cerca de 30 livros, a maioria romances. São obras muito curtas que se constituem em variações de um mesmo tema, a memória da perda, a relação entre identidade e memória”, disse o escritor e historiador sueco Peter Englund, secretário da Academia Sueca. "São livros curtos e pequenos, não são difíceis de ler, você pode ler um à tarde e outro depois do jantar. Mas são muito bem escritos, muito elegantes", acrescentou.
"Para quem deseja começar a ler a sua obra, recomendo “Rue des Boutiques Obscures”, sobre um detective que perdeu a memória e precisa descobrir quem realmente é. Para isso, tem de refazer os próprios passos. É um livro muito divertido, que brinca com o género policial”.
Modiano também tem participações no cinema. Ele aparece como roteirista dos filmes “Viagem do Coração” (2003), de Jean-Paul Rappeneau, “Lacombe Lucien” (1974), de Louis Malle, “Le Parfum d'Yvonne” (1994), de Patrice Leconte, e “Une Jeunesse” (1983), de Moshé Mizrahi, os dois últimos adaptados de obras suas. Também actuou, ao lado Catherine Deneuve, no filme “Genealogias de um Crime” (1997), de Raoul Ruiz.

França país mais premiado
O escritor Patrick Modiano torna-se assim no 15º francês a ganhar o Nobel de Literatura, o que reforça a posição do seu país como o que mais vezes ganhou esse prémio, à frente dos Estados Unidos (11) e Reino Unido (10).
O poeta Sully Prudhomme foi o primeiro francês a receber o cobiçado prémio, em 1901. Frédéric Mistral (1904), Romain Rolland (1915), Anatole France (1921) e Henri Bergson (1927) vieram a seguir. Em 1937, depois de um hiato de dez anos, foi a vez de Roger Martin du Gard, autor de “Thibault”.
A França teve que esperar outra década para festejar outro Nobel de Literatura, com André Gide. Em 1952, o laureado foi François Mauriac, e, cinco anos mais tarde, Albert Camus. O poeta, diplomata, filósofo e historiador Saint-John Perse foi premiado três anos depois, e em 1964 a Academia sueca escolheu Jean-Paul Sartre, que recusou o prémio.
Em 1985 Claude Simon foi o Nobel de Literatura e em 2000 o francês de origem chinesa Gao Xingjian. Jean-Marie Gustave Le Clézio ganhou o prémio em 2008

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