Francisco Costa Alegre: "Não somos putos, mas sim uma mestiçagem muito complicada"

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Socialmente vestido de conselheiro da embaixada de São Tomé e Príncipe em Angola, Francisco Fonseca Costa Alegre é um escritor que passaria despercebido numa esquina qualquer das nossas ruas sem que muitos (falando aqui das consequências da carência de intercambio entre escritores dos PALOP) dessem conta do vulto literário santomense que passa ao lado.

Fotografia: Francisco Costa Alegre

Carregado de franqueza e sensatez, virtudes que um bom escritor não dispensa, consciente da sua inquietante palpitação artística ao assumir a sua indefinição, que para os mais atentos pode ser visto como claro sinal de solidez da sua intangível missão de criador, com palavras e modéstias que só a idade bem conseguida dá, Costa alegre deixa sempre à conversa o carimbo do africano que sabe bem ser santomense:

Cultura - Como define a literatura santomense de hoje?
Francisco Costa Alegre - A literatura santomense de hoje está marcada por realidades que os próprios protagonistas e operadores do tecer literário têm manifestado para fazerem o corpus dessa realidade literária contemporânea que ainda é incipiente. Envolvida na história de São Tomé, esta literatura divide-se em dois espaços: o período antigo e o período recente. O primeiro acaba em 1975 e o segundo até aos dias atuais, este que é o período de passagem de testemunho onde se destacam nomes como o contista e romancista Albertino Bragança, a poetisa Conceição de Deus Lima, o contista Jerónimo Salvaterra e muitos outros que vão trazendo novas auras à literatura santomense.

C - Que sentido se pode ter da miscigenação santomense?
F.C.A - Eu, por exemplo, me sinto dividido entre a descendência moçambicana e a portuguesa, e no meio estou sempre a me perguntar quem sou. E é na ideia imediata de espaço onde me apego para afirmar que sou santomense. Isto já espelha que a república de São Tomé e Príncipe é determinantemente um espaço sui generis onde há um pouco de todos. Nós temos descendências de angolanos, moçambicanos, cabo-verdianos, portugueses. Esta mescla de vários povos de diferentes lugares é que dá o sentido da crioulização da literatura santomense. Todo corpus da literatura santomense contemporânea é uma desenvoltura desta mestiçagem.

C - Em "História da Literatura Santomense" questiona: seremos verdadeiramente Bantu? Será a identidade de São Tomé e Príncipe uma missão ainda por se cumprir? F.C.A - Com certeza que a nossa definição como santomenses é algo ainda por se descobrir. Em São Tomé existe a consciência de um povo: o povo Bantu, que é originário da costa africana e que de alguma forma não podemos estar de fora devido a nossa constituição como povo. E sempre que esta questão se coloca perguntamo-nos: será que o povo santomense é verdadeiramente Bantu? Porque quando se chega à questão os santomenses questionam-se a si mesmo procurando definir uma identidade homogénea, e isto leva-nos à conclusão de que não somos puros, mas sim uma mestiçagem muito complicada. Ou, na procura de possibilidades de nós, pode ser que aceitemos a mestiçagem como pureza/base para nos construirmos e daí advir uma pura definição de nós, porque São Tomé é uma mistura de muito sangue. E é sobretudo na prescrição sanguínea que nós nos afirmamos Bantu, embora conscientes de que não somos um povo Bantu puro.

C - Que reminiscências santomenses se pode ver do futuro africano ante o realismo? F.C.A - É uma questão bastante complicada. O futuro de África será construído à medida que o tempo vai surgindo e como nós recebemos a estafeta das realidades dos antepassados e saibamos transpô-las às gerações da posterioridade. No conceito africano, seria a realidade da construção da identidade santomense que eu, em alguns casos, chamo de santomensidade.

C - Acredita no risco do conceito e realidade africana ser um mito para a posterioridade ante os atuais níveis de aculturação?
F.C.A - Todo o mito é uma referência de algo que se passou. Pode ser que, em consequência do realismo, o passado e conceito de África pura para o futurismo venha a ser um mito. Mas o mito como referência longínqua que a sociedade mantém perene e que se conserve nas mentes a realidade africana.

C – Do Poema Mayombe do livro "Mussungú" lêem-se apelos à sabedoria africana. O que fica por detrás do poema? F.C.A – Foi depois de ter lido o livro "Mayombe" de Pepetela que me veio a inspiração de escrever este poema. De facto, os velhos são apanágio de sabedoria e a morte de cada velho é a morte de um dicionário, e muitas vezes uma biblioteca. Outra referência é o mito de que quando se corta uma árvore do Mayombe imediatamente nasce outra. Este poema é um apelo às bibliotecas vivas e da própria realidade em si, isto também pensando em invocar elementos culturais PALOP.

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