Francisco Costa Alegre: "Não somos putos, mas sim uma mestiçagem muito complicada"

Envie este artigo por email

Socialmente vestido de conselheiro da embaixada de São Tomé e Príncipe em Angola, Francisco Fonseca Costa Alegre é um escritor que passaria despercebido numa esquina qualquer das nossas ruas sem que muitos (falando aqui das consequências da carência de intercambio entre escritores dos PALOP) dessem conta do vulto literário santomense que passa ao lado.

Fotografia: Francisco Costa Alegre
C - Em "Madala" tem uma visão infinita e melancólica. Que acontecimentos externos o levaram a prescrever obra?
F.C.A - Eu sou descendente de uma família de escritores, e essa minha primeira obra ainda é incipiente. Foi o meu primeiro passo na literatura. Eu escrevi o livro inspirado nesta palavra que é originária de Moçambique, e que em São Tomé perdeu o sentido de ser velho e passou a ser talismã.

C – Para quem acha que é o dever de realizar o sonho africano?

F.C.A – O sonho de reavivar África é um desafio que nós todos encontramos. Já Alda do Espírito Santo dizia num dos seus poemas: " A liberdade é a pátria dos homens". Isto querendo dizer que os homens enquanto não forem livres de preconceito e ostentarem uma vida social estável eles não serão livres. Serão sempre oprimidos de uma ou de outra forma. Isso compete aos africanos, principalmente aos operadores literários a missão de trazer aos povos africanos uma mensagem de construção de um futuro e identidade que nós podemos almejar. O africano não pode voltar as costas às ideias do desenvolvimento ou repudiar o melhor do ocidente. É preciso assentar num adágio que explica que "o vinho é inimigo do homem, mas voltar as costas ao inimigo é a maior cobardia". Nós não podemos virar contra o ocidente, mas devemos enfrenta-lo encarnando os nossos valores culturais.

C - Depois de uma vasta produção literária, como observa a missão de escritor?

F.C.A - De muitos sonhos. A nossa missão de escritores e sonhadores faz com que muita gente afirme que os escritores vivem no espaço. Isso é verdade. Mas os escritores não podem inteiramente viver no espaço. Eles vivem no espaço com a perspetiva de alterar o solo firme.

C - Que dificuldades encontra o escritor santomense de hoje?

F.C.A - O nível de aceitação de tendências do ocidente em São Tomé também é muito grande em relação às coisas puramente africanas. Não tanto aqui em Angola porque o processo torna-se mais fácil para os músicos e escritores. Mas em São Tomé um dos grandes problemas é a falta de gráficas. Todas as minhas obras são publicadas em Portugal. Somente "Madala" é que foi artesanal. E muitas vezes os revisores portugueses cortam a seu favor parte de alguns textos. Embora exista a liberdade de imprensa, eles só publicam o que acham que não lhes afeta. Diferente seria se nós tivéssemos as nossas gráficas, ou uma sustentabilidade para o efeito.

C - A que conclusão chega sobre o ato de escrever?

F.C.A - Para mim, o ao de escrever é uma manifestação artística, um desabafo, uma maneira de divulgar a realidade do meu país, uma vontade firme de construir e de aprender. Eu quero ser um escritor santomense. Eu ainda não sou escritor. Tudo aquilo que eu faço dá-me alguma sustentabilidade para me considerar um operador literário com ambições. Mas eu gostaria de aprender muito mais para poder escrever também, porque cada vez que eu escrevo eu noto em mim, quando me volto para trás, que tive progresso pelas coisas que fui aprendendo sempre. Escrever é uma forma de me melhorar.

C - Há uma definição justa para si?

F.C.A - Eu sou escritor sem rosto. Ainda não tenho um rosto bem definido. Eu não posso dizer que sou um poeta, romancista ou crítico literário. Mas posso dizer que sou um indivíduo que investiga e depois tenta compô-lo em poesia ou conto. Eu sou contista, e não um romancista.

C - Com "Latitude 63", "Rosas do Vento", "A Cidade de São Tomé", "Brasas de Mutété"e "Kissa-Kianda", fruição intelectual e letargia académica podem justificar a sua intervenção além da Literatura?

F.C.A - A travessia que faço da Literatura à Sociologia e, embora um pouco menos, à Historia é necessidade minha como cidadão em contribuir para o registo de factos históricos do meu povo. Um exemplo muito vivo é o caso do hino nacional de São Tomé e Príncipe ser produto de um texto crioulo que anda desaparecido e que até hoje ninguém consegue recuperar. Este texto era o hino de luta em combate. Hoje ninguém sabe como encontrá-lo.

C - Pode afirmar-se como um crítico de critérios africanos?

F.C.A - ­ Confesso que ainda sou produto do ocidente. Mas não sou radical. Eu faço a crítica a partir de parâmetros ocidentais mas atendendo sempre a realidade africana e santomense. Na "Teorização da Literatura Santomense" tentei criar a teoria da literatura santomense como parte inseparável da história. À medida que se dá passos na história, a literatura também obedece aos critérios de mudança.

Comentários

Newsletter


Colabore com o Jornal Cultura - Envie-nos os artigos da sua autoria.

Colaboradores Ver todos