Friedrich Hölderlin: «São vasos sagrados, os poetas»

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Friedrich Hölderlin, de seu nome completo Johann Christian Friedrich Hölderlin, nasceu em Lauffen, na Alemanha, a 20 de Março de 1770, no seio de uma família de tradições semi-eclesiásticas.

Aos dois anos de idade ficou órfão de pai, e aos nove, perdeu o padrasto. Esta dupla perda marcou profundamente o pequeno Hölderlin, infundindo nele aquela «tendência para o luto» de que falava à mãe, em carta datada de 18 de Junho de 1799.

Destinado pela família à carreira de teólogo (que nunca viria a exercer), frequenta os seminários de Denkendorf, Maulbronn e Tubinga, onde faz o seu exame de teologia, e onde cimenta algumas das amizades que se conservaram ao longo da vida, como foram os casos de Hegel e Schelling.

Para escapar aos deveres do púlpito, dedica-se, desde 1793 e durante dez anos, ao ofício de preceptor de crianças de famílias abastadas, profissão essa que Hölderlin considerou ser «por toda a parte a quinta roda do carro».

Em Iena, depois de abandonar o trabalho de preceptor, frequenta os cursos de Schiller e Ficht, conhece Goethe, e visita Herder em Weimar. As suas relações com Schiller provocam-lhe reações díspares, ora de exaltação, ora de depressão, culminando na sua primeira grande crise depressiva, de onde derivará a tragédia que mais tarde o levará à loucura.

Fugindo precipitadamente deste confronto de personalidades, abandonando inclusivamente os projetos de vir a ocupar um lugar na Universidade, regressa ao lar materno, onde se demora alguns breves meses, voltando ao ofício de preceptor em Francoforte-sobre-o-Meno, na casa de um banqueiro, por cuja esposa, Susette Gontard, se apaixona.

Susette Gontard será imortalizada por Hölderlin com o nome de Diotima, quer no romance elegíaco Hiperíon ou o Eremita da Grécia (publicado por recomendação de Schiller, em dois volumes, em 1797 e 1799, respetivamente), quer nos seus poemas, de que Lamentos de Ménon por Diotima se tornou com o tempo numa das mais belas elegias de amor de língua alemã.

Sendo este o período de maior labor poético, com a escrita de odes clássicas e de poemas extensos, em versos longos (esses hinos, cuja beleza e reinvenção da língua levada ao extremo da sua expressividade e intensidade rítmica, numa originalidade sem precedentes, levará H.A. Korff, em meados dos anos de 1940, a chamar-lhes «sinfonias líricas»), a par das traduções de clássicos gregos, como Édipo o Tirano e Antígona, de Sófocles (cuja ousadia e genialidade postas no exercício da tradução para a língua alemã escandalizaram inclusive Goethe!), é também o período que antecede a sua entrada na loucura, cujo colapso final se verifica em 1806.

Furtando-se sempre, com uma coragem inquebrantável, a prosseguir a carreira eclesiástica, volta a peregrinar como preceptor. Dirige-se para Homburg, onde trabalha desesperadamente na sua obra e se corresponde com a "sua" Diotima, num tom trágico e de aflitiva resignação. Nürtingen (a casa materna), Estugarda, Suíça, França (que atravessará a pé de fronteira a fronteira, ou seja, de Bordéus ao lar materno) serão alguns dos lugares por onde "peregrinou", entre 1798 e 1803.

Ainda em Nürtingen, escreve a Schiller (que jamais lhe responderá), uma carta desesperada, solicitando-lhe os seus bons ofícios, de modo a ingressar como professor na Universidade de Iena, atividade a que tem todo o direito.

Em Julho de 1803, Schelling encontra-o na maior miséria, em estado «nojento», e recomenda-o a Hegel, para que cuide dele. Esta solicitude de alguns raros amigos proporciona-lhe francas melhorias físicas e psíquicas, chegando mesmo a ocupar um lugar como bibliotecário em Homburg.

Mas o seu estado piora, e, não encontrando na medicina esperança de cura para o seu mal, o seu amigo Sinclair leva-o para Tubinga, onde o instala em casa de Zimmer, um mestre marceneiro, que cuidará de Hölderlin até ao fim dos seus dias.

Sendo motivo de chacota para estudantes e garotos, que passam o tempo a enfurecê-lo, é, de quando em vez, visitado por um ou outro poeta ou "amigo da poesia", desses poucos que ainda dele se lembravam como um confrade seu ou como um poeta digno da mais incondicional admiração. Porém, nos intervalos dos acessos de loucura (e mais de metade da sua vida passou-a sob o signo da loucura!), Hölderlin continua ativo, escrevendo alguns dos seus mais belos e pungentes poemas ("A Primavera"; "Visão" e "Último Poema: Paisagem" aqui dados à estampa pertencem a esse ciclo: os chamados Poemas da Loucura, que o autor assinava com o nome de Scardanelli), numa fidelidade extrema àquele amor à Mãe Natureza, a quem, como ele próprio disse, se regressa sempre «quando é necessária uma grande palavra».

Como escreveu um dia Paulo Quintela, Hölderlin «teve da poesia uma conceção sacral, que era filha da sua funda e essencial religiosidade perante a Natureza e a Vida. O homem, afastado há muito da comunidade dos deuses, tem de regressar a essa comunidade. O poeta será o medianeiro, o sacerdote ­ mais tarde, na fase final, mesmo o profeta.» Porque a poesia, como o escreveu o próprio Hölderlin, «a poesia, em toda a sua essência, no seu entusiasmo, como na sua modéstia e sobriedade, é um sereno serviço divino...»

Incompreendido, ostracizado, obnubilado e ignorado durante quase um século, com a obra poética parcamente publicada e dispersa por algumas revistas, é só na transição do final do século XIX para o XX que se assiste à sua "re-descoberta" e ao crescente espaço dado à sua grandeza e à genialidade da voz límpida e nova da sua obra.

Esse trabalho fica a dever-se a poetas e filósofos como Friedrich Nietzsche, Rainer Maria Rilke, Stefan George, Hugo von Hofmannsthal, e, posteriormente, ao filósofo existencialista Martin Heidegger, que considera Hölderlin «o poeta do poeta». E foi justamente a partir da obra de Hölderlin, e não da de outro qualquer poeta, que Heidegger tentou nos seus estudos filosóficos apreender a essência da Poesia.

A 7 de Julho de 1843, aos 73 anos de idade, Hölderlin morre em Tubinga, na casa do mestre marceneiro Zimmer, que escrupulosamente lhe guardou o espólio que constitui hoje a maior parte da obra de um dos mais obscuros e geniais poetas do seu tempo.

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