GRAHAMSTOWN 2012: Sob a controvérsia, a memória de um povo

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Onze dias de admiração: mais que um slogan, é a promessa da 38ª edição do festival nacional de arte de Grahamstown na África do Sul que teve como objetivo este ano de surpreender a todos. Para alguns, o efeito antecipado foi alcançado, para outros saíram de lá dececionados.

Este festival criado em 1974 para vangloriar os efeitos positivos da colonização britânica foi sendo afastado da história real da África do Sul.

Precursor da luta anti-apartheid através da arte, ele soube criar também este ano, a controvérsia, suscitar emoções e engendrar o debate.

O National Art's Festival não parou de crescer durante os últimos 20 anos. Esta 38ª edição acolheu cerca de 200 000 visitantes, cerca de 500 produções artísticas vindas do mundo inteiro, focando-se na ligação França - África do Sul, o que explica a presença de vários artistas franceses nesta edição, como a pianista Carinne Bonnefoy ou ainda a coreógrafa Phia Ménard. Um festival onde os genros e os estilos se misturam alegremente.

Foi em Grahamstown, a 1h30' de carro de Port Elisabeth na província do Cabo oriental, a sul do país, que teve lugar como em cada ano desde há 38 anos atrás, a abertura do "The National Art's Festival", o festival nacional de artes que se manteve de 28 de Junho a 8 de Julho 2012. Trata-se do encontro mais importante da agenda cultural sul-africana, depois do festival de Joannesbourg em Fevereiro.

Sessenta e cinco estabelecimentos públicos da cidade transformaram-se para a ocasião em salas de teatro, de concertos, salas de ópera, os muros foram cobertos de cartazes de espetáculos durante o período do festival: a mudança de Grahamstown foi executada.

Durante onze dias, a cidade viveu ao ritmo da arte e só para a arte: cantores e dançarinos tradicionais nas ruas, apesar dos 10 graus apontados pelos termómetros sul-africanos, exposições de artistas, pintores, a corrida para cumprir horários e não perder o início de espetáculos, pois os espectadores deixavam uma sala situada no fim de uma rua e logo se punham a correr até ao extremo da outra rua, para não perder o início de um outro espetáculo.

O festival torna-se um verdadeiro ballet artístico ao qual cada um dá a sua contribuição. Durante mais de uma semana das 8h à meia-noite é uma verdadeira bolha cultural que se instala neste burgo situado no extremo sul do continente africano.

Tudo começa à entrada do edifício no monumento nacional da cidade, onde se encontra um espesso programa do festival. Um jornal oficial dos espetáculos oferece um variado leque de criações de qualidade variável: música, dança, ópera clássica ou contemporânea, etc. Os grandes nomes das artes estão lá, como também os desconhecidos.

Lá fora é um outro festival que se desenrola, o oficioso igualmente importante. Do guitarrista de rua, ao grupo de dançarinos tradicionais, todos vêm tentar a sua sorte esperando destacar-se e cair no goto de um agente comercial, ou de uma companhia de espetáculos.
Que este gigantesco festival se instale a Grahamstown pode surpreender, como sublinha a artista francesa Phia Ménard: "Este lugar é muito particular.

É como se o tempo aqui tivesse parado. Tenho a impressão de estar no "décor" de um filme, de uma história impressionante que se passou aqui há muito anos atrás. É a segunda vez que participo neste festival e não posso deixar de me surpreender pela escolha deste lugar para a realização do festival."

Esta remota cidade colonial britânica, fundada em 1820, conserva ainda os seus edifícios vitorianos, a suas ruas largas e limpas e a indolência dos pequenos burgos em recuo, típicos da campanha inglesa. Os escassos bares animados lembram-nos que estamos em 2012 e sobretudo as suas universidades reconhecidas no continente e no mundo, valem bem o nome da "Oxford sul-africana".

Nas escolas preparatórias e primárias, encontram-se placas em homenagem às obras de destaque sociais dos antigos colonos britânicos. Alias, é em memória destes que o festival de Grahamstown foi criado em 1974, ao mesmo tempo que a construção do monumento nacional, um edifício consagrado à cultura para lembrar o que trouxeram os colonos ingleses do século XIX, em termos culturais e civilizacionais.

Naquela altura, só existiam sessenta espetáculos muito clássicos, numa África do sul regida pelo sistema do Apartheid. A segregação é institucionalizada, os negros sul-africanos viviam acantonados em favelas, ainda atualmente pobres, e apenas os colonos britânicos tinham direito aos bairros ricos com casas sólidas e situadas no centro das grandes cidades. Só nos anos oitenta, é que o festival sofreu uma transformação para tornar-se num centro nevrálgico da arte sul-africana em geral e um ponto de encontro das artes do mundo inteiro.

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